quinta-feira, 26 de março de 2015

IMPRENSA MINEIRA

                                       
   
      A crise na soleira do ‘Estado de Minas’

       Sebastião Breguez em 24/03/2015 na edição 843

      
O tradicional jornal mineiro Estado de Minas, carro-chefe dos Diários Associados, antigo império da imprensa de Assis Chateaubriand, está à beira da falência. Os rumores de sua crise financeira são antigos. Já se falava, há alguns anos, que o jornal estava à venda, procurando um grupo empresarial para tocar a empresa. Mas nenhum comprador apareceu até agora. Hoje, no cume de sua agonia, colocou sua sede à venda e já começou processo de demissões de jornalistas e funcionários administrativos. O jornal completou 87 anos de circulação no último dia 7 de março em meio à maior crise que já enfrentou em sua história. O diário começou a circular em 7 de março de 1928.

Nas últimas eleições, o jornal deixou de lado a sua neutralidade – característica do seu perfil tradicional e conservador, que é a base da ética mineira – para apoiar abertamente Aécio Neves à Presidência da República. Publicou reportagens com grandes manchetes na primeira página sobre o envolvimento do PT na corrupção, em geral, e em especial na Petrobras. Naturalmente, com o resultado das eleições, sua opção comercial não contribuiu para sua sobrevivência empresarial. Pois o PT, que foi atacado, venceu para o governo de Minas e para a Presidência da República. Assim, o jornal ficou fora do loteamento da verba publicitária governamental em nível estadual e federal.

Mas isso não é só a causa principal de sua falência empresarial. As empresas mineiras enfrentam problemas com a crise nacional e internacional, e diminuíram as inserções de anúncios na mídia em geral. A Fiat, a VS Tubos, a Gerdau-Açominas, a Usiminas e outras estão em crise e dando férias coletivas a seus funcionários. Também estão demitindo. O que contribui para a diminuição do volume da publicidade para a imprensa em geral. Mas a crise do Estado de Minas não é de hoje, e sim resultado de décadas de erros e tentativas comerciais e editoriais mal pensadas.

Promiscuidade suspeita

Lembro-me que, há dez anos, levei meus alunos de jornalismo para uma visita ao Estado de Minas. O editor-geral, João Bosco Martins, foi o anfitrião. Em sua palestra no auditório do jornal, disse que estava difícil vender jornal impresso e que a publicidade estava em baixa. Já alertava os alunos e futuros profissionais do jornalismo sobre a crise da imprensa escrita e a retração do mercado de trabalho do setor. Também já trabalhei no jornal, no Segundo Caderno (Cultura), nos anos 1970, numa época que reinava sozinho e era o todo-poderoso diário das Gerais.

Mais antigo, tradicional e conservador jornal de Minas Gerais, o Estado de Minas é mais um exemplo da decadência da mídia impressa. Está procurando comprador para o edifício onde está instalada sua redação. Trata-se de um prédio na Avenida Getúlio Vargas, na Savassi, um dos pontos mais valorizados de Belo Horizonte. De acordo com fontes do mercado imobiliário local, o jornal dos Diários Associados estaria pedindo R$ 50 milhões, mas teria ofertas de, no máximo, R$ 30 milhões. (A sede original do jornal, na Rua Goiás, no centro da capital mineira, ainda pertence ao grupo.)

A venda da sede do Estado de Minas é mais um capítulo da crise da mídia impressa. O jornal enfrenta uma crise de credibilidade, custos crescentes, queda de circulação e diminuição da receita publicitária. A direção do grupo deve transferir a redação para a sede da TV Alterosa, retransmissora do SBT em Minas Gerais. Outros jornais mineiros, como o Hoje em Dia e O Tempo, também passaram por reestruturações empresariais, corte de pessoal e alteração do formato e estilo de redação na luta pela sobrevivência.

A crise financeira do Estado de Minas, entretanto, começou em 1987. O então governador Newton Cardoso, no início de seu mandato, resolveu mudar as regras de jogo da publicidade oficial de Minas Gerais. Não pagou adiantado, como fizeram seus antecessores, o valor anual da verba publicitária destinada aos Diários Associados (jornal Estado de Minas, Rádio Guarani e TV Alterosa). A tradição era o governo pagar adiantado o valor da publicidade anual em março-abril. Coube à Secretaria da Fazenda de Minas informar ao então presidente dos Diários Associados, Camilo Teixeira da Costa. Uma semana depois, começou a retaliação. O jornal fez a primeira reportagem de denúncia contra Newton Cardoso, mostrando uso de caminhões do Departamento de Estradas de Rodagem para levar material a sua fazenda no Sul da Bahia.

A guerra Estado de Minas vs. Newton Cardoso começou e acabou virando caso de polícia e de baixaria. O jornal fez reportagens mostrando que Newton era truculento e estuprador. Newton retrucou com matérias pagas em outros jornais escancarando o processo de separação conjugal de Camilo Teixeira da Costa, por este ter sido encontrado por sua esposa em plena intimidade com funcionário em sua residência em Santa Luzia, na Grande BH.

Em paralelo, Newton Cardoso montou um império de comunicação em Minas Gerais para combater o Estado de Minas. Comprou as máquinas da antiga Última Hora, do Rio, e criou o diário Hoje em Dia. Montou ainda outra publicação: comprou a marca Diário de Minas e ressuscitou o velho jornal mineiro. O valor da verba publicitária, que era dada ao grupo Diários Associados, foi realocada para esses jornais e também para outros veículos, como Diário do Comércio, SBT e TV Globo. Mas não parou aí: equipou o jornal Minas Gerais, da Imprensa Oficial de MG, contratou os melhores jornalistas, com bons salários, e também atrações de vários veículos, como Jornal do Brasil.

Tive oportunidade de testemunhar isso porque trabalhei, na época, no jornal Minas Gerais, como editor, e no Diário de Minas, também como editor. O ano de 1987 foi uma revolução na mídia em Minas Gerais. Houve uma transformação brusca no formato jornal mineiro, em todos os sentidos. A mídia impressa ganhou cara nova com introdução de fotos coloridas, reportagens investigativas, e foi mudando o estilo de redação jornalística e a apresentação gráfica. O jornal Hoje em Dia revolucionou a estética jornalística mineira com fotos coloridas, menos texto e mais imagens.

O conservador e tradicional Estado de Minas, sem a gorda verba publicitária do governo, também teve que mudar. Passou a fazer reportagens investigativas sobre a corrupção no governo Newton Cardoso. Também mudou a apresentação gráfica e introduziu fotos coloridas. Começou a fazer mais jornalismo e não propaganda institucional do governo. Até 1987, era tradição em Minas de que o editor de Política do Estado de Minas fosse nomeado chefe da Assessoria de Imprensa do governo. O editor de Cultura era nomeado assessor de imprensa da Secretaria Estadual de Cultura. Enfim, os editores do jornal assumiam a comunicação governamental. Os releases que produziam para divulgação das ações governamentais eram publicados na íntegra no Estado de Minas.

Crise internacional

Se a briga entre o Estado de Minas e Newton Cardoso resultou na perda de arrecadação do jornal, outro conflito veio piorar ainda mais a situação do tradicional diário mineiro. Foi uma série de reportagens-denúncia contra o deputado Vittorio Medioli, dono da Sada, transportadora oficial da Fiat Automóveis e de outras empresas. Medioli resolveu criar um novo jornal – O Tempo. Prometeu, na época, acabar como império do Estado de Minas. Comprou máquinas modernas e instalou em Betim, na Grande BH, o seu jornal com modelo dinâmico e arrojado projeto editorial. Entrou na briga pelo mercado de leitores e de publicidade na tradicional Minas Gerais.

Nos dias atuais, como se viu nas últimas eleições, o Estado de Minas deixou sua neutralidade para apoiar abertamente o candidato Aécio Neves. Mas o PSDB, partido de Aécio, perdeu o governo de Minas e a Presidência da República. As reportagens que o jornal publicou no período das eleições eram contra a candidatura de Dilma Rousseff e procuravam associar a corrupção política ao PT. Foi uma estratégia errada, porque quem ganhou as eleições foi o PT. O Estado de Minas, mais uma vez, perdeu a participação dos anúncios do governo que sempre representaram uma forte fonte de renda do jornal.

