quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Pequenos agricultores jejuam contra a reforma da Previdência

                                                                            
                                                                    
Mário Luiz Vargas conta que começou a trabalhar capinando lavoura de mandioca aos 4 anos. Aos 52, ele é hoje um pequeno agricultor no município de Amaral Ferrador, no interior do Rio Grande do Sul. Planta para subsistência milho, feijão, batata-doce, mandioca, melancia, melão, tomate, pepino, ervilha, moranguinho, etc. Também cria para consumo próprio porco, galinha, pato e ganso. O que sobra vende para obter remuneração. É um trabalho de sol a sol, que, com o passar do tempo, se torna cada vez mais difícil. “Hoje, às 5h eu já estou levantado. Quando chega 6h, 6h10, já estou na lavoura trabalhando. A cada ano que vai passando, tu já nota a diferença. Já não tem aquela resistência para trabalhar, o rendimento é menor”, afirma.

A reportagem é de Luís Eduardo Gomes, publicada por Sul21, 13-12-2017.

Na manhã desta quarta-feira (13), Mário foi um dos agricultores e representantes de movimentos sociais que iniciou um jejum de 48 horas contra a reforma da Previdência, que está para ser votada pela Câmara dos Deputados ainda em dezembro. Ele ainda não se aposentou e, apesar de a reforma prever uma regra de transição que levará em conta todo seu tempo de trabalho, teme que as gerações que o sucederem precisem continuar trabalhando na lavoura mesmo depois de já não terem mais forças para isso. “A nossa preocupação é que esse direito que já tínhamos adquirido possa ser perdido. Hoje, nós estamos participando do jejum para que milhões de pessoas não passem fome no futuro”, diz.

Além de Mário, que faz parte do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), começaram o jejum, às 10h30, na esplanada do Palácio Farroupilha, sede de Assembleia Legislativa do RS, outros dez integrantes de movimentos sociais, que, além do MPA, incluem MST, CUT-RS, FTIA-RS e Levante Popular da Juventude. Inicialmente, os jejuantes devem permanecer no local até a manhã de sexta-feira — mas o período pode ser prorrogado.

A ideia é que eles durmam no local. Segundo os movimentos que participam da ação, eles só tomarão água durante os próximos dias e serão acompanhados por médicos ligados ao MST e por enfermeiros ligados a sindicatos. A manifestação se soma a uma greve de fome realizada por agricultores há 9 dias na Câmara dos Deputados. Outros atos semelhantes também estão ocorrendo em outras partes do País.

Atualmente, trabalhadores rurais podem se aposentar com 60 anos, no caso dos homens, e 55, no das mulheres. Quem atua na economia familiar não precisa contribuir para o INSS, mas precisa comprovar 15 anos de atividade agrícola ou em zona rural. A primeira versão da reforma previa que os agricultores rurais teriam as mesmas regras dos urbanos, isto é, mínimo de 65 anos, independente de homens e mulheres, e 25 anos de contribuição, mas o texto da reforma foi alterado desde então para reduzir a idade mínima, mantendo o tempo de contribuição. Porém, ainda não há definição de como será a redação final da reforma para os trabalhadores rurais.

Paulo Mioranza, da coordenação do MST e assentado em Nova Santa Rita, destaca que o jejum tem um papel importante na divulgação da luta organizada contra a reforma da Previdência. “A reforma da Previdência é o retrocesso para o povo brasileiro, em especial nós agricultores, camponeses da reforma agrária. Nós estamos aqui em defesa de toda a classe, mas também para dizer que não vamos retroceder nesse processo de luta até que essa reforma destituída por completo”, destaca.

Fátima Soares, da direção da Federação dos Trabalhadores nas Indústrias da Alimentação do Rio Grande do Sul (FTIA-RS), destaca que decidiu participar da ação para representar as mulheres, especialmente as trabalhadoras negras do setor da alimentação. “Estou aqui em prol das pessoas mais novas que, com certeza, não vão conseguir suas aposentadorias. São pessoas que vão lutar a vida inteira e não vão alcançar o objetivo que todo mundo quer”, diz.

Após o início do jejum, foi realizado um ato de apoio ao grupo. Na ocasião, além de expressarem apoio, deputados do PT se comprometeram a participar de pelo menos uma parte do jejum. No início da tarde, já tinham começado a jejuar os deputados Tarcísio Zimmermann e Stela Farias. Eles serão substituídos amanhã pelos parlamentares Jefferson Fernandes e Nelsinho Metalúrgico. Outros deputados também devem participar de alguma parte do jejum, mas, por questões médicas, não podem acompanhar a ação por um período mais prolongado, como é o caso de Altemir Tortelli.

“Estamos juntos, apoiando, e parte dos deputados estarão diretamente envolvidos”, diz Tortelli, acrescentando que a ação é uma das prioridades da bancada na luta contra a reforma da Previdência. “Nós estamos acompanhando a nossa bancada federal em Brasília e a movimentação que os sindicatos estão fazendo para que, se houver votação na semana que vem, a linha que a CUT-RS está tirando é a linha que nós vamos estar mobilizando nossos vereadores, prefeitos, lideranças, no sentido de fazer as paralisações em todas as cidades do Brasil”, diz o deputado.

O ato foi encerrado por volta do meio-dia, com uma celebração religiosa comandada por um frei franciscano. Ele lembrou que avanços sociais sempre foram conquistados “a custa de sangue”. Além de pedir para que os presentes lembrassem os mártires do passado, declamou uma benção da resistência para pedir proteção aos jejuantes de Porto Alegre e dos demais estados.

