Biblioteca ameaçada de fechamento

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Literatura nunca foi objeto de interesse das grandes multidões

Carlos Lúcio Gontijo


Quem se acha envolvido com a arte literária não se pode guiar pelos sites e blogs que atraem o interesse de milhares ou milhões de internautas. Literatura nunca foi objeto de interesse das grandes multidões, até porque a história do poder que se manteve (e se mantém) no comando das nações jamais registrou governante entregue ao cabal empenho de dar à sua gente ensino democratizado e de qualidade abrangente. O que assistimos, na maioria das vezes, é à existência de esforços pontuais, à medida que a realidade comprova que o cidadão mais caro é aquele que não dispõe do grau de educação exigido pelo mercado de trabalho e termina por necessitar da proteção de dispendiosas políticas públicas de assistência social.

Platão, ciente da escassez de leitores, dizia que, “se um livro fosse lido por uma única pessoa além de seu próprio autor, já estaria justificada a sua existência”. Ou seja, os que se dedicam ao trabalho literário não se devem conduzir pela busca da fama ou da notoriedade imediata alcançada por pessoas que atuam em áreas de intenso apelo popular. Não há como espaço virtual literário sério alcançar o mesmo número de acesso de BBBs ou chamar a mesma atenção recebida pelas mídias que se dedicam a divulgar fofocas e curiosidades relativas à vida dos que habitam o mundo dos ricos e famosos.

Dentro desse prisma, não nos fazemos dispostos a aceitar o anúncio da possibilidade de fechamento de biblioteca digital desenvolvida em software livre, sob a alegação simplista de que o endereço virtual é pouco acessado (www.dominiopublico.gov.br). Antes de colocar em prática a guilhotina projetada, os burocratas da administração pública brasileira deveriam reportar-se a Platão e, assim, manter no ar tão importante site, no qual o solitário e casual internauta pode ver as grandes pinturas de Leonardo Da Vinci; ler Machado de Assis, outras 732 da literatura portuguesa e várias histórias infantis; ouvir músicas de qualidade em MP3 etc.

Enfim, o que esperamos é que a autoridade pública não caia no conto de transferir para o número de acesso o único motivo para a existência ou não de um endereço virtual voltado ao aprimoramento do conhecimento humano. E tem mais: já pensou se, diante dos descalabros que assolam a humanidade, decretássemos o fim da racionalidade humana por absoluto desuso da razão! Não foi à toa, portanto, que lacramos o contador de acesso de nosso site (www.carlosluciogontijo.jor.br): temos plena consciência que a literatura, quase sempre embebida em sentimento reflexivo, não ostenta o poder de disputar o voo da freguesia com os insistentes chamamentos em direção ao supérfluo bem embalado e dourado como solução para o total esquecimento das dores do mundo, contribuindo para a construção de um ambiente comportamental que deságua na cultura de evento, na qual o hábito de leitura não é visto como fonte de entretenimento, prazer e lazer – não passando de pedra no caminho.

Eis aí o porquê de, ao atingirmos 100 mil acessos, não mais registrarmos o número de visitas ao nosso site, explicando a nossa decisão com o poema CONTADOR LACRADO: Não posso deixar minha literatura/ Dependente de número de acesso/ Seria para ela tortura e retrocesso/ Da internet só quero o endereço/ E o apreço do internauta sensível/ Por isso, apago as luzes da ribalta pueril/ Lacro agora o contador em cem mil/ Ciente de que o louvor que procuro/ É fruto de tempo aos molhos/ Que sobre a literatura por que luto/ Um dia debruçará seus olhos.


(*)Carlos Lúcio Gontijo é jornalista, poeta e escritor

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