A verba publicitária mineira se diluiu com a concorrência de jornais diários em Minas Gerais. A crise dos anos 1990, com a globalização, o surgimento da internet e das ferramentas da tecnologia digital, minaram mais ainda o cenário da imprensa mineira. A queda de leitura da informação impressa e a concorrência da informação digital colocaram mais pimenta no caldo.

Os jornais impressos estão passando por uma crise desde que explodiu a globalização nos anos 1990. Mas também em função das novas tecnologias da informação. Estamos no final da Civilização Gutenberg, que é a civilização da cultura impressa no papel. Ingressamos na Civilização Digital, no mundo cibernético em todos os sentidos. Há até um estudo da Future Exploration Network (EUA) que prevê o fim do jornal impresso no Brasil em 2027. Claro, o jornal impresso nunca deixará de existir. Ele está se adaptando em termos de formato, apresentação visual e técnica de redação.

A grande imprensa nacional também está em crise. A revista Veja e O Estado de S.Paulo estão em crise. O Estadão após “pesquisas qualitativas e entrevistas em profundidade com diversos setores da sociedade”, resolveu enxugar a publicação e acabar com vários cadernos. Com isso, o diário da família Mesquita demitiu dezenas de jornalistas. Assim, a crise não é só financeira, mas também de credibilidade, porque o número de assinantes e de venda em banca estão caindo vertiginosamente. Nos Estados Unidos, o Washington Post também colocou à venda a sua sede para superar a crise. Sem falar nas movimentações do Le Monde, na França, do El País, na Espanha, Corriere della Sera, na Itália e outros. A crise não é só brasileira ou mineira: é internacional e tem seus agravantes regionais e locais.

Dispositivos móveis

Alguns jornais eliminaram as edições impressas, como o Jornal do Brasil, no Rio, o Diário da Tarde, em Belo Horizonte, e outros. Os demais jornais, além da edição impressa, mantêm uma edição digital em seus portais. Ali, as principais notícias são estampadas com destaque, com texto curto, ilustração e imagem chamativa. Com a explosão da informação online, jornais, rádios e TVs mantêm edições digitais. Há também grande crescimento de portais de informação, como UOL ou UAI, que apresentam as principais notícias do Brasil e do mundo, atualizadas várias vezes ao dia. Esta revolução da informação eletrônica enfraquece o modelo antigo e tradicional da notícia em papel, acentuando a crise da civilização impressa. O mercado da informação eletrônica está em alta, com grande competitividade e concorrência. Vence quem consegue ter mais acessos e, com isso, maior volume de publicidade.

Em Minas Gerais, os jornais Hoje em Dia eO Tempo mudaram de formato, do tamanho standard (cópia do modelo gráfico de jornais norte-americanos) para tabloide (característico dos jornais europeus e da América Latina). Também em Minas Gerais surgiram dois novos jornais tabloides de preço baixo (R$ 0,25) com notícias de apelo popular – Super e Aqui. Eles são sucesso de vendas em Belo Horizonte. Sua receita de jornalismo: formato tabloide, texto curto, notícias sensacionalistas de crime e paixão e foto de belas e sensuais mulheres seminuas na primeira página. Ambos também mantêm uma edição digital em seus sites.

De resto, esta é mais uma crise no mundo da mídia impressa no Brasil e no mundo. No Brasil, as razões que sustentam a perda do leitor da mídia impressa são o desenvolvimento tecnológico econômico, o crescimento urbano e a desigualdade socioeconômica. Há também outros fatores como a absorção da tecnologia, o desenvolvimento da banda larga, a penetração de smartphones e tablets, a receita de publicidade no jornal, o suporte para a mídia, censura e comportamento do consumidor.

O aparelho de celular incorporou as mídias tradicionais como jornal, rádio, TV e cinema, revolucionando a sociedade informacional. Na verdade, toda era de mudanças de paradigmas leva a previsões realistas e imaginárias. O jornal impresso deve se adaptar às novas mudanças tecnológicas e culturais para enfrentar a nova realidade do leitor do século 21. E sobreviver. 

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Sebastião Breguez é jornalista e professor universitário em Belo Horizonte

(Com o Observatório da Imprensa)

quarta-feira, 25 de março de 2015

PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO: 93 ANOS DE MUITAS LUTAS

                                                                     
A trajetória do Partido Comunista Brasileiro (PCB), fundado em 25 de março de 1922, é parte constitutiva da história do Brasil. Se, na sua gênese, convergiram os ideais libertários do nascente proletariado, no seu desenvolvimento e consolidação foram sintetizados os processos de maturação de uma organização política que buscava (e ainda busca até hoje) conjugar em suas fileiras os mais destacados dirigentes das lutas dos trabalhadores e representantes da intelectualidade e da cultura brasileira. 

Quando se tornou um verdadeiro partido de dimensões nacionais, no imediato pós-guerra, o PCB revelou-se como a instância de universalização de uma vontade política que fundia o mundo do trabalho com o mundo cultural. Intelectuais do porte de Astrojildo Pereira (um de seus fundadores), Octávio Brandão, Caio Prado Jr., Graciliano Ramos e Mário Schenberg, entre outros, vinculavam-se a projetos e perspectivas que tinham nas camadas proletárias o sujeito real da intervenção social.

Se a história do PCB foi marcada por uma sistemática repressão, que o compeliu à clandestinidade por mais da metade de sua existência e que entregou ao povo brasileiro boa parte de seus maiores heróis do século XX, nem por isto o PCB foi um partido marginal. Ao contrário: da década de 1920 aos dias atuais, os comunistas, com seus acertos e erros, mas especialmente com sua profunda ligação aos interesses históricos das massas trabalhadoras brasileiras, participaram ativamente da dinâmica social, política e cultural do país. Por isso mesmo, resgatar a história do PCB é recuperar a memória de um Brasil insurgente, ao mesmo tempo premido pelas imposições do modo de produção capitalista e do imperialismo, para comprovar que só pode fazer futuro quem tem lastro no passado.

Os anos de formação

Os primeiros anos, que vão da fundação do Partido a 1930, assinalam o esforço de criar no país uma cultura socialista e um modo proletário de fazer política. Recorde-se que, ao contrário de outros países, o Brasil não teve, antes de 1922, qualquer experiência partidária anticapitalista de alguma significância (exceção feita à pioneira ação dos anarquistas, cujo protagonismo esgotou-se com a greve geral de 1917 e a algumas tentativas malogradas de se constituir no Brasil um partido de matiz operária).

Nestes anos, realizando três congressos (o de fundação, em 1922, e os de 1925 e 1928/29) e já operando na clandestinidade, o PCB dá conta da sua dupla tarefa: de um lado, traduz e divulga o Manifesto do Partido Comunista e lança o jornal A Classe Operária, buscando divulgar as teses marxistas junto ao operariado. De outro, dinamiza o movimento sindical com uma perspectiva classista e independente inserindo-se no cenário da política institucional, através do Bloco Operário Camponês.

Em 1930, reconhecido pela Internacional Comunista e tendo criado a sua Juventude Comunista, o PCB já multiplicava por quinze os 73 militantes que se integraram ao Partido em 1922. A década de trinta marca dois movimentos na trajetória do PCB: o primeiro, até 1935, de afirmação política; o segundo, até 1942, de refluxo - ambos compreensíveis na conjuntura das transformações que a sociedade brasileira vivia com a chamada Revolução de 1930, que pôs fim à Primeira República e abriu caminho para a era Vargas.

ANL e revolta de 1935

Mesmo sem participação direta no evento político que derrubou a república oligárquica, o PCB logo se coloca como uma força política importante nesta nova quadra da história brasileira: é a organização que mais coerentemente enfrenta o avanço do integralismo (caricatura do movimento nazifascista no Brasil). Já contando em suas fileiras com a presença de Luiz Carlos Prestes - que haveria de se tornar o seu dirigente mais conhecido - o PCB articula uma grande frente nacional e antifascista, propondo à sociedade um projeto de desenvolvimento democrático, anti-imperialista e antilatifundiário. O Partido torna-se o núcleo dinâmico da Aliança Nacional Libertadora (ANL), frente antifascista na qual se reuniram comunistas, socialistas e antigos "tenentes" insatisfeitos com a aproximação entre o governo de Vargas e os grupos oligárquicos afastados do poder em 1930. Posta na ilegalidade a ANL, o PCB promove a insurreição de novembro de 1935.

