A saga de um cirurgião

                                                                       

Arnóbio Moreira Félix (*)


Optar pela medicina é uma decisão que carrega enorme carga de responsabilidade, compromisso, comprometimento, renúncia, investimento de tempo e de dinheiro, dedicação e entrega. Um verdadeiro sacerdócio! 

Uma belíssima profissão, com ótimas perspectivas de trabalho, de remuneração e de interface com a comunidade, com diferentes culturas, com decisões de política pública, com responsabilidades cívicas, responsabilidades jurídicas, responsabilidades previdenciárias e com uma maior aproximação com Deus, na medida em que vivemos intimamente ligados às limitações humanas, à fragilidade orgânica e muito mais conscientes da finitude do corpo físico e da imensidão da alma. 

Um privilégio!

À parte a todo esse cenário, quero falar um pouco da realidade de um médico cirurgião, que presta os seus serviços, seja para clientes do Sistema de Saúde Suplementar, seja para o Sistema Único de Saúde, seja para clientes privados ou mesmo por filantropia. 

O cirurgião, após ter se graduado em medicina, com seis anos de curso, em tempo integral, e de ter dedicado a mais dois, três, quatro ou mais anos a uma especialização cirúrgica (programa de Residência Médica), se vê apto a prestar os seus serviços à comunidade. 

Como qualquer outro profissional, submetido e regulado por órgãos de classe e pelo mercado de trabalho, ele precisa captar, atender bem, diagnosticar, orientar, tratar e fidelizar o seu cliente que, sendo um paciente com indicação de um tratamento cirúrgico, deposita no cirurgião toda a confiança e crença, convencido que está da competência, da ética e da lisura daquele profissional.

É neste vínculo, nesta Relação Médico X Paciente que está a essência e a sobrevivência do nosso trabalho. Uma honra!

Entretanto, poucos sabem, é que pesa sobre o cirurgião, ou sobre a equipe contratada por ele, toda uma sorte de obrigações, protocolos, regras, burocracias, exigências legais, processos e rotinas hospitalares, códigos, impressos, guias, relatórios e uma outra enorme quantidade de afazeres e deveres. 

Só para se ter uma ideia, gastamos muito mais do que o tempo destinado a uma consulta médica regular, apenas para o preenchimento de guias e de formulários, sem perdermos o foco naquilo que é o mais importante, ou seja, o relacionamento com o nosso paciente/cliente. 
                                     
Temos que requisitar e avaliar exames pré operatórios, solicitar avaliação de Risco Cirúrgico, de Risco Anestésico, reservar materiais específicos para cada cirurgia (instrumentais e aqueles que serão implantados), contactar o Banco de Sangue, contactar o CTI, providenciar o agendamento no Centro Cirúrgico, agendar com a sua equipe de trabalho, preencher a Guia para Autorização dos procedimentos cirúrgicos, com os códigos específicos que variam entre os diferentes Convênios e que estão contidos em tabelas bíblicas, de tão grandes e extensas. 

Percebam que, até aqui, já entraram em cena, vários outros profissionais, muitos dos quais não são conhecidos do cirurgião e muito menos do paciente. Cada um desses profissionais concorrem para a fluidez e eficácia do processo e dos resultados, mas infelizmente, por falta de treinamento, de interesse ou de qualquer outra razão, nem sempre se envolvem ou se comprometem no processo. 

Cada um cuida da sua tarefa ou da sua missão e são profissionais no que fazem, mas, de uma maneira natural, não estão comprometidos com uma visão de longo prazo, no relacionamento com um paciente fragilizado, e que está prestes a se submeter a uma cirurgia.

É chegado o dia da esperada cirurgia. O cirurgião já explicou para o paciente todo o contexto pré operatório e pós operatório, com o esclarecimento das necessárias dúvidas e perguntas que, naturalmente, povoam a cabeça e o imaginário de um paciente que será submetido a uma cirurgia. 

A família do paciente se mobiliza. Familiares e o próprio paciente, quando necessário, requisitam os devidos documentos médicos de afastamento do trabalho e de relatórios pecuniários. O paciente se submete ao planejamento pré cirúrgico, ao preparo emocional, às orações, a jejuns de oito, dez, doze ou  mais horas e o nível de ansiedade e de adrenalina se elevam.

O cirurgião, por sua vez, já checou a sala cirúrgica, a equipe, o material a ser utilizado e preenche toda a documentação extensa, inerente à internação e que varia muito, de hospital para hospital, e que é representada por diferentes senhas de acesso, a distintos sistemas de informática, bem como às enormes diferenças de aplicativos, dos mais variados e confusos processamentos e funcionamentos. 
                                         
Para os cirurgiões neófitos, das chamadas Gerações “X”, ou “Y”, esse mundo informatizado é natural, mas para alguns cirurgiões da Geração “Baby Boomers”, trata-se de um momento de muita angústia e sensação de impotência, na frente de um teclado de computador. Uma constatação! É importante dizer que nada, absolutamente nada acontece, se cada um desses detalhes burocráticos não estiverem rigorosamente e completamente preenchidos. 