(Com a IHU)

A solenidade de entrega do relatório final da Comissão da Verdade em Minas Gerais (Prestem atenção na fala do coordenador da Covemg)


Jerusalém, memória da dor (A região, apesar de minúscula, deve abrigar todos os filhos de Abrahão . José Carlos Alexandre)

                                                                             


Resistência palestina é diária desde há mais de 70 anos

Elaine Tavares

IELA (Instituto de Estudos Latino-Americanos

Era 14 de maio de 1948 quando a Organização das Nações Unidas decidiu criar por decreto o estado de Israel, dividindo o território ocupado pelos palestinos em dois, com a participação decisiva do brasileiro Osvaldo Aranha, então representante brasileiro na ONU. Foi por conta de uma manobra feita por Aranha que a votação aconteceu e deu vitória ao sionismo. Segundo a organização haveria dois estados: um árabe e um judeu. A proposta era uma espécie de reparação pelo horror vivido pelos povo judeu na grande guerra provocada pelos nazistas. Ocorre que a terra não era um espaço vazio. Ali viviam as famílias palestinas desde há séculos, plantando suas oliveiras, criando suas cabras e conversando nas calçadas sorvendo o chá de hortelã ou maramiah (sálvia).

A ação da ONU, obviamente proposta pelos Estados Unidos, obedecia a um interesse menos nobre do que garantir morada a um povo que estava espalhado pelo mundo, e que havia sofrido o holocausto. Eles queriam naquele espaço garantir uma porta de entrada segura para o Oriente Médio, onde estava o petróleo. Criar um estado artificial, aliado, foi uma jogada de mestre. O país do “tio Sam” aparecia ao mundo como o grande responsável pela vitória contra os nazistas e, com essa atitude, posava de humanitário mais uma vez.

Só que com a criação do estado artificial foi preciso expulsar das terras as pessoas que ali viviam: os palestinos. Assim, em poucos dias foi criado um terreno de horror e guerra, com a fuga em massa de mais de 800 mil pessoas por conta da invasão dos judeus. Outros tantos judeus foram trazidos para as propriedades palestinas, visando invadir o máximo possível de terras. Em menos de um ano, o novo estado, comandando pela religião judaica, se estabelecia, vitorioso.

A partir daí, os sionistas, que desde 1897 reivindicavam um estado para os judeus, não pararam mais de matar e oprimir os palestinos, visando avançar cada vez mais sobre suas terras. O sionismo é um movimento que se baseia na lembrança de Sião, o mundo judeu que existia naquela região antes do século I, e que foi destruído pelo Império Romano.  As setes tribos de Israel, conforme conta o Velho Testamento da Bíblia cristã, eram nômades e circulavam pela região, unificando-se em torno das leis de Moisés, tendo sido depois escravizados pelos egípcios e outros povos vizinhos, sem nunca abandonar a sua fé.

O fato é que depois da diáspora judaica, iniciada no século I da era cristã, muitos outros povos seguiram vivendo na região nos 1948 anos que se seguiram até a criação do estado de Israel. E, desses povos, o palestino foi o que fincou raízes. Assim, por mais de mil anos, aquela gente esteve ali, construindo sua cultura e suas moradas. Por isso, a interminável batalha que persiste até hoje. Observando bem, não tem nada a ver com a religião, como tenta convencer a mídia. O que está em questão é a propriedade da terra.

O conflito

Após a criação do estado de Israel, com a promessa de haver dois estados distintos, a história que se seguiu não foi a anunciada ao mundo em 1948. Os sionistas começaram a invadir outros pontos do território, separando famílias, matando milhares de pessoas e se apossando de mais e mais terras. Uma olhada no mapa abaixo deixa bem claro como foi o processo de invasão sistemática.

Hoje, os palestinos vivem segregados em pequenas partes do território, separados de pais, irmãos, amigos, cercados por muros gigantes e tratados como criminosos. Para cruzar o território de um lado a outro eles precisam de autorização e, diariamente, sofrem humilhações e violência. Na prática, os espaços palestinos são exatamente campos de concentração, submetidos a bombardeios e violências extremas. O povo palestino vive hoje o que viveram os judeus na segunda guerra: um holocausto.

Mas, apesar de toda a violência do estado de Israel,  o povo palestino resiste. Uma resistência heroica que custa a vida de crianças, jovens, adultos e velhos todos os dias. Viver nos territórios palestinos é estar de cara com a morte a cada momento, porque a proposta dos sionistas é acabar com todos os palestinos, para ficarem com todo o território.

Jerusalém

70 anos de ocupação sionista

Nesse terreno de guerra permanente, a cidade de Jerusalém tem um papel importante. Ela é berço das três principais religiões monoteístas do mundo: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. E por ser esse espaço sui generis no contexto da fé de milhões de pessoas havia o acordo de que ela seria uma cidade livre, com acesso livre para todos os fiéis de cada uma dessas religiões. Além disso, Jerusalém sempre foi considerada a capital política da Palestina e é reivindicada como tal pelo povo palestino. Ainda que Israel tenha tomado militarmente parte da cidade, os palestinos jamais abriram mão de sua capital.

É por isso que a decisão de Donald Trump em reconhecer Jerusalém como a capital de Israel está provocando um terremoto político na região. Importante salientar que não seria da competência dele, como presidente de um país longínquo, determinar uma coisa dessas, ainda que haja uma lei, aprovada pelo Congresso dos EUA em 1995, definindo isso – outro absurdo. Mas, por outro lado, expõe de maneira clara a relação visceral que existe entre Israel e Estados Unidos.

Ou seja, o estado sionista é cria dos EUA. Existe para ser o braço armado dos Estados Unidos na região do Oriente Médio e cumpre com competência essa missão.  Se, desde 1995 nenhum presidente se arvorou em tornar real a lei – por conta das negociações de paz – agora Trump se sente muito à vontade para levar ainda mais desgraça para a região.

