sexta-feira, 2 de junho de 2017

A partir de baixo e da esquerda, existe muito povo disposto a defender a Venezuela

                                                            
Carlos Aznárez

Resumen Latinoamericano

Rodolfo Walsh, cuja coerência e rebeldia ante o poder estabelecido continua iluminando o caminho de novos e anônimos revolucionários e revolucionárias, desprezava certo tipo de “intelectuais” que nunca se encontram na linha de frente.

Esse tipo de gente que prega dos púlpitos que eles e elas próprias constroem para sugerir que nunca chega o momento do que inquestionavelmente é preciso fazer, ou que queimam a cabeça para descobrir os pontos fracos de tal ou qual processo revolucionário que se promoveu, apesar deles.

Em outras palavras, são os que preferem ver a árvore e ignorar o bosque, e quase sempre se equivocam em suas adivinhações situacionais, porque muitas poucas vezes (como em tudo existem exceções) sujam os pés com os de baixo.

Algo assim vem ocorrendo neste último tempo com certa “esquerda”, majoritariamente acadêmica, que nas atuais condições de investida imperialista contra a Venezuela prefere estar à margem do que defende a maioria da faixa mais humilde do povo de Bolívar e Hugo Chávez e lançar para o alto uma nova carga de munição pesada contra este processo. E o fazem desde a variante de ressuscitar, outra vez, a teoria dos dois demônios.

Como não podia ser de outra maneira, este tipo de ataques, formulados em declarações, artigos ou manifestos contam com ampla difusão em meios ostensivamente de direita, que se regozijam em contar entre as fileiras dos batedores da Revoluçao Bolivaraiana não só os cúmplices do golpista Capriles Radonski e o instigador de crimes contra o povo, Leopoldo López, mas também uma plêiade de “esquerdistas”, entre os quais figuram sempre aqueles que saem da cena quando a situação se torna tempestuosa, ou os que se somam à frase “pelas dúvidas”, temerosos de não ficar “presos” ao eventual naufrágio de um barco que em alguma distante ocasião (quando corriam os tempos e se praticava a solidariedade 5 estrelas) eles mesmos ajudaram a navegar e hoje tentam afundar.

Estes “esquerdistas”, propagandeados pela Infobae e outros meios direitistas, acusam o governo de Nicolás Maduro de estar “deslegitimado e com marcadas características autoritárias”. Para dar mais força a suas denúncias, se recostam nos cantos da democracia burguesa, da qual se dizem cultores e defensores, e dali criticam que o Executivo venezuelano “desconhece outros ramos do poder”, entre eles a Assembleia Legislativa, invadida desde dezembro de 2015, por um grupo operativo de propagadores da violência fascista. 

Estes mesmos que hoje lançam nas ruas seus cachorros, mistura de “filhinhos de papai” com lúmpens e paramilitares colombianos, para arrasar com tudo que cheire à chavismo, golpear cidadãos e cidadãs que não aderem a seus objetivos desestabilizadores, degolar com cabos de aço desprevenidos motoristas. Em sua prática terrorista, chegaram a queimar vivos jovens chavistas ou linchar um ex-tenente da Guarda Militar Bolivariana.

Por muito menos que isso, em qualquer dos países de onde provêm estes “intelectuais de esquerda”, não a polícia, mas o próprio exército já gerou, em seu afã repressivo, um autêntico cemitério. No entanto, o “autoritário” é Maduro, que ordenou que o freio a tanta criminalidade se faça atendo-se ao Estado de direito. E quando isto não ocorre, diferente de outros países, não se titubeia em deter e julgar aqueles militares ou policiais que tenham violado os direitos humanos.

Se quer ignorar por acaso que a maioria dos mortos apoiou o chavismo, colocando-o no poder novamente, como ocorrera com o golpe de 2002? Tenta-se esconder, por meio da verborragia pseudo-esquerdista, que estes assassinos hoje aspiram transformar a Venezuela em algo muito parecido ao que a OTAN e seus cúmplices mercenários fizeram no Iraque, Líbia, Afeganistão e Síria?

Mentem descaradamente aqueles que atacam uma Revolução que em 17 anos ofereceu a todo seu povo uma avalanche de conquistas sociais, só comparáveis com as outorgadas por seus irmãos revolucionários cubanos. Mentem quando falam da legitimidade, sabendo muito bem que é um dos processos que mais disputas eleitorais teve que atravessar e na grande maioria delas saiu vitorioso.

Mentem quando, a partir de seu democratismo de ocasião, assinalam que o Governo venezuelano bloqueou e postergou o referendo revocatório, sabendo que foi a oposição quem não cumpriu com os prazos para a apresentação dessa demanda e que se inventou e falsificou milhares de cédulas, incluindo uma boa quantidade de mortos, para forçar o que do ponto de vista da lei era ilegal.