Sempre aparece uma pessoa de prontidão para dizer em alto e bom tom: “Doutor. O sistema não aceita dessa maneira.” ou “eu não posso pegar nenhum material se todos os campos da Folha de Sala não estiverem preenchidos”. Ok. 

Estamos em um país onde a burocracia impera e a gente já se acostumou a se adequar a esta realidade. Eu só penso que deveria haver uma maior comunicação e alinhamento entre os diferentes hospitais e distintos softwears, para que o aprendizado fosse sinérgico e não desperdiçado, sempre que estamos diante de um novo aplicativo. Dureza!

     Entretanto, como já foi dito, quando o cirurgião adentra ao hospital e ao bloco cirúrgico, ele se depara com uma enorme quantidade de pessoas, muitas das quais ele ainda não conhece, e que têm participação direta ou indireta na harmonia do tratamento a ser instituído ao paciente. Profissionais da Recepção, da Admissão, do Transporte, da Segurança, da Secretaria do Bloco Cirúrgico, da Higienização, da Farmácia Hospitalar, da Enfermagem, da Instrumentação Cirúrgica, do Setor de Órteses e Próteses, da Esterilização, dos vários Estagiários e outros que transitam pelo hospital, cada um com a sua atribuição e contribuição nas rotinas e em todo o processo e fluxo do serviço.

É difícil dizer que, nem sempre o cirurgião os conhece, mas cada um deles pode impactar, decisivamente, no sucesso ou no insucesso do tratamento. É neste ponto que cabe uma reflexiva constatação: quando tudo dá certo com o tratamento do cliente, o sucesso é de todos, mas quando os resultados não são alcançados, sobram poucas pessoas para compartilhar e assumir o fracasso.

O maior prejudicado, nessa eventualidade é, sem dúvida, o fragilizado paciente, mas pesará sobre o cirurgião uma enorme responsabilidade e compromisso na condução do caso. Ninguém vai ficar sabendo se um material não estava esterilizado, se faltou algum material na cena cirúrgica, se um medicamento estava vencido, se o paciente estava por demais estressado diante de todas as etapas que antecederam a cirurgia, se algum equipamento não funcionou, se havia moscas no Centro Cirúrgico, se o paciente foi mal conduzido nos traslados internos dentro do hospital, ou se houve uma infinidade de possíveis erros ou negligências no processo.

Outro aspecto interessante é que existe uma diferença astronômica entre o insucesso de um tratamento e o erro médico. Muitas vezes, um mal resultado de um tratamento é interpretado, por quem quer que seja, como erro médico e isso é mais um karma a incomodar a qualquer cirurgião.

O nosso contrato com o paciente é de meios e não de fins. Escolhemos, em comum acordo com o paciente, um “caminho a ser percorrido”, sem a possibilidade ou direito de prometê-lo que chegaremos bem ao “destino final”. 

Assumimos casos difíceis, de pacientes terminais, outros vítimas de graves acidentes, outros portadores de infecções crônicas, de insuficiências orgânicas as mais diversas, de deformidades congênitas ou adquiridas, de pacientes que têm um precário estoque de saúde, e acabamos por sermos imputados por evoluções ruins no curso do tratamento. Um fardo que carregamos!

Assumindo que tudo correu bem com o planejamento e com a cirurgia, entramos nos períodos pós operatórios imediato, mediato e tardio. É hora de acompanharmos o paciente no leito de internação, ouvir e tratar as suas dores e demais desconfortos, passar visitas médicas à noite, na manhã do dia seguinte, nos fins de semana e quantas vezes forem necessárias. 

É hora do cirurgião preencher relatórios médicos periciais, atestados para o paciente ou acompanhante, preencher outros relatórios para o convênio, sempre que alguma “Não Conformidade” estiver presente no processo. Mas, correu tudo bem e o paciente teve a tão esperada Alta Hospitalar. 

Lá estava o cirurgião preenchendo mais formulários físicos e virtuais, cumprindo exigências regulamentares. O cirurgião pode até dormir, mas o celular de um cirurgião nunca dorme porque, a qualquer momento, o paciente pode precisar de acioná-lo para algum esclarecimento e, em alguns casos, para informar sobre possíveis complicações. 

O cirurgião está sempre de prontidão para o seu cliente e, nos casos em que isso não acontece, situações desconfortáveis poderão advir, com prejuízos para o tratamento e para o relacionamento entre o cliente e o cirurgião. Mas, tudo correu bem e o cirurgião precisará, agora, ver o seu cliente, a cada semana (dependendo de caso a caso), para troca de curativos, de imobilizações, de retirada de pontos, de novos relatórios, de prescrição de fisioterapia ou de tratamentos adicionais. Uma maratona!

Você sabia?