A “decisão” de Trump em tornar Jerusalém capital de Israel viola todos os acordos já firmados e é típica de um estado imperial. Com ela, as relações com a Liga Árabe das Nações ficam ainda mais tensas e torna a região ainda mais explosiva. Protegidos pelo império estadunidense os dirigentes israelenses agora se sentem mais seguros em tomar de vez a cidade dos palestinos, avançando ainda mais sobre o território daquele povo.

Em todo o mundo se levantam as gentes contra mais esse ataque ao povo palestino, espremido dia a dia em sua própria terra, perdendo espaço e vida. Com a declaração do presidente estadunidense acirraram-se ainda mais os conflitos vividos dentro do território, com Israel cada vez mais empoderada no seu pretenso direito de matar.

Agora, Trump diz que vai transferir a embaixada dos EUA para Jerusalém, saindo de Tel Aviv, a capital de Israel. E esse é mais um ato de guerra contra os palestinos.

Para quem vive tão distante do conflito é bom que se deixe claro: o massacre, o genocídio, imposto ao povo palestino nada tem a ver com religião, ainda que essas diferenças sejam insufladas pelos governantes sionistas. Entre os palestinos há cristãos e muçulmanos, mas não é isso que faz com que haja o ataque permanente. O ponto central é o território. É uma batalha pelo controle da terra, das riquezas e da posição estratégica no globo.

Trump torna a situação ainda pior e, no futuro, cada um desses presidentes estadunidenses, desde Harry Trumann, precisará ser colocado no seu devido lugar, como responsáveis pelo genocídio do povo palestino. Criminosos de guerra.

Ilustração: Resistência palestina é diária desde há mais de 70 anos

http://www.iela.ufsc.br/noticia/jerusalem-memoria-da-dor

Lua vetada ao presidente Trump

Antonio Rodriguez/Reebelión


"Táxi Sófia", a nova realidade búlgara

                                                                  
Sófia, Bulgária. Um taxista vê-se a braços com um aumento injustificado da sua prestação bancária. Ao perceber que, para o ajudar, o funcionário lhe exige um suborno, fica fora de si e dá-lhe um tiro. Esse incidente origina um debate nacional sobre como o desespero dominou a vida do cidadão comum. 

Enquanto isso, seis taxistas e os seus passageiros, cada um com a sua origem e as suas histórias para contar, fazem um retrato colectivo de uma sociedade em crise. O que se conclui é simples: "apesar de tudo, a Bulgária é um país de optimistas, uma vez que todos os pessimistas e realistas já partiram para longe dali".

Escrito e realizado por Stephan Komandarev ("O Mundo é Grande e a Salvação Espreita ao Virar da Esquina"), um filme sobre a crise económica, a emigração e a estratificação social na Bulgária actual, mas também sobre a necessidade do sentido de humor, da esperança e da solidariedade.

Táxi Sófia
Título original:
Posoki
De:
Stephan Komandarev
Com:
Vasil Banov, Ivan Barnev, Assen Blatechki, Stefan Denolyubov
Género:
Drama
Classificação:
M/12
Outros dados:
BUL/ALE/Macedónia, 2017, Cores, 103 min.

(Com Resistir.Info)

Estudo põe Brasil entre os mais desiguais do mundo

                                   

Relatório mostra que, em nenhum país do planeta, o 1% mais rico da população concentra parcela tão grande da renda. Discrepância social aumentou desde 1980 em quase todas as regiões do mundo.

País de contrastes: 55% da renda no Brasil está 
nas mãos dos 10% mais ricos da população

A desigualdade no Brasil é uma das maiores do mundo, segundo a Pesquisa Desigualdade Mundial 2018, uma compilação de dados globais coordenada pelo economista francês Thomas Piketty e divulgada nesta quinta-feira (14/12), em Paris.

Segundo dados do relatório, em 2015, 27% da renda do Brasil estavam nas mãos do 1% mais rico da população – a maior discrepância do planeta. Na comparação, o país aparece à frente, por exemplo, de Rússia (20%), EUA (20%), China (14%) e Índia (21%).

O resultado acompanha uma tendência mundial: a renda cresceu para todos, inclusive os mais pobres, mas foram os ricos que abocanharam a maior fatia do crescimento. Em suas estimativas, os economistas responsáveis pelo estudo se mostraram preocupados com o possível agravamento da situação global até 2050. 

Os dados mostram que a desigualdade de renda aumentou desde 1980 em quase todas as regiões do mundo, mas o crescimento mais acelerado tem sido registrado na China, Rússia e Índia e na América do Norte. Enquanto os dados mostram que a fase de políticas mais igualitárias depois da Segunda Guerra terminou, as sociedades na América do Sul, África e no Oriente Médio se tornaram ainda mais desiguais.

De acordo com o estudo, intitulado World Inequality Report e que teve como um dos principais coordenadores Lucas Chancel, da Escola de Economia de Paris, além do próprio Piketty, autor do best-seller O Capital no século 21, a parte da riqueza nacional nas mãos de 10% dos contribuintes mais ricos passou de 21% a 46% na Rússia e de 27% a 41% na China, entre 1980 e 2016. Nos EUA e no Canadá, este índice passou de 34% a 47%, enquanto na Europa foi registrado um aumento mais moderado – de 33% a 37%.

Pódio da desigualdade

Mas houve exceções ao padrão de crescimento vertiginoso. "No Oriente Médio, África subsaariana e Brasil, as desigualdades permaneceram relativamente estáveis, mas a níveis muito elevados", afirmou o documento.