Mentem quando falam do “falido autogolpe do executivo”, quando na realidade o que está ocorrendo há anos, em forma mais acentuada desde que o Comandante Hugo Chávez foi assassinado, é uma verdadeira escalada golpista, que inclui todos os elementos de uma guerra de quarta geração: bloqueio econômico e destruição de uma paridade racional do dinheiro venezuelano com relação ao dólar, contrabando ilegal e massivo de gasolina e alimentos para a Colômbia com a cumplicidade do governo de Juan Manuel Santos e do paramilitar Uribe Vélez, desabastecimento constante para afetar, com a falta de alimentos e medicamentos, os setores humildes, enquanto nos bairros do Leste de Caracas, onde vive a burguesia maiamera, é possível adquirir o que não se encontra em Catia, Petare ou no bairro 23 de Enero. Sem falar do papel desempenhado pelo terrorismo midiático em todas estas instâncias.

Mentem estes “intelectuais e acadêmicos” quando falam de que a eles interessa a paz para deter a “violência institucional e de rua”, típico da teoria dos dois demônios. Não existem duas violências, mas, por um lado, existe terrorismo puro e duro, e por outro uma tentativa racional e mediada de respondê-la.

Mentem estes “pacifistas” quando pretendem ignorar as numerosas tentativas de convocatória ao diálogo realizadas pelo governo de Maduro a uma oposição, que, como ocorre na Síria, só se interessa pela guerra e pela derrubada de um governo legítimo para construir uma neocolônia norte-americana em solo venezuelano. Uma vez que isso ocorra, alcançariam seu verdadeiro objetivo, que gerou tanta destruição e morte: recuperar para Washington todo o petróleo hoje administrado pela PDVSA, assim como as jazidas minerais distribuídas profusamente em solo venezuelano.

Chama poderosamente a atenção que estas mesmas propostas “esquerdistas” coincidam tanto com as formuladas, em clara atitude provocadora, pelo secretário da OEA, Luis Almagro e, inclusive, com os “chamamentos humanitários” lançados pelo Comando Sul norte-americano. 

Isto ocorre porque, nos tempos atuais, onde o imperialismo está em plena ofensiva e nossos povos resistem nos diversos cenários que permitem suas próprias forças, não é de esquerda levantar as propostas da direita internacional, não é de esquerda opôr-se ao que a maioria do povo trabalhador e camponês, os estudantes, as mulheres, os jovens e a grande maioria dos coletivos sociais anseiam para a Venezuela. 
                                                                     
E isto é, defender as inúmeras conquistas obtidas com a Revolução chavista, apoiar o governo de Nicolás Maduro, fortificar ainda mais a unidade povo-forças armadas (algo que a oposição quer romper à força de assassinatos seletivos de militares) e conseguir instalar um cenário definitivo de paz e não ingerência.

Como ocorreu em outros tempos, em que a Revolução Cubana teve que tomar medidas drásticas para frear aqueles terroristas orientados pelo governo dos Estados Unidos, hoje também, como ontem, alguns “intelectuais” decidem cortejar com o diabo e atacar o que o povo venezuelano está disposto a defender até com sua própria vida.

O grande problema é que a rua do meio pela qual tentam transitar estes críticos já não existe. Acabaram-se os meios-tons, e o dilema é escolher se realmente se é de esquerda: entre a Revolução e o anti-imperialismo, aprofundando e ridicularizando sua ação para chegar ao socialismo, ao acoplar-se vergonhosamente com os seguidores venezuelanos da destruição política, econômica e militar de nossos países.

Lendo a lista de assinatura de alguns destes manifestos opositores “de esquerda” dói encontrar alguns nomes que souberam estar à altura das circunstâncias em diferentes pátrias anticapitalistas. Só a eles, não a outros que nunca entenderam nem Cuba e nem Venezuela, vale a pena pedir que reconsiderem e não continuem aproximando mais gasolina ao fogo da destruição da gesta bolivariana. Não é questão de se desfazer do pensamento crítico. 

Pelo contrário, existem diversos temas que nós, que nos sentimos chavistas, também debatemos e criticamos os erros cometidos, porém com a responsabilidade de saber qual terreno pantanoso o Império foi instalando ao processo bolivariano. Nesse sentido, é fundamental considerar uma premissa que vem desde a história das lutas populares. Trata-se de que o inimigo principal quer apoderar-se da Venezuela como ante o fez em Honduras, Paraguai, Brasil. Se a Venezuela cai, toda a Pátria Grande será afetada duramente e já será tarde para os arrependimentos.

Por último, constatar que existe muito povo e não poucos intelectuais e acadêmicos de esquerda – com letra maiúscula – que estão dispostos a defender a Venezuela, seu governo e seu processo revolucionário. Caia quem cair, goste quem gostar e custe o que custar.

Fonte: http://www.resumenlatinoamericano.org/2017/05/31/desde-abajo-y-a-la-izquierda-hay-mucho-pueblo-dispuesto-a-defender-a-venezuela-por-carlos-aznarez/

Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)

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