A insurreição comunista parte da tomada de quartéis no Rio Grande do Norte, Pernambuco e Rio de Janeiro e, devido à sua desarticulação e ao não envolvimento das massas, é rapidamente dominada, tendo sofrido violenta repressão por parte das forças de segurança do Estado.

Derrotada a insurreição, abate-se sobre o país uma ação repressiva sobre todo o campo democrático, em especial sobre o PCB que, até inícios dos anos quarenta, viverá sob intensa repressão política, chegando a casos de extermínio físico de dirigentes e diversos militantes. Mas nem a duríssima clandestinidade impediu que os comunistas cumprissem com seus compromissos, até mesmo os internacionalistas: o PCB não só organizou a solidariedade à República Espanhola como, ainda, enviou combatentes para as Brigadas Internacionais.

"Partidão" e ilegalidade

A conjuntura internacional ao final da Segunda Guerra Mundial, quando se destacaram a derrota fascista em Stalingrado, o avanço das tropas soviéticas sobre o Leste Europeu e a ocupação de Berlim pelas forças antinazistas (com a União Soviética na frente), favoreceu a ação dos democratas brasileiros na abertura dos anos quarenta e, como força inserida no campo da democracia, os comunistas têm então possibilidade de intervenção.

Recuperando-se das perdas orgânicas dos anos imediatamente anteriores, o PCB - que exigira a participação do Brasil na guerra contra o nazifascismo e orientara seus militantes a se incorporarem à Força Expedicionária Brasileira (muitos deles voltariam do campo de batalha reconhecidos oficialmente como heróis) - se reestrutura, com a célebre Conferência da Mantiqueira, realizada em agosto de 1943.

A partir dela, o Partido conquista espaços na vida política e, quando da redemocratização, cujo marco é o ano de 1945, torna-se um partido nacional de massas, atingindo a marca de cerca de 200 mil filiados em 1947. Conquistando plena legalidade, constitui significativa bancada parlamentar e elege, pelo Estado da Guanabara, ao cargo de senador, o então Secretário-Geral do Partido, Luiz Carlos Prestes.

Protagonista essencial dos processos políticos, o PCB centraliza o movimento sindical classista, cria uma notável estrutura editorial e jornalística, empolga a intelectualidade democrática e passa ser a vanguarda democrática na Assembleia Nacional Constituinte.

Mas este movimento de afirmação política é brutalmente interrompido pela Guerra Fria: entre 1947 e 1948, o Partido é posto na ilegalidade e perseguido pelo Governo Dutra. Compelido à clandestinidade, o PCB responde à truculência do governo do Marechal Dutra com uma política estreita e sectária (expressa nos Manifestos de 1948 e 1950), o que conduz os comunistas a um profundo isolamento, além de dar início à luta interna entre as facções partidárias.

XX Congresso do PCUS: conflitos

As tensões explodem em 1956, com o impacto do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS): a denúncia do chamado "culto à personalidade de Stalin" cataliza a atenção dos militantes e irrompe no interior do PCB, provocando a emersão de divergências e conflitos internos reprimidos por uma década.

A luta interna que se seguiu ao impacto causado pelo XX Congresso do PCUS (na qual, além de um número expressivo de militantes, o PCB perdeu importantes dirigentes e quadros intelectuais) começou a ser ultrapassada em março de 1958, quando se divulga a Declaração Política que propõe uma nova perspectiva de ação dos comunistas. A Declaração de Março vincula a conquista do socialismo à ampliação dos espaços democráticos e formula uma estratégia revolucionária de longo prazo.

Partido Comunista Brasileiro, PCB

O V Congresso do PCB (realizado em setembro de 1960) consolida esta orientação e põe como tarefa imediata a conquista da legalidade, para o que era necessário o Partido se adequar juridicamente à legislação partidária, inclusive com a mudança do nome “Partido Comunista do Brasil (PCB)”, que existia desde a fundação, em março de 1922, designando a Seção Brasileira da Internacional Comunista, para Partido Comunista Brasileiro - PCB.

Posteriormente, o nome Partido Comunista do Brasil seria restaurado por dirigentes e militantes comunistas que saíram do PCB e criaram, em fevereiro de 1962, o PC do B, uma outra organização comunista, que, na época, discordara do processo de “desestalinização” ocorrido na União Soviética e, mais tarde, numa variação de sua linha político-ideológica (a exemplo do que voltaria a acontecer outras vezes na trajetória deste partido), haveria de se vincular ao maoísmo.

Golpe da burguesia e dissidências

Com a nova orientação, o PCB experimenta grande crescimento e, renovando amplamente o seu contingente de militantes, passa a exercer papel hegemônico na intelectualidade de esquerda e, principalmente, aumenta sua influência no movimento sindical, articulando alianças amplas e flexíveis, que se mostraram eficazes em certas conjunturas políticas difíceis, como, por exemplo, na posse de João Goulart, em setembro de 1961. 

Tais alianças, contudo, justamente por sua amplitude, muitas vezes colocaram o Partido a reboque do interesse de outras classes, fragilizando seu papel de vanguarda política do proletariado. Foi neste sentido que o golpe de abril de 1964, articulado pelas frações hegemônicas da burguesia monopolista brasileira, não encontrou nem as forças populares, nem o Partido em condições de resistência imediata, impondo ao PCB e ao conjunto das forças democráticas e de esquerda mais um duro período de repressão e clandestinidade.
                                                           
O Partido, porém, se recompôs e definiu uma linha de ação antiditatorial centrada na recusa de quaisquer propostas que não envolvessem ações políticas de massas. Esta recusa ao foquismo e às várias formas de luta armada que não levassem em conta a necessidade de organização e participação do movimento de massas, representando uma fase de predominância do esquerdismo político no combate à ditadura, custou ao PCB a perda de importantes dirigentes, tais como Carlos Marighela, Mário Alves, Jacob Gorender e Apolônio de Carvalho, dentre tantos outros. Esta orientação foi ratificada no VI Congresso que o PCB realizou em dezembro de 1967, uma vitória contra a repressão que se instalara no país.

Repressão e exílio

Os anos seguintes, balizados pela fascistização do regime ditatorial (principalmente a partir do Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968), marcaram, paradoxalmente, a comprovação do acerto da estratégia política do PCB e sua vulnerabilidade orgânica à repressão. Ao mesmo tempo em que a combinação da ação política clandestina com a utilização dos espaços legais (especialmente através da atuação no interior do MDB) revelava-se a forma correta de isolar o regime ditatorial, o PCB era violentamente golpeado. Entre 1973 e 1975, um terço de seu Comitê Central foi assassinado pela repressão, e milhares de militantes foram submetidos à tortura, alguns até a morte, dentre os quais o jornalista Vladimir Herzog e o operário Manuel Fiel Filho.

Nem por isso os comunistas deixaram de intervir ativamente na vida brasileira. Mesmo tendo a maioria da sua direção exilada e boa parte presa nos presídios da ditadura, o PCB desenvolveu uma política que privilegiava a unidade das forças democráticas. Assim, com a conquista da anistia, que fazia parte do programa do PCB desde o VI Congresso (1967), em setembro de 1979, o retorno de dirigentes e militantes que estavam no exterior e a volta à vida social de quadros que estavam na clandestinidade foram elementos centrais na dinamização da luta contra a ditadura em sua crise mais aguda, após o fim do chamado ciclo do milagre econômico.

VII Congresso do PCB: a consolidação da “via democrática”

Reestruturando-se em todo o país desde 1979, o PCB realizou, em dezembro de 1982, o seu VII Congresso, que formulou uma linha política para as novas condições da sociedade, sob o título "Uma alternativa democrática para a crise brasileira". O PCB atualizava o seu projeto de tornar-se um partido nacional de massas vinculando organicamente o objetivo socialista a uma democracia de massas, a ser construída no respeito ao pluralismo e nos valores fundamentais da liberdade.