As três regiões formam o pódio da desigualdade no mundo: África subsaariana (54%), Brasil e Índia (55%) e o Oriente Médio (61% da renda nas mãos dos 10% mais ricos). Segundo os pesquisadores, essas regiões são as "fronteiras da desigualdade".

No caso do Brasil, o documento se baseia num estudo publicado em setembro por um discípulo de Piketty, o irlandês Marc Morgan. O trabalho gerou controvérsia, pois sugeriu que a desigualdade no Brasil é muito maior do que indicada em outras pesquisas, apesar dos avanços sociais observados nos últimos anos. Estes dados também se limitam ao período entre 2001 e 2015.

A renda nacional total cresceu 18,3% no período analisado, mas 60,7% desses ganhos foram apropriados pelos 10% mais ricos, contra 17,6% das camadas menos favorecidas. A expansão foi feita às custas da faixa intermediária de 40% da população, cuja participação na renda nacional caiu de 34,4% para 32,4%.

De acordo com o estudo, a queda se deve ao fato de que essa camada da população brasileira não se beneficiou diretamente das políticas sociais e trabalhistas dos últimos anos e nem pôde tirar proveito dos ganhos de capital (como lucros, dividendos, renda de imóveis e aplicações financeiras), restritos aos mais ricos.

Em termos de evolução, a divergência é "extrema entre a Europa Ocidental e os Estados Unidos, que tinham níveis de desigualdade comparáveis em 1980, mas se encontram atualmente em situações radicalmente diferentes", destacou o estudo.

Em 1980, a parte da riqueza nacional nas mãos de 50% dos contribuintes mais pobres era quase idêntica nas duas regiões: 24% na Europa Ocidental e 21% nos EUA. Desde então, o índice permaneceu estável, a 22%, no lado europeu e caiu a 13% no americano.

De acordo com Piketty, um fenômeno que se deve pela "queda das rendas da menor faixa" nos Estados Unidos, mas também por uma "desigualdade considerável na área de educação e uma tributação cada vez menos progressiva neste país".

A principal vítima desta dinâmica, segundo o relatório, baseado em 175 milhões de dados fiscais e estatísticas computadas pelo projeto wid.world (wealth and income database), é a classe média mundial.

Entre 1980 e 2016, o 1% dos mais ricos obteve 27% do crescimento mundial. Os 50% mais pobres receberam apenas 12% da riqueza, mas viram sua renda aumentar significativamente. O que não aconteceu com as pessoas entre as duas categorias, cujo "crescimento da renda foi frágil".

Os autores do estudo anteciparam um novo crescimento até 2050, com base nas atuais tendências. A participação do patrimônio dos mais ricos aumentaria assim de 33% a 39%, enquanto a classe média mundial veria sua participação no patrimônio cair de 29% a 27%.

PV/afp/dpa/ots

(Com a Deutsche Welle)

Presidente de ONG detalha em julgamento na Itália funcionamento de aparelho repressivo da ditadura no Brasil


                                                               
Brasileiro Jair Krischke, do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, depôs em Roma no processo sobre a Operação Condor - o caso do sequestro de Lorenzo Viñas - que tramita no país europeu

Janaina Cesar | Roma
      
O gaúcho Jair Krischke, presidente da ONG Movimento de Justiça e Direitos Humanos, voou de Porto Alegre para Roma para depor na manhã de quarta-feira (29/11) no processo sobre a Operação Condor que tramita na justiça italiana.

O caso julga o envolvimento dos ex-agentes militares brasileiros João Osvaldo Leivas Job, Calos Alberto Ponzi, Átila Rohrsetzer e Marco Aurélio da Silva no sequestro e assassinato do ítalo-argentino Lorenzo Viñas Gigli, ocorrido em 1980, época de atuação do plano Condor. Opera Mundi é o único veículo de imprensa brasileiro que cobre o processo.

Segundo o Ministério Público italiano, na data em que Viñas foi sequestrado, Leivas Job era secretário de Segurança do Rio Grande do Sul; Ponzi chefiava a agência do Serviço Nacional de Informações (SNI) em Porto Alegre; Rohrsetzer era diretor da Divisão Central de Informações do Rio Grande do Sul; e Silva, delegado de polícia, cobria o cargo de diretor do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) do Rio Grande do Sul.

A audiência, que aconteceu na aula principal da I Corte de Assis do Tribunal de Roma, estava marcada para às 10h da manhã, mas começou com atraso de uma hora e meia por falta de um intérprete. A questão foi resolvida e a procuradora Tiziana Cugini, responsável pelo caso, iniciou sua relação apresentando como primeiro documento o atestado de óbito de Marco Aurélio da Silva, morto em 2 de junho de 2016.

Krischke mostrou que as relações repressivas bilaterais entre Brasil e Argentina já existam antes mesmo da ditadura de Jorge Rafael Videla (1976-1981)

Repressão bilateral com Argentina

“Documentos brasileiros comprovam que o primeiro caso Condor acontece em dezembro de 1970 em Buenos Aires, quando Jefferson Cardim de Alencar Osório, ex-coronel do exército brasileiro, é preso pela Polícia Federal argentina e entregue à repressão brasileira”, diz. Ele elenca também o caso do brasileiro Edmur Péricles Camargo, que, em junho de 1971 pegou um avião de Santiago para Montevidéu e, em uma escala em Buenos Aires, foi retirado do voo pela PF argentina e entregue à brasileira. 
     