- Que se uma cirurgia atrasa e o horário de um plantão acaba, muda o anestesista, muda o residente, muda a enfermeira de sala, muda a enfermeira chefe, muda toda a equipe, mas o cirurgião está lá, enquanto a cirurgia durar, independente do dia e do horário;
- Que a maioria dos convênios não paga nenhuma despesa de curativos realizados nos consultórios médicos;

- Que o cirurgião, mesmo atendendo um cliente, semanalmente, recebe do convênio somente uma consulta, a cada 30 dias;

- Que o cirurgião recebe somente 50% dos valores de honorários cirúrgicos, quando o paciente tem um convênio com acomodação em Enfermaria (o serviço prestado pelo cirurgião é exatamente o mesmo e o cirurgião não tem nenhuma influência no momento em que alguém contrata um Convênio de Saúde ou quando o cliente marca uma consulta);

- Que o paciente liga para o cirurgião, mesmo diante de complicações anestésicas, de documentos perdidos na internação ou de qualquer insatisfação percebida no hospital (desnecessário dizer que o cirurgião não é remunerado para isso);

- Que os convênios, ao remunerarem os médicos, não levam em conta o tempo de formação do profissional, o nível de capacitação ou a performance de resultados prévios;

- Que os honorários pagos por uma consulta médica é uma das despesas mais baratas no “cardápio” de serviços oferecidos por um convênio;

- Que os cirurgiões perdem incontáveis fins de semana, momentos com a família, encontro com amigos, tempo para oração, noites de sono ou descanso, para servir à sua clientela e atender prontamente às urgências demandadas. Isso sem contar os plantões e sobreavisos regulamentares;

- Que são os cirurgiões quem assumem os gastos, além daqueles do seu consultório, mas também dos instrumentadores, secretárias e Residentes da Equipe;

 - Que quando um cirurgião sai de férias ou viaja para um congresso, além de assumir as suas despesas habituais de viagem, ele deixa de receber por não estar produzindo naquele período, mas continua pagando todas as despesas representadas pelos custos fixos da sua atividade profissional;

- Que quando um médico adoece, ele não tem a prerrogativa de pegar Atestados Médicos com ninguém. Apenas decide se trabalha doente (o mais comum) ou se abdica de seus recebimentos, enquanto estiver enfermo;

- Que o médico fornece relatório para as pessoas comprarem automóveis com generosos descontos, para receberem seguros os mais diversos, para mudarem de função no trabalho, para receberem “passe livre” em várias repartições ou em transportes públicos, para conseguirem empregos, para conseguirem a aposentadoria, para se ausentarem de uma convocação judicial etc., em troca do honorário de uma consulta médica.

Bem. Muitos que leram até aqui podem estar assustados, atemorizados ou mesmo rindo de tudo isso, mas eu já tenho longos e árduos 22 anos de formado e me senti na necessidade de dividir essa realidade com os meus leitores e amigos, até porque a burocracia, as exigências, as regulações e as chateações aumentam a cada dia. 

A maioria dos cirurgiões mantém uma média de quatro cirurgias semanais e essa história toda se repete, com cada paciente e com cada condução de um caso cirúrgico. Não tem sido fácil desempenhar a nossa profissão, diante deste cenário que, aos meus olhos, tornou-se injusto e quase covarde. 

São os cirurgiões que recebem o paciente e, em uma visão mercadológica, abastecem de serviços uma enorme quantidade de setores, sem serem reconhecidos adequadamente. Sem o paciente e o cirurgião, muita gente fica sem ocupação em uma engrenagem hospitalar e poucos percebem isso, transferindo, cada vez mais, aos cirurgiões, atribuições que vão muito além da nossa expertise, qual seja, sermos médicos e cirurgiões. 

A caneta de um médico “vende” receitas medicamentosas, internações, dietas, calçados, palmilhas, órteses, próteses, fisioterapias, aulas de academia, aulas de hidroginástica, exames de todo tipo e de astronômicos valores, colchões, terapias alternativas etc., etc., e não recebemos, ainda numa visão mercadológica, nada em troca. Aliás, constitui crime se um médico receber comissão de qualquer um desses produtos, mesmo neste mundo tão capitalista. Um contra censo!

Por fim! Não é demais dizer que temos que estar sempre alinhados com a ciência, com os avanços tecnológicos e com a ética, mas fica visível a cruel realidade em que vivemos. Muitos desistem, ou param de operar, ou adoecem, ou são vítimas de processos penais, ou perdem a família, ou suicidam, ou morrem... 

Mas é preciso ter força e é preciso ter raça, sempre. Acreditamos em um futuro melhor, em gestores melhores, em políticos melhores, em um equilíbrio melhor entre as ocupações e atribuições. Se já nos submetemos a tabelas remuneratórias tão aviltantes, ao menos que não pese sobre nós essa carga burocrática, tão extenuante, desgastante e humilhante. Que cobrem dos cirurgiões o que eles têm de melhor que é a capacidade de atender bem, de orientar, de ajudar, de operar e, em casos especiais, de curar os seus clientes.

      Querem saber quanto um Convênio paga, em média, por uma cirurgia? Bom. Desculpa! Isso seria assunto para um outro texto, muito mais dramático.

Atenciosamente,

(*) Arnóbio Moreira Félix – CRM-MG 25515
Cirurgião Ortopedista
Preceptor de Residência Médica
Professor Universitário
Membro do Corpo Clínico de oito hospitais, em Minas Gerais
MBA em Gestão de Saúde, pela FGV
Mestrando em Educação e Desenvolvimento Local
Oficial da Reserva do Exército Brasileiro

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