O Partido, no encaminhamento deste Congresso, viu-se mais uma vez engolfado por lutas internas de graves consequências. Por um lado, o chamado eurocomunismo (que propunha a ocupação de espaços no interior da sociedade burguesa sem uma clara afirmação da luta de classes e da derrubada revolucionária do capitalismo, numa leitura deturpada e rasteira das ideias do dirigente comunista italiano Antonio Gramsci) havia construído sólidas bases no pensamento partidário. Embora não contassem com grande número de militantes e dirigentes que se assumissem como tal, as formulações centrais do eurocomunismo permeavam todas as teses congressuais. Por outro lado, o grupo liderado por Luiz Carlos Prestes, divergindo da orientação da maioria do Comitê Central, rompe com o Partido, após inúmeros embates que vinham se acirrando desde o exílio.

Devido às divergências internas e ao fato de o Congresso não ter terminado, tendo sido invadido pelas forças de repressão, o Comitê Central, somente no ano de 1984, consegue publicar o documento final de “Uma Alternativa Democrática para a crise brasileira”. O documento aprovado é permeado de contradições geradas pela tentativa de contemplar as principais facções e abafar os conflitos internos, buscando evitar, por alguns anos, a inevitável fragmentação partidária.

Mesmo assim, tendo como Secretário-Geral o ex-combatente de 1935, Giocondo Dias, o Partido alcançou ganhos na cena política, apesar de muito enfraquecido no interior dos movimentos populares (especialmente no interior do movimento operário, no qual sua política de conciliação de classes viu-se amplamente questionada). Esta débil inserção nos movimentos acabaria por fragilizar a intervenção política do PCB, em que pese sua relevância nas articulações institucionais da esquerda e do campo democrático. Assim, no decurso da derrota da ditadura e da transição democrática, o Partido não se afirmou como organização de massas, nem esteve na vanguarda das principais lutas e greves operárias no decorrer dos anos 1980, apesar de ter tido importante participação em inúmeras lutas sindicais, a exemplo da atuação no Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro e outros.

Legalidade e crise

O VIII Congresso (Extraordinário), já realizado sob condições de legalidade, em julho de 1987, não fez avançar a política do PCB: importantes questões táticas (por exemplo, a ação sindical e a política de alianças) e estratégicas (o próprio formato da organização partidária, a concepção de um caminho brasileiro para o socialismo) não foram efetivamente equacionadas.

Uma crise velada atingia o conjunto partidário, expressa na estagnação do contingente de militantes, na perda de inserção no movimento sindical, na pobreza dos resultados eleitorais e na ineficiência dos instrumentos partidários, como o semanário Voz da Unidade e todas as publicações da Editora Novos Rumos, que não eram legitimados pela militância.

O IX Congresso (1991), levado a cabo na sequência da queda do Muro de Berlim, mostrou o Partido dividido, desde o Comitê Central até as bases, entre aqueles que desejavam capitular frente à ofensiva neoliberal e adaptar-se ao novo ciclo de hegemonia burguesa e aqueles que propugnavam a reconstrução revolucionária do Partido. Já neste processo, os liquidacionistas pretendiam mudar o nome e o caráter marxista-leninista do Partido, sendo impedidos de fazê-lo pela enorme resistência de alguns dirigentes e das bases partidárias.

X Congresso do PCB: o racha

A crise explode no X Congresso extraordinário (em janeiro de 1992, em São Paulo), montado com o único intuito de, finalmente, levar a cabo as propostas liquidacionistas. O embate se dá entre uma maioria numérica forjada, da qual participavam não filiados ao PCB e membros de outros partidos, e os militantes do Movimento Nacional em Defesa do PCB, isto é, entre os que sairão para criar o Partido Popular Socialista - PPS e aqueles que reclamavam a continuidade do PCB.

No mesmo instante em que a maioria forjada votava pela liquidação do Partido, os militantes do Movimento Nacional em Defesa do PCB, após exporem sua decisão e objetivo na abertura do espúrio X Congresso, se retiram em passeata até o Colégio Estadual Roosevelt. Ali, foi realizada a Conferência Extraordinária de Reorganização do PCB, que decidiu, por aclamação, pela continuidade do Partido, com manutenção do seu nome e sigla históricos, prosseguindo na luta pelo socialismo.
                                                             
A retomada: a luta pela reconstrução revolucionária do PCB

A luta pela existência do PCB se deu em várias frentes: na luta de massas e no nível legal e institucional. Os militantes mantiveram vivo o Partido nos movimentos de massa, afirmando nos espaços de luta popular a reconstrução revolucionária do PCB. Na Justiça Eleitoral, foi travado um embate de mais de um ano pelo direito ao uso da sigla histórica. Ao final da disputa legal, a sentença do então ministro do TSE, Sepúlveda Pertence, deixou claro que a sigla PCB e seu símbolo só poderiam pertencer a quem de fato se afirmava herdeiro do legado político e histórico do Partido.

A próxima tarefa que se impôs aos militantes comunistas foi a batalha pela legalização e pelo registro definitivo do PCB. A campanha de filiação, para atender às rigorosas exigências do TSE - a filiação em 20% dos municípios de 9 estados - começou em 1994. Foram exigidos tremendos sacrifícios da direção e da militância, tanto em nível pessoal quanto financeiro, mas a tarefa foi completada com êxito no final de 1995.

Embora fosse árduo o esforço pela legalização, não foi a campanha de filiação a única atividade do PCB neste período. Iniciou-se a reorganização do Partido nos movimentos de massa, especialmente nos movimentos estudantil e sindical. Neste período, para definir nova linha política e o caráter do Partido, foram realizados uma Conferência Política Nacional em Brasília (1995) e dois Congressos: o X Congresso no Rio de Janeiro (1993), que ratifica o propósito de construir no Brasil uma alternativa revolucionária, tendo no marxismo sua base teórica e na construção do Partido junto ao movimento de massas a tarefa primordial visando a organização consciente do proletariado para as transformações rumo ao socialismo no Brasil; o XI Congresso, também no Rio (1996), que supera as avaliações nacional-libertadoras e etapistas que ainda vicejavam desde o racha com o PPS. Estes ricos processos de debates da militância partidária afastaram de vez qualquer formulação reformista e enfatizaram o caráter revolucionário do PCB. Retomaram o conceito de centralismo democrático, de acordo com suas origens, e reafirmaram o caráter marxista-leninista do Partido.

Nos últimos anos tem se intensificado o trabalho de estruturação interna do Partido e sua inserção nos movimentos de massa. Através, principalmente, do movimento sindical e estudantil e da participação nas entidades representativas, o Partido afirma a centralidade do trabalho e a necessidade da revolução social de matiz socialista. É através deste trabalho, também, que o partido vem recrutando e formando novos militantes e formulando sua intervenção junto às massas.

No mês de abril de 2000, em Xerém (Rio), realizou-se o XII Congresso. Além de aprofundar sua leitura sobre a conjuntura política nacional e internacional e formular a sua atuação política, os comunistas do PCB avançaram em outras questões que se colocam para a sociedade no enfrentamento à exploração capitalista. A construção de uma frente das esquerdas em um projeto de confronto ao neoliberalismo e a unidade dos comunistas no Brasil foram importantes resoluções aprovadas pelo Congresso. A consolidação da política de organização leninista foi concretizada na aprovação do novo estatuto partidário.

Em março de 2005, em Belo Horizonte, o PCB realizou seu XIII Congresso e reforçou a compreensão de que a "revolução socialista é um processo histórico complexo", isto é, que o "triunfo do Socialismo não é um fato que acontecerá de forma natural ou inexorável, como afirmam algumas leituras mecanicistas da obra de Marx, mas sim uma possibilidade histórica que deve ser construída".

Baliza a necessidade de ruptura com a política governamental que o então Presidente Lula desenvolvia no país, sob uma orientação social-liberal e conciliadora com os interesses e perspectivas das elites e do imperialismo. Em janeiro de 2006, o PCB rompe sua participação nos foruns da CUT (Central Única dos Trabalhadores), por entender que esta entidade torna-se um braço governamental e promotor da conciliação de classe junto aos trabalhadores. O Partido contribui para a construção da Intersindical – instrumento de organização e luta da classe trabalhadora – e propõe o debate sobre os desafios colocados para o movimento sindical de corte classista, na perspectiva da construção de uma nova e ampla entidade sindical, classista, democrática e independente, capaz de conduzir as lutas do proletariado, em especial da classe operária brasileira.