Jair expôs, também, o sequestro de Lilian Celiberti, uma cidadã italo-uruguaia, e de seus filhos menores, ocorrido em 12 de novembro de 1978, em Porto Alegre. “Aquele foi o primeiro caso onde a Operação Condor foi flagrada no momento em que acontecia, eram envolvidos militares uruguaios e policiais brasileiros pertencentes ao DOPS. Denunciamos o ocorrido e foi aberto um processo que condenou alguns policiais brasileiros”. 

“Preciso deixar claro que o plano Condor foi um pacto secreto, clandestino, absolutamente ilegal que havia entre os países do Cone Sul”, argumenta com um tom de voz calmo e tranquilo. “É extremamente necessário que se entenda como funcionava o aparelho repressivo do Rio Grande do Sul, porque ele era diferente. O Estado tem muitas zonas de fronteiras e controlar tudo aquilo exigia uma certa habilidade e autoridade”, diz.

“Criou-se uma estrutura repressiva mais ampla e qualificada. Quem comandava eram os militares, especialmente a inteligência. A Operação era destinada aos oficiais brasileiros, o exército não gostava de sujar as mãos, então dentro da estrutura de segurança do Rio Grande do Sul havia um setor que se chamava Departamento de Informação”, relata o brasileiro, que lembra que “Átila Rohrsetzer, um dos acusados, era chefe do departamento e estava envolvido no caso Celiberti. Ele foi condenado por abuso de autoridade e não por sequestro, porque, na época do processo, isso não era considerado crime no Brasil”.


Antes de entrar efetivamente no caso Viñas, Jair lembrou à Corte que um padre também foi sequestrado no Brasil por agentes da Operação Condor. “Jorge Oscar Adur era um sacerdote argentino que já vivia exilado na França, e, assim como Viñas, também era um Montonero. Naquele ano [1980], o papa João Paulo II iria a Porto Alegre e as Mães da Praça de Maio vieram me pedir para intervir a favor delas para conseguir uma audiência com o pontífice. Elas já haviam tentando encontrá-lo em Roma, mas não foram recebidas.

Consegui dez minutos. Nisso, o Oscar, que estava no exílio, voltou para Argentina ilegalmente. Ele entregaria uma carta dos Montoneros a alguns padres argentinos críticos da ditadura. Dia 26 de junho, pegou um ônibus na Argentina em direção a Porto Alegre para encontrar as Mães da Praça de Maio, que o esperavam, e desapareceu na fronteira Paso de los Libres (Argentina) e Uruguaiana (Brasil).”

No mesmo dia, Viñas pegou um ônibus da Argentina com direção ao Rio de Janeiro.  Assim como Adur, ele viajava na poltrona número 11. “Destinos diferentes, companhias de ônibus diferentes, mas o mesmo número do assento”, observa.  Viñas viajava com um nome falso:  Néstor Manuel Ayala, nascido em 1953 e residente em Buenos Aires. 

Após anos investigando o caso juntamente com Claudia Allegrini, companheira de Viñas e mãe de sua filha, Jair descobriu que Viñas e Adur permaneceram três dias presos da Polícia Federal em Uruguaiana. Após ser entregue à repressão argentina, Viñas foi levado para Paso de los Libres e, depois, para uma prisão clandestina onde Silvia Tolchinsky, militante Montonera que também estava presa, confirma tê-lo visto e conversado com ele. 

A procuradora Cugini indaga se Jair conhece Tolchinsky. “Não pessoalmente, mas fiquei sabendo do que houve com ela”, responde com um tom de voz agora um pouco mais rouco. “Foi presa tentando sair da Argentina para o Chile, foi torturada e feita de marcadora. Foi levada para fronteira para Paso de los Libres para reconhecer visivelmente os integrantes dos Montoneros”, declara Jair. 

Segundo o brasileiro, Tolchinsky trabalhava com Mario Firmenich, um dos principais líderes do Movimento Montonero, e sabia todos os truques que os militantes usavam para se mascarar e despistar a polícia.  Ela é judia e, como tal, o governo de Israel negociou com Videla para levá-la ao país.  Após meses vivendo em Israel, se deparou com ninguém menos ninguém mais que Claudio Gustavo Scagliuzzi, seu torturador, um general que atuou no batalhão 601. Os dois se casaram e foram viver em Barcelona, onde moram até hoje.

Responsabilidade brasileira

Luca Ventrella, advogado do Estado, pede que Jair explique de onde vinham as ordens para operações repressivas no Brasil. “Nestes casos de Operação Condor, havia cumplicidade entre países. Quem autorizava essas atuações era principalmente o ministro-chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), o Comando do Exército, os chefes da agência do SNI nos Estados e o DOPS.”

Jair lembra que “a Lei da Anistia é de 1979 e que o sequestro e desaparecimento de Viñas é de 1980, e que, mesmo assim, a Justiça brasileira manda para o arquivo qualquer tentativa de processo”. O Brasil reconheceu, pelo menos administrativamente, a própria responsabilidade pelo desaparecimento de Viñas, tanto que a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos indenizou a família.

Na final da audiência, a Corte se recolheu para proferir sobre Marco Aurélio e o retirou do processo após a leitura do atestado de óbito. “Estão todos muito velhos, essa é a última chance que temos para haver Justiça”, diz Jair.

Como tudo começou

O caso Condor brasileiro é um desdobramento do grande processo Condor que em janeiro deste ano condenou 8 ex-presidentes e militares sul-americanos (e absolveu 19) à prisão perpétua por assassinatos de cidadãos de origem italiana cometidos entre 1973 e 1980. O Ministério Público italiano entrou recurso que ainda não tem previsão de julgamento.

Tudo começou em 1998, quando o procurador Giancarlo Capaldo recebeu a denúncia de parentes de vítimas ítalo latino-americanas.  Com o final das investigações preliminares, foram denunciadas 146 pessoas, mas por falta de colaboração de alguns países ou por causa do grande número de pessoas já falecidas, apenas 33 viraram réus, além os quatro brasileiros.

Além do brasileiro, também deveriam ter deposto nesta quarta em videoconferência Claudia Allegrini, a viúva de Viñas e Silvia Tolchinsky, mas o depoimento de ambas foi adiado para o ano que vem.  A Corte estabeleceu três datas para as próximas audiências: 5 e 19 de março e 9 de abril. No total, ainda falta ouvir 6 testemunhas.

(Com Opera Mundi)


quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Um dia inesquecível

                                                                                                 

José Carlos Alexandre

Um dia muito especial, histórico. Para ninguém se esquecer.O dia em que  os membros da 

Comissão da Verdade entregaram seu relatório, com mais de 1700  páginas.


Há muito esperava por este relatório. Porque também fui perseguido, perdi empregos, tive amigos

presos, torturados, mortos.

Só um pequeno exemplo: o semanário em que trabalhava foi fechado pelos golpistas dia 1º de abril

de 1964.

Era "Novos Rumos" onde exercia as funções de colunista e repórter.

Depois, na direção geral do jornal "União Sindical", em 1975,  fui surpreendido com a prisão, na

"calada da noite", do diretor financeiro de nosso tabloide, José do Carmo Rocha.

Era tempo de "desaparecimentos", como o do sindicalista Nestor Veras, diretor da Contag,  a  Confe-

deração Nacional dos Trabalhadores na Agricultura.

Nestor foi sequestrado na avenida Olegário Maciel e muitos anos depois um dos torturadores

confessou ter-lhe dado um "tiro de misericórdia", condoído de seus padecimentos em face  de

torturas...

Estive lá o Palácio da Liberdade para assistir à entrega do trabalho de quatro anos da COVEMG.

Logo ao chegar quis mais informações sobre a transformação do antigo DOPS, na Afonso Pena

num Memorial de Direitos Humanos.

O secretário de Estado de Direitos Humanos Nilmário Miranda me confirmou: será dia 31 de

março de 1918.

Ele próprio, um pouco mais tarde, disse o mesmo em bom tom, em seu discurso.

Falando depois,o governador Fernando Pimentel, comovido, referiu-se ao DOPS e ao Memorial.

Voltei a me emocionar.

É tudo que sempre quis: o cumprimento da lei do governador Itamar Franco, criando no sinistro

edifício o Memorial que relembre os ásperos tempos...

Mas o ato de ontem, em meio ao calor do ambiente felizmente regado a muita água mineral,

cafezinho e pão de queijo, dois acontecimentos  muito comoventes: a fala do coordenador da

Comissão da Verdade, o Robison Sávio Souza ( que merece ser distribuído em todos os sindicatos

de trabalhadores, em todos os centros de defesa de direitos humanos, universidades etc.

E a  voz de Emely Vieira Salazar, ex-torturada, membro da Comissão da Verdade, e ex-presidente  do

Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos.

Emely quase arranca lágrimas de todos ao atacar de Aldir Blanc e João Bosco, cantando "O bêbado e

a Equilibrista"...

Fernando Pimentel, não aguentou: "Emely , não ouso esta bela voz desde Linhares..." (A 

penitenciária  de Juiz de  Fora, onde estiveram presos, dentre outros, o agora governador e militantes 

sociais e políticos,como a própria Emely, o Paulo Eliziário, o José Francisco Neres etc).


O trabalho da Comissão vai continuar . Mesmo porque ainda tem muita coisa para denunciar nestes

tempos em que até Universidades, reitores, vice-reitores e professores continuam sendo perseguidos,

além da criminalização de movimentos sociais, tentativa de desestabilização de sindicatos  e tudo o 

mais, como se ainda houvesse saudades de épocas passadas...

Foi justamente no Palácio da Liberdade que, em 1º de abril de 1964, começou o período de supressão

das liberdades democráticas, do arbítrio que duraria até 1985.

O que representou um sombrio tempo o povo brasileiro começa a desvendar como fruto o trabalho

que lhe foi entregue ontem só que num palco democrático, que simboliza a verdadeira vocação de

Minas.




Minas Gerais teve 1.531 presos políticos durante a ditadura militar, revela a COVEMG

                                                                                
                                                                           
Relatório traz diversas imagens de vítimas da ditadura
 militar, mortas ou desaparecidas no território mineiro

BERNARDO MIRANDA / FRANSCINY ALVES

De Minas Gerais partiram as primeiras tropas militares para o golpe de 1964. Se o Estado foi protagonista na derrubada de João Goulart, também teve um importante papel na resistência à ditadura e, consequentemente, nos atos de repressão. O relatório final da Comissão da Verdade em Minas Gerais (Covemg), que vai ser lançado nesta quarta-feira (13), somente em seu primeiro volume, detalha mortes e desaparecimentos forçados de 17 militantes no Estado e o assassinato e “sumiço” de 49 mineiros pelo país, além de identificar 1.531 presos políticos em Minas.

Esses números se transformaram em histórias nos relatos e em documentos coletados pelos pesquisadores durante quatro anos. Exemplo disso é o jornalista Flávio Ferreira da Silva. Ele era prefeito de Barreiro Grande, atual Três Marias, quando houve o golpe militar. Por ter participado de um evento com o presidente João Goulart, foi considerado subversivo e, por isso, foi cassado, preso e torturado na base aérea de Lagoa Santa.