Nos últimos anos, o PCB recuperou espaços e ampliou a sua presença na área internacional, tendo construído laços mais fortes e empreendido ações conjuntas com partidos e organizações comunistas e de esquerda de outros países. Exemplos foram as presenças de delegações nos Congressos dos PCs Português, Grego, Colombiano, Argentino, Turco e da Federação Russa; nos encontros dos Partidos Comunistas realizados em Lisboa e São Paulo; nas visitas e ações conjuntas, no Brasil e no exterior, com os PCs Peruano, Chileno, Venezuelano, Boliviano, Paraguaio, Mexicano e outros; nas ações conjuntas e na presença em Congressos das Juventudes Comunistas (pela ação da UJC); na presença em atos políticos em outros países, com destaque para aqueles realizados na Venezuela, no Peru, na Bolívia, no Paraguai e em Honduras; na presença nos Encontros do Movimento Humanista; nas reuniões bilaterais com os PCs; nas participações em manifestos conjuntos e consultas internacionais com outros PCs.

XIV Congresso: construir o Bloco Revolucionário do Proletariado

No XIV Congresso, realizado em outubro de 2009 no Rio, comprova-se o acerto no trabalho de reinserção do PCB no movimento comunista internacional e de solidariedade militante aos partidos, movimentos e governos que avançam na luta anticapitalista e anti-imperialista em todo o mundo. Verificou-se a forte presença de convidados estrangeiros ao Congresso, através das delegações dos Partidos Comunistas Cubano, Grego, da Alemanha, dos Povos da Espanha, dos Mexicanos, Libanês, Colombiano, da Venezuela, da Bolívia, do Chile, Peruano, Paraguaio, Argentino, do Polo do Renascimento Comunista Francês, da Frente Popular de Libertação da Palestina, da Coordenadora Continental Bolivariana, do Partido Comunista do Vietnã e do Partido do Trabalho da Coréia.

Também compareceram, como convidados, companheiros do PSOL, do PSTU, do PDT, do PH, da Consulta Popular, do MST, do PCR, da Intersindical, da CUT, da Refundação Comunista, do CECAC, de entidades de solidariedade internacionalista e da nossa querida União da Juventude Comunista, demonstrando o crescimento do trabalho do PCB no interior dos movimentos sociais e políticos no Brasil.

No XIV Congresso, o PCB afirma que o Brasil já cumpriu o ciclo burguês, tornando-se uma formação social capitalista desenvolvida, terreno propício para a luta de classes aberta entre a burguesia e o proletariado. E assevera que o cenário da luta de classes mundial e suas manifestações no continente latino-americano, o caráter do capitalismo monopolista brasileiro e sua profunda articulação com o sistema imperialista mundial, a hegemonia conservadora, os resultados deste domínio sobre os trabalhadores e as massas populares no sentido de precarização da qualidade de vida, desemprego, crescente concentração da riqueza e flexibilização de direitos levam a reafirmar que o caráter da luta de classes no Brasil inscreve a necessidade de uma ESTRATÉGIA SOCIALISTA.

Para tanto, propõe a formação de uma frente política permanente de caráter anticapitalista e anti-imperialista, que não se confunda com mera coligação eleitoral, na perspectiva da constituição do Bloco Revolucionário do Proletariado como um movimento rumo ao socialismo.

XV Congresso: lutar, criar Poder Popular!

No XV Congresso, realizado em abril de 2014, os militantes do PCB reafirmam categoricamente a contradição entre capital e trabalho em nível global como a contradição fundamental a exigir a organização da classe trabalhadora na luta contra o sistema dominante. A luta central, pois, é a luta entre classes, não a luta entre nações. Mesmo reconhecendo que as mutações sofridas pela classe trabalhadora no quadro do redimensionamento global do capitalismo atual acarretaram alterações muito expressivas no conjunto do proletariado, fazendo com que, nos dias de hoje, ela seja bastante diferente do proletariado industrial identificado como sujeito revolucionário do Manifesto do Partido Comunista, consideram ser esse contingente de trabalhadores, por sua posição central no processo de produção de riquezas, o grupo capacitado a assumir o protagonismo na luta de classes, rumo à construção do socialismo e da sociedade comunista.

Ao analisar a conjuntura brasileira, o PCB entende que a chegada do PT ao governo só fez avançar a proposta de realização de um “pacto nacional” de submissão consentida dos trabalhadores à hegemonia burguesa. O apelo ao tratamento compensatório à fome e à miséria integra a estratégia de construção do consenso em torno do projeto de transformação do Brasil em um país de capitalismo avançado com “face humana”: a economia privada deve dar lucros, o Estado arrecadar e, depois de garantir os prioritários interesses do grande capital, deve chegar, de maneira focalizada, até pontos da miserabilidade, para amortecer a explosividade da miséria. Trata-se de uma política que propõe a conciliação e a harmonização entre o capital e o trabalho, colocando o interesse da “nação” acima dos interesses de classes, partindo da crença segundo a qual o desenvolvimento da economia capitalista resolve as desigualdades sociais através do “ciclo virtuoso” da produção, emprego, consumo, restando aos mais miseráveis as políticas compensatórias.

Como alternativa à ordem burguesa, o XV Congresso avança na formulação acerca do Poder Popular, cujo processo de construção deve se dar a partir das ações independentes da classe trabalhadora em seus embates contra as manifestações concretas do capitalismo, através de mobilizações, greves e movimentos que coloquem em marcha os diferentes segmentos do proletariado e da classe trabalhadora em geral. 

Tais lutas podem  se transformar em enfrentamentos mais intensos contra o sistema capitalista, mas somente a unidade programática em torno de eixos comuns capazes de unificar as demandas setoriais fragmentadas em uma pauta cada vez mais precisa de bandeiras e reivindicações, dará forma efetiva ao campo popular e de esquerda, no rumo de um programa político de transformações de caráter anticapitalista. Deste modo, o Poder Popular assumirá sua potencialidade como germe de um novo Estado sustentado pelas massas populares e pela classe trabalhadora, como germe de um Estado Proletário – a Ditadura do Proletariado – que conduzirá a transição socialista visando a erradicar a propriedade privada, as classes e, portanto, o próprio Estado através da livre associação dos produtores.

A Declaração Política elaborada pelo Comitê Central eleito no XV Congresso afirma:

“A reconstrução revolucionária do PCB avança agora com um Partido renovado, dinâmico, presente nas diferentes frentes de luta da classe trabalhadora e em todas as regiões do país, coeso em torno de formulações precisas e princípios revolucionários, buscando organizar os trabalhadores em seus locais de trabalho e moradia, atento à conjuntura nacional e internacional e ciente da imensa tarefa e responsabilidade de representar os ideais do comunismo neste século.

PELO PODER POPULAR, RUMO AO SOCIALISMO!

FOMOS, SOMOS E SEREMOS COMUNISTAS!

Comitê Central do PCB

(Partido Comunista Brasileiro)”

terça-feira, 24 de março de 2015

MEDALHA DINARCO REIS PARA O CAMARADA NESTOR VERA (NOITE DE MUITA EMOÇÃO EM BH)

                                             


Em noite de muita emoção na cidade de Belo Horizonte, no dia 21 de março, militantes do PCB, da UJC, de partidos e organizações da esquerda mineira participaram da solenidade de entrega da medalha Dinarco Reis em memória de Nestor Vera, membro do Comitê Central do PCB, principal organizador das lutas camponesas nos anos 1960, assassinado pela ditadura em abril de 1975.

A homenagem lembrou também o centenário de seu nascimento. Túlio Lopes, Secretário Político do PCB-MG, conduziu o evento, no qual Mari Marques falou em nome da Fundação Dinarco Reis e Ricardo Costa, pelo Comtê Central do PCB. 

Omene Vera, sobrinho de Nestor, recebeu a medalha das mãos do camarada Francisco Neres, que conviveu com Vera e atuava na reconstrução do Partido em Minas após o golpe de 1964, quando seu companheiro de lutas foi assassinado. 

A atividade contou com a presença de representantes do Instituto Helena Grego, do Partido Socialismo e Liberdade - PSOL, Partido Comunista Revolucionário - PCR, Comissão da Verdade de Minas Gerais, da Casa África, da Fundação Dinarco Reis, do Insituto Caio Prado Junior - ICP e da União da Juventude Comunista-UJC.
 Nestor Vera nasceu em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, em 19 de julho de 1915. Seus pais trabalhavam no campo. Teve cinco filhos com sua companheira Maria Miguel Dias. Vera começou sua trajetória de lutas na organização do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santo Anastácio/SP. 

Ingressou nas fileiras do PCB em 1946. Foi eleito vereador da cidade em 1947, em legenda alternativa ao PCB, cujo registro havia sido cassado. Como membro do Comitê Estadual do PCB em São Paulo, foi um dos responsáveis pelo jornal Terra Livre e integrou a direção da ULTAB - União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil, fundada em 1954.

Em contraposição às propostas de reforma agrária apresentada por setores da Igreja Católica e alguns latifundiários, Vera defendia uma reforma agrária radical capaz de liquidar com o monopólio da terra exercido pelo latifúndio, sem o que jamais haveria liberdade e sossego para os milhões de camponeses brasileiros. 

Comandando a comissão de redação da Declaração do I Congresso Nacional dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas sobre o caráter da Reforma Agrária, Vera garantiu que a bandeira pela liquidação da propriedade latifundiária se tornasse a palavra de ordem dos trabalhadores do campo nos primeiros anos da década de 1960.

No período, os comunistas atuavam fortemente no campo e exerciam a hegemonia na Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), criada, em 1963, em substituição à ULTAB.

Mesmo priorizando o trabalho entre os assalariados agrícolas, o PCB também atuava nas Ligas Camponesas, a exemplo do trabalho na Zona da Mata de Pernambuco, área de produção canavieira cuja liderança inconteste era a de Gregório Bezerra.

Nestor Vera foi cassado pelo Ato Institucional nº 1 em 1964, julgado à revelia e condenado a cinco anos de reclusão pela Lei de Segurança Nacional. 

A partir de então, passou a viver na clandestinidade, adotando nome e sobrenome falsos, não apenas para si, mas também para a mulher e seus filhos. Eleito suplente do Comitê Central do PCB no VI Congresso (1967), Vera manteve contato com militantes do Partido em várias cidades de Minas Gerais e participou da construção da Frente Patriótica contra o Fascismo (1973). 

Em abril de 1975, foi sequestrado em frente a uma drogaria no centro de Belo Horizonte, como parte da “Operação Radar”, destinada a liquidar nacionalmente com o PCB. Em Minas Gerais, estava em curso a “Operação Orquestra”, voltada a desarticular os comunistas no Estado.

O relatório apresentado pela Comissão da Verdade de Minas Gerais recomenda que o Estado garanta os recursos necessários para que os restos mortais de Nestor Vera sejam enfim encontrados. Seu exemplo de dedicação à causa revolucionária e à luta camponesa no Brasil deve ser sempre lembrado, para que a luta pela reforma agrária radical e pelo socialismo um dia seja realidade entre nós. (Com o site do PCB)

Agências de informação.O caso Edward Snowden

                                                                              
Dia 28/3, no Memorial da Resistência de São Paulo

Natalia Viana, da Agência Pública, e Pablo Ortellado, do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação, discutem vigilância em massa por agências de informação, denunciada pelo ex-espião da CIA Edward Snowden


Há aproximadamente dois anos, o ex-espião da CIA Edward Snowden divulgou uma série de documentos que mostraram como as tradicionais agências de espionagem e informação passaram a atuar dominando registros eletrônicos e vigilância em massa.

A coleta, o armazenamento e análise de milhões de comunicações privadas, seja por meio de webcams, celulares, e-mails e/ou históricos de navegação modificaram os tradicionais métodos de espionagem que fizeram parte da vida política dos países na segunda metade do século XX.

Para debater esta questão fundamental na vida das pessoas e os diferentes tratamentos dados hoje pelos governos aos meios de comunicação eletrônicos e os seus controles, o Sábado Resistente de 28 de março discutirá de que forma se exerce hoje a dominação política e cultural por meios da investigação eletrônica e como esta vigilância em massa pode influenciar nosso cotidiano.

Para debater este importante tema da atualidade, teremos a presença da jornalista Natalia Viana, da Agência Pública, notória organização de jornalistas dedicados ao jornalismo investigativo, e o professor Pablo Ortellado, doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo, professor do curso de Gestão de Políticas Públicas e coordenador do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (GPOPAI) da instituição.

Declarações de participação poderão ser emitidas mediante assinatura da lista de presença no dia da atividade e solicitação por e-mail ao endereço faleconosco@memorialdaresistenciasp.org.br. A atividade é gratuita e não é necessário se increver.

Participação sujeita à lotação do Auditório Vitae, no 5º andar do Memorial da Resistência de São Paulo.

PROGRAMAÇÃO

14h: Boas vindas
Kátia Felipini Neves (Memorial da Resistência de São Paulo)
Heládio Leme (Núcleo de Preservação da Memória Política)

14h15: Debate
Natalia Viana (Jornalista, diretora da Agência Pública)
Pablo Ortellado (Professor do curso de Gestão de Políticas Públicas e do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação – GPOPAI/USP)

16h30: Conversa com o público

Os Sábados Resistentes, promovidos pelo Memorial da Resistência de São Paulo, instituição da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, e pelo Núcleo de Preservação da Memória Política, são um espaço de discussão entre militantes das causas libertárias, de ontem e de hoje, pesquisadores, estudantes e todos os interessados no debate sobre as lutas contra a repressão, em especial à resistência ao regime civil-militar implantado com o golpe de Estado de 1964.

Os Sábados Resistentes têm como objetivo maior o aprofundamento dos conceitos de Liberdade, Igualdade e Democracia, fundamentais ao Ser Humano.

quinta-feira, 19 de março de 2015

CAMARADA NESTOR VERA, PRESENTE! ELE ACADA DE SER CONDECORADO COM A MEDALHA DINARCO REIS, A MAIS ALTA CONDECORAÇÃO DO PCB

                                                           

RELATÓRIO APRESENTADO PELA COMISSÃO DA VERDADE EM MINAS GERAIS SOBRE O DESAPARECIMENTO DO CAMARADA NESTOR VERA.

Pelo direito à Memória, à Verdade e à Justiça! Punição para os responsáveis por torturas, mortes e desaparecimentos durante a ditadura militar!



NESTOR VERA - Nestor Vera era de origem camponesa e nasceu no dia 19/07/1915, em Ribeirão Preto, São Paulo. Filho de Pilar Velasques e Manoel Vera, casou-se em 1938 com Maria Miguel Dias, com quem tinha cinco filhos. Foi secretário-geral da União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil (ULTAB) e tesoureiro da primeira diretoria da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura, entidade sindical fundada em dezembro de 1963 e que tinha como presidente Lindolpho Silva, também integrante do PCB.

Foi um dos organizadores do congresso camponês realizado em Belo Horizonte, em 1961, integrando nesse encontro a comissão sobre reforma agrária, ao lado de Francisco Julião, Armênio Guedes, Dinarco Reis e Alberto Passos Guimarães. Dessa comissão saiu o documento “Declaração do I Congresso Nacional dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas”, sobre o caráter da reforma agrária no Brasil. Trabalhou também como jornalista, sendo responsável pelo jornal Terra Livre, que o PCB lançou em 1949, cujo tema central era o movimento camponês.



Membro do Comitê Central do PCB, Nestor Vera se tornara o principal responsável pelo setor camponês. Em documentos do Centro de Informações do Exército consta a informação de que teria realizado curso de formação política em Moscou. Cassado pelo Ato Institucional número 1 em 1964, foi julgado à revelia e condenado a cinco anos de reclusão pela Lei de Segurança Nacional. A partir de então passou a viver na clandestinidade, adotando nome e sobrenome falsos, não apenas para si, mas também para a mulher e seus filhos.

Nestor Vera desapareceu em abril de 1975, em frente a uma drogaria de Belo Horizonte, confirme denúncia de Luís Carlos Prestes, dirigente do PCB. José Francisco Neres, seu companheiro de partido, reiterou a denúncia de seu desaparecimento: segundo afirmou, a direção nacional do PCB, na tentativa de reorganização sindical dos trabalhadores rurais, passou a enviar a Minas Gerais, frequentemente, Nestor Vera, então Tesoureiro da Confederação Nacional dos Trabalhadores Agrícolas, que fora cassada pelo golpe militar de 1964.

Neres informa em seu depoimento que, após as eleições de 1974, os sindicalistas e apoiadores do recém-eleito deputado federal Marcos Tito (MDB-MG) se reuniram em Belo Horizonte. Logo após o encontro, Nestor Vera foi deixado pelos companheiros, na Rua Rio Grande do Sul, esquina com a Rua Tamoios. Segundo o itinerário traçado e informado pelo próprio Nestor Vera, ele passaria pela Avenida Olegário Maciel e, logo em seguida, iria para a Rodoviária, pois já estava com passagem comprada para as 10:00 horas com destino a São Paulo.

Ainda conforme depoimento de José Francisco Neres, teria sido noticiado pelo Jornal Estado de Minas (embora o depoente informe que a notícia teria sido veiculada no Estado de Minas, em verdade a notícia foi divulgada no Diário da Tarde, conforme atesta o jornalista José Carlos Alexandre, em depoimento) que um senhor de cabelos brancos passava em frente à casa Falci, na Avenida Olegário Maciel, quase na esquina com a Rua Tupinambás, quando três homens de terno e gravata desceram de um carro com chapa branca, agarram-no e empurraram para dentro do veículo. Ainda segundo o depoente, esse senhor seria o Nestor Vera.

Segundo o depoimento do jornalista José Carlos Alexandre, que à época era redator do jornal Diário da Tarde, ele recebeu um telefonema do farmacêutico Edgar Guerra, informando que estivera com Nestor Vera pouco antes dele ser seqüestrado, à porta de sua farmácia, na Avenida Olegário Maciel, esquina com a Rua Tupinambás. O referido jornalista afirma que redigiu a nota de denúncia, de poucas linhas “(creio que dez ou doze)”, conforme declaração feita ao Ministério Público.

Nestor Vera foi reconhecido como desaparecido político pela Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos (processo número 212/96), com base na Lei número 9.140/1995:

Art. 1 – São reconhecidos como mortas, para todos os efeitos legais, as pessoas que tenham participado, ou tenham sido acusadas de participação, em atividades políticas, no período de 02/09/1961 a 05/10/1988, e que, por este motivo, tenham sido detidas por agentes públicos, achando-se, deste então, desaparecidas, sem que delas haja notícias.

A seguir, quadros que procuram elucidar as autorias de graves violações de direitos humanos, praticadas por agentes do Estado e milícias privadas, no caso em análise:

Nome: General Newton Cruz

Órgão: SNI – Função: Chefe do SNI

Grave violação de direitos humanos: Seqüestro, tortura e assassinato por execução sumária.

Conduta praticada pelo agente: Ordenou o seqüestro, a tortura e assassinato.

Local da grave violação: Delegacia de Furtos e Roubos de Belo Horizonte.

Fonte documental/testemunhal sobre a autoria: Cláudio Guerra. Memórias de uma guerra suja. Rio de Janeiro, Topbooks Editora e Distribuidora de Livros Ltda., 2012, PP.63 e 64, confirmado e detalhado por depoimento à CNV

Nome: Coronel Frederico Perdigão

Órgão: SNI – Função: Chefe do SNI-MG

Grave violação de direitos humanos: Seqüestro, tortura e assassinato por execução sumária.

Conduta praticada pelo agente: Ordenou o seqüestro, a tortura e assassinato.

Local da grave violação: Delegacia de Furtos e Roubos de Belo Horizonte.

Fonte documental/testemunhal sobre a autoria: Cláudio Guerra. Memórias de uma guerra suja. Rio de Janeiro, Topbooks Editora e Distribuidora de Livros Ltda., 2012, PP.63 e 64, confirmado e detalhado por depoimento à CNV

Grave

Nome: Cláudio Guerra

Órgão: Polícia Civil do Espírito Santo/DOPS

Grave violação de direitos humanos: Seqüestro, tortura e assassinato por execução sumária.

Conduta praticada pelo agente: Assassinatos por execução sumária e ocultação de cadáver.

Local da grave violação: Mata próxima a estrada que liga Belo Horizonte a Itabira – MG.

Fonte documental/testemunhal sobre a autoria: Cláudio Guerra. Memórias de uma guerra suja. Rio de Janeiro, Topbooks Editora e Distribuidora de Livros Ltda., 2012, PP.63 e 64, confirmado e detalhado por depoimento à CNV

Nome: João Alves Filho (vulgo Joãozinho Metropol)

Órgão: Polícia Civil de Minas Gerais

Grave violação de direitos humanos: Assassinatos por execução sumária e ocultação de cadáver.

Conduta praticada pelo agente: Seqüestro, tortura, execução sumária e ocultação de cadáver.

Local da grave violação: Mata próxima a estrada que liga Belo Horizonte a Itabira – MG.

Fonte documental/testemunhal sobre a autoria: Cláudio Guerra. Memórias de uma guerra suja. Rio de Janeiro, Topbooks Editora e Distribuidora de Livros Ltda., 2012, PP.63 e 64, confirmado e detalhado por depoimento à CNV

Nome: Hadyn Prates Saraiva

Órgão: Polícia Civil de Minas Gerais

Grave violação de direitos humanos: Assassinatos por execução sumária e ocultação de cadáver.

Conduta praticada pelo agente: Seqüestro, tortura, execução sumária e ocultação de cadáver.

Local da grave violação: Mata próxima a estrada que liga Belo Horizonte a Itabira – MG.

Fonte documental/testemunhal sobre a autoria: Cláudio Guerra. Memórias de uma guerra suja. Rio de Janeiro, Topbooks Editora e Distribuidora de Livros Ltda., 2012, PP.63 e 64, confirmado e detalhado por depoimento à CNV

Remessa da descrição do caso Nestor Veras para a Procuradoria da República no Estado de Minas Gerais e para o Grupo de Justiça de Transição da segunda câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal para a tomada das providências cabíveis, tendo em vista a suspeita da práticas de crimes contra a humanidade e graves violações de direitos humanos no caso relatado à Covemg. Destaque-se a manifestação de Cláudio Guerra sobre o suposto local em que o corpo do opositor está enterrado, ficando claro o dever de investigação por parte do Estado brasileiro, adotando-se perícia especializada, a fim de promover efetivo esclarecimento do desaparecimento forçado.

Fonte: Comissão da Verdade em Minas Gerais – um ano de atividades. Belo Horizonte: dezembro de 2014. Páginas 154-160.

O Camarada Nestor Veras

                                                                     
José Carlos Alexandre

Eu convivi durante um período da ditadura com Nestor Veras (ou Vera). 

Na verdade já o conhecia de 1961, quando da preparação do I Congresso Nacional dos Camponeses (ou Congresso Nacional dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil,  que se realizou no antigo prédio da Assembléia Legislativa, na Rua Tamoios. 

Quando voltamos a nos encontrar ele havia se tornado o Camarada Wilson. 

Um grande camarada, ainda conservando sem se identificar oficialmente o cargo de diretor da Contag, a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura. 

Para não dizer muito,Wilson foi um dos responsáveis pelo êxito da primeira comemoração unitária do Dia do Trabalhador em Minas Gerais depois da ditadura, com o auditório da então Secretaria de Saúde lotado. 

Nós do PCB fizemos intensa preparação, com Wilson na coordenação.

Um dos companheiros sindicalista estava oficialmente na direção das manifestações, o Camarada Hélio Salvador de Azevedo, já falecido. 

Os oradores previstos, discursaram . 

Só ao final os radicais decidiram que todos deveriam sair para as ruas. 

Aí não deu mais. A polícia acabou intervindo. 

Mas o 1º de Maio de 1968 ficou na história como o desafio mais importante à ditadura no 
Estado, junto com as greves em Contagem.

Depois  chegou dezembro e o AI-5...

O regime se fechou mais até que o povo organizado nas Diretas Já! confrontou o arbítrio e conquistou a eleição de Tancredo. 

O resto é conhecido. 

O último ditador que não gostava de cheio de povo, saiu pela porta dos fundos...