Após ser libertado, respondeu a processo por subversão, mas foi inocentado pelos próprios militares. Segundo familiares, o ex-prefeito nunca se recuperou do trauma de ter tido sua carreira política interrompida com pancadas na cabeça e choques elétricos. Por isso, passou a ter problemas psicológicos. Dez anos depois, ele matou a mulher e suicidou em seguida.

Hoje, ele é reconhecido como mais uma das vítimas da ditadura. “Foram várias as formas de tortura aplicadas, e é legítimo acrescentar que algumas foram decisivas, deixando sequelas mentais pelo resto dos poucos anos de vida que lhe restaram”, contou a filha do político, Glaucy, em depoimento à Covemg.

O caso de Flávio não é isolado. Terceiro motivo mais recorrente de falecimentos em vítimas do regime militar, segundo o documento, as sequelas psicológicas e físicas deixadas pela tortura são responsáveis por 10% do total de mortes ou desaparecimentos forçados causados pelos militares no Estado.
                                                                           
O militante mineiro Juarez Guimarães fez um pacto com a mulher, Maria do Carmo de Brito, que, se fosse preso pelos militares, se mataria. Em 1970, durante perseguição no Rio de Janeiro, ele deu um tiro no ouvido. Maria, conhecida como Dora, foi presa, torturada e exilada no Chile após ser libertada com resgate do sequestro do embaixador da Suíça. No exílio, morando na Alemanha, Dora matou-se após se jogar na linha do trem em 1976.

Traumas. A tortura durante o regime militar deixou marcas nas vítimas que perduram até hoje. Em um dos relatos, Délio de Oliveira Fantini, que diz ser o preso político mais novo do Estado, conta que teve todo o corpo queimado por choques e cigarros; os dentes da frente foram arrancados; teve uma lesão no crânio e fraturas no nariz, em vários ossos dos pés e no osso rádio (antebraço) – sendo necessária a colocação de uma haste. “Quer dizer, não sei se foi sorte ou azar esse chute na cabeça, pois a partir daí houve a necessidade de ser deslocado para o pronto-socorro”, contou.

Em Maria Dalce Ricas, então estudante de direito da UFMG que ficou presa no prédio do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), as marcas da violência ainda são visíveis. “Fisicamente, ainda tenho marcas nos dedos mínimos dos pés e das mãos, onde o fio elétrico era enrolado, e a marca nos pulsos. Até cerca de cinco anos atrás tinha uma insensibilidade parcial no pé e não suportava sapatos fechados por muito tempo”, detalha.

No caso de outro preso em Minas, o documento mostra que uma das sequelas foi a esterilidade, que o impediu de ter filhos, e as hemorroidas decorrentes do fato de os torturadores terem introduzido um cabo de vassoura em seu ânus.

Evento. O relatório vai ser lançado nesta quarta-feira (13) às 9h30, em audiência na Assembleia Legislativa de Minas. Às 16h30, o documento será entregue aos representantes dos Três Poderes, no Palácio da Liberdade.

RECOMENDAÇÕES

Documento. Com 1.781 páginas e dividido em cinco volumes, o relatório final da Comissão da Verdade em Minas Gerais (Covemg) detalha fatos que ocorreram na ditadura militar, entre 1964 e 1988, e também traz uma série de recomendações aos Três Poderes.

Ações. Entre elas está alteração dos nomes dos locais públicos que façam menção a responsáveis por violações de direitos humanos e a substituição por nomes de vítimas do regime militar.
                                                                                
Decreto. Na última semana, o governador de Minas, Fernando Pimentel (PT), decidiu prorrogar até 7 de fevereiro de 2018 os trabalhos do colegiado, criado em 2013.

Relatório cita 125 torturadores

O relatório da Comissão da Verdade em Minas Gerais (Covemg) aponta que nos depoimentos das vítimas da ditadura no Estado foram identificados 125 torturadores. Cinco deles são citados por mais de 60 vezes. O nome do coronel Hilton Paula da Cunha Portela é o mais recorrente nos relatos. Ele serviu no 12º Regimento de Infantaria do Exército em Belo Horizonte, entre os anos de 1969 e 1970.

Um dos trechos do relatório aponta que, além de usar pau de arara e afogamentos, ele esbofeteava presos até quebrar os dentes e mandava arrancar as unhas. “(Ele) também usava a técnica de ameaçar de morte os familiares dos torturados. Obrigava mulheres presas a desfilar nuas diante dos torturadores e espremia seus mamilos até sangrar para, em seguida, aplicar choques elétricos ligando os fios nos seios feridos”, diz o documento.

Entre os 98 locais utilizados para tortura e repressão, se destacam o Dops, localizado na avenida Afonso Pena, no centro da capital mineira, onde hoje funciona o Departamento de Investigação Antidrogas da Polícia Civil, e o presídio de Linhares, em Juiz de Fora.

Foi do presídio da Zona da Mata que militantes dos grupos de resistência Colina e Corrente conseguiram enviar cartas com os relatos de tortura sofridas pelos presos políticos. Um dos que assinaram as Cartas de Linhares foi o ex-prefeito de Belo Horizonte Marcio Lacerda (PSB). Também estiveram presos em Linhares o governador de Minas, Fernando Pimentel (PT), e a ex-presidente Dilma Rousseff (PT).
                                                                    
O coordenador do colegiado, Robson Sávio Reis Souza (foto) , diz que esse relatório não é uma entrega ao mundo oficial ou uma tese de doutorado para uma gaveta. “Esperamos que, em posse desse material, a sociedade possa avaliar esse trabalho, aprofundá-lo e cobrar das autoridades públicas e Poderes formas de mitigação de violação de direitos humanos no presente”, afirmou.

(Com o jornal O Tempo, edição de hoje)

Dia Histórico: Sai hoje o Relatório Final da Comissão da Verdade. (O povo tem sabedoria. Sabe o ditado "A verdade tarda mas não falta"? Chegou a verdade. José Carlos Alexandre)

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Rússia planeja colocar um farol na Lua (Quando a União Soviética lançou ao espaço o primeiro satélite artificial, a gente passou a dar de presente às nossas namoradinhas miniaturas do Sputinik...José Carlos Alexandre).

                                   

Ao chegar à Lua, o sistema russo Luna 25 lançará um raio de laser ao nosso planeta para indicar o ponto exato de sua localização. Isso, por sua vez, permitirá que outros módulos lunares identifiquem sua posição de modo mais preciso.

O sistema se baseará em faróis de laser desenvolvidos no âmbito do programa espacial federal, explicam seus criadores ao jornal Izvestia.

Planeja-se que a cápsula russa aterrissará perto do polo sul da Lua — na zona considerada ser mais favorável para estabelecimento de uma base lunar habitável. Aí deverá ser instalado o farol de laser que provavelmente será o único nos próximos anos, informa o jornal.

Inicialmente, os faróis se destinavam a indicar a posição precisa da cápsula. Mais tarde, os cientistas decidiram utilizá-los para criar um sistema de navegação no satélite. A luz emitida pelo farol poderá observar-se da Terra com um telescópio.

"Um mapa que mostrará a longitude e latitude servirá para explorar melhor o satélite natural. Assim será possível escolher os lugares para futuras alunagens, projetar rumos para os veículos lunares e planejar voos espaciais tripulados", explica o especialista em astronáutica, Vitaly Egorov.

O lançamento de Luna 25 está previsto para 2019, e o primeiro voo de Luna 26 já está marcado para 2021.

(Com o Sputinik News)

Debate: o VI Congresso do PCB e a luta contra a ditadura


                           
      
Em dezembro de 1967, mesmo após os desdobramentos do golpe de 64 e em meio à clandestinidade, os comunistas brasileiros conseguiram organizar um vitorioso congresso, no qual traçaram o panorama da conjuntura, a caracterização do regime militar e seu enfrentamento através da luta de massas, a organização do operariado e a resistência democrática.

Cinquenta anos depois, a Fundação Dinarco Reis reúne estudiosos e testemunhas vivas deste congresso para discutir as lições da luta contra a ditadura empresarial-militar, abordando o necessário debate sobre o contexto atual de grandes retrocessos contra os trabalhadores e ao povo brasileiro.

O debate contará com a seguinte composição:

Dinarco Reis Filho (Presidente da Fundação Dinarco Reis)

José Salles (ex membro do secretariado nacional do PCB e participante do VI Congresso)

Muniz Ferreira (Professor da UFRRJ)

Edmílson Costa (Secretário Geral do PCB e economista)

Quando? Dia 14 de dezembro

Onde? Museu da República. Catete, Rio de Janeiro, RJ

https://pcb.org.br/fdr/index.php?option=com_content&view=article&id=881

Queimar bandeira de Israel é inaceitável. (Está certo. Não se pode admitir antissemitismo.José Carlos Alexandre)


                                                                       
                                                                               (imago/snapshot/F Boillot)
                                                              
                            Manifestantes queimam bandeira improvisada de Israel em Berlim

Na Alemanha, o direito de manifestação goza de ampla proteção. Restringi-lo só é possível em condições bastante especificas. Dessa forma, nossa democracia deve aceitar até mesmo a divulgação de slogans de natureza antidemocrática nas ruas alemãs. Por exemplo, algo grosseiro como "Fora, estrangeiros!”.

A ditadura nazista exemplificou de maneira dolorosa o que pode acontecer quando um Estado suprime todas as críticas e torna protestos de rua ilegais. É por isso que, na Alemanha atual, é natural que os críticos da chanceler federal Angela Merkel sejam livres para expressar seu descontentamento. E é por isso que os palestinos que vivem na Alemanha também são livres para protestar em frente à embaixada dos EUA em Berlim para manifestar sua raiva em relação à planejada transferência da missão diplomática americana em Israel para Jerusalém.

Mas a nossa história não nos obriga a permitir tudo sem limites. Pelo contrário: a Alemanha  assassinou 6 milhões de judeus durante o Holocausto. E não importa quanto tempo tenha passado, a Alemanha sempre vai ter uma obrigação única de combater o antissemitismo. Um país que tenha cometido um crime de tal magnitude não pode se fingir de cego diante de ações antissemitas, em qualquer lugar – especialmente dentro das suas próprias fronteiras.

É por isso que queimar a bandeira com a estrela de Davi dentro da Alemanha é completamente inaceitável. Aqueles que vêm à Alemanha em busca de segurança e um novo lugar para chamar de pátria devem se ater a esse fato. Há valores fundamentais na sociedade alemã que não são negociáveis.

Em outras sociedades, pode ser aceitável e comum queimar bandeiras para atacar um adversário. Só que a Constituição alemã (Lei Fundamental) é baseada no respeito aos outros e dá muita ênfase à proteção de minorias. Mesmo que isso não seja necessariamente um crime, também é inaceitável queimar as bandeiras da Turquia, da Rússia, dos EUA e da Arábia Saudita. Queimar é inaceitável, não importando o quanto alguém se opõe ao governo de um país em particular.

A Alemanha agora é um país de imigrantes. A convivência conjunta nessa Alemanha só vai ter algum futuro se nós tivermos em mente as lições que aprendemos da nossa peculiar história. Aqueles que não aceitarem se comprometer com esse legado não têm um futuro neste país. E isso é inegociável.

(Com a Deutsche Welle)

A Palestina não é Berlim

Paolo  Lombardi/Rebelión