Wilson foi sequestrado na avenida Olegário Maciel , torturado e morto pela ditadura,em pleno governo que anunciava uma falsa "abertura lenta e gradual".

Hoje Wilson ou Nestor Vera é parte da história do Brasil e da América Latina, livre da tirania. 

Sua história deveria fazer parte para sempre dos currículos escolares e da história dos movimentos sociais.


Trincheira do Flávio Anselmo

                                                             

GALO LEMBROU OS BONS TEMPOS DO TÍTULO. FOI BOM NA  BOLA, NA TÁTICA E NA RAÇA



LIÇÃO AOS PESSIMISTAS -  Quando escrevi que o diabo não era tão feio quanto se pintava, juro que pensava em números caso o Galo arrancasse ao menos o empate na Colômbia ou que não seria o fim se fosse derrotado. O time, como sempre acontece em situações como essa, surpreendeu. Foi além da conta. Jogou muito e ganhou de pouco ( 1 a 0, gol de Pratto).



MELHOR EM CAMPO: Penso que o melhor jogador em campo, disparado, foi Jemerson. Que atuação impecável! No entanto, não posso deixar de destacar Marcos Rocha, Donizete, Cárdenas - enquanto teve fôlego -  Dodô entrou bem no seu lugar - Luan, Pratto no seu mister, que é fazer gols; Edcarlos, limpa trilho; o São Victor, com uma defesa sensacional e com  sorte com a bola na trave no final da partida.



EU ACREDITO, DE NOVO - O grito de "Eu acredito" voltará sem dúvida no Independência na próxima partida, contra o mesmo Santa Fé, iniciando o returno. O Galo tá na briga, seu Thales Cri Cri.



SPIDER LEVA UM ANO - Não sou louco de afirmar, téte a téte, com Anderson Silva que a possível suspensão dele, anunciada pela coluna Radar, da intolerável "Veja" seria bem aplicada.A sentença sai semana que vem e Spider deve ficar um ano e meio sem lutar no MMA. Ou seja, carreira encerrada. Pra quem foi Rei do esportes e depois tornou-se vira-lata, se dopando pra competir - e negar veementemente tal ação - merece punição assim. Anderson Silva não soube parar. Mesmo milionário, deixou a soberba falar mais alto. Dopou-se na esperança de não ser pego e terminar  as lutas no pódio. Deu-se mal.



ANIMAÇÃO TOTAL - Otrodia, este ouvido puro, por onde deslizam o melhor da MPB, ouviu enquanto os olhos que a terra há de comer viram na ESPN, num daqueles programas de encher o saco, que o namoro entre Lucas Silva e o Real Madrid estava no fim.  E mal começou! Segundo um pitaqueiro de lá, o ex-craque do Cruzeiro seria emprestado a um time menor pra ganhar cancha. Isso depois de ser titular em várias partidas. Pra mostrar que não existe crise alguma entre ele e os merengues, Lucas Silva mandou um registro na conta Instagram onde aparece ao lado de Cristiano Ronaldo, Marcelo e outros craques numa festa total. Domingo, o Real Madrid joga pela Liga Espanhola contra seu arquirrival, Barcelona, e é bem provável que Carlo Ancelotti entre com Lucas pra marcar, exclusivamente, o argentino Lionel Messi.



EM SE TRATANDO DE MESSI -  Se eu fosse o Lucas Silva arranjava logo um descarga intestinal e ficava em casa, caso ele tenha visto o primeiro tempo de Barcelona e Manchester City (1 a 0, Barça), e o espetáculo individual do Lionel. Deu uns três chapéus e duas canetas, uma no brasileiro Fernandinho. O placar foi de apenas 1 a 0, porque o City teve no gol o gigante Hart, que pegou até pensamento. Neymar teve duas mil chances e Hart defendeu. Bom, o goleiro do Barça, Ter Stegen pegou um pênalti cobrado por Aguero e evitou o empate.  Messi não foi o melhor em campo, porque caiu no segundo tempo e Hart continuou pegando tudo.



SORIN SEM LEGENDA - Até o impagável Tostão, o maior ídolo do Cruzeiro, que escorregou da medicina malfeita pro jornalismo esportivo, onde se mantém graças aos papa-ovos de jogadores de futebol, criticou a participação de Juan Pablo Sorin como comentarista da ESPN. A velha mania dos meios de comunicação de contratar ex-atletas, ruins de português e de comunicação, como comentaristas. Sorin mora no Brasil há uns 20 anos e não aprendeu a falar a língua pátria ou faz charme. Concordo com Tostão: o argentino até que lê bem os jogos, taticamente, porém é duro entender o que ele quer dizer. Só com legenda em português, o que a ESPN devia providenciar de imediato.



CHUTE NA CABEÇA - Assistindo aos jogos da Copa da UEFA, fico pensando se os europeus mostrariam a mesma qualidade nesses pastos que chamam de gramado na maioria dos estádios da Libertadores. Não é apenas isso. Pelo Grupo 4, no empate entre Emelec x Internacional (1 a 1), no Peru, o goleiro do Emelec saiu da meta num contra-ataque dos gaúchos com o pé direito na altura da testa do atacante Sasha. Abriu-lhe uma brecha. O árbitro inventou um impedimento, não deu o pênalti e nem expulsou o goleiro. Quem aguenta! Já não basta a tal altitude que desequilibram as forças.

Anita Prestes fala sobre o Dia Internacional da Mulher ( Peço desculpas por não publicar este vídeo mais cedo, por impedimentos pessoais. José Carlos Alexandre)

A adaga dos covardes, ou, O limite da imbecilidade direitista (Os grifos são meus, José Carlos Alexandre)

                                          
Mauro Luis Iasi



Um amigo libanês, pintor de primeira e bruxo militante, mostrou-me certa vez uma adaga em uma bainha de prata ricamente trabalhada com uma inscrição em árabe que ele traduziu. A frase alertava ao portador da arma que seria sábio quem não a desembainhasse, mas aquele que o fizesse não usando a arma seria um covarde.

A delicada conjuntura em que nos encontramos está cheia de blefes, o que torna difícil a análise. A direita ameaça com o impedimento da presidente, um ex-presidente ameaça colocar o “exercito” de outros para defender o seu governo, outro ex-presidente tece pendores democráticos e de respeito a legalidade enquanto seu partido conspira na direção oposta.

Como sempre, para superar a borbulha enganosa da aparência, é necessário descer às determinações de classe e aos interesses em jogo.

[TRÊS BLEFES]

O equilíbrio do governo de pacto social sempre foi difícil uma vez que supõe poder conciliar o que é inconciliável, isto é, os interesses de classe opostos de trabalhadores e burgueses. A engenharia possível pressupõe uma certa estabilidade econômica e uma governabilidade negociada por meio de cargos no governo, favorecimentos eleitorais e emendas ao orçamento para responder aos lobbies por trás (pela frente e por todos os lados) dos digníssimos parlamentares eleitos e se completa com a ação de governo que garante as condições para a acumulação de capitais em proporções adequadas. Enquanto isso acena aos trabalhadores com a miragem da inserção na sociedade de mercado via garantia dos níveis de emprego e salário, acesso ao crédito e programas compensatórios de combate às manifestações mais agudas da miséria absoluta.

O mais importante é que funciona enquanto a burguesia deseje que funcione.

Por um tempo funcionou e reconduziu os governos petistas em três mandatos consecutivos. O quarto mandato chegou de raspão com o país dividido praticamente ao meio. Um congresso nacional ainda mais conservador, uma oposição fortalecida e um PMDB como fiel da balança e representando a condição, mais que nunca, para a governabilidade. 

Uma receita para a instabilidade, toda a negociação anterior e durante a campanha eleitoral se torna insuficiente. O PMDB exige mais espaço (Lula se apressa em afirmar que concorda com o pleito), mas também mais protagonismo e mais independência. Ganha a presidência da Câmara com Cunha e endurece a negociação sobre a composição do governo e o orçamento abrindo margem para chantagear a presidência.

Aqui o primeiro blefe. O PMDB tem a vice presidência e vários ministérios chaves. Controla um quinhão invejável no segundo e terceiro escalões, governos de estado que por sua vez dependem de projetos e verbas federais, assim como de favores eleitorais dos mais diversos. Tem pouca chances de um vôo solo como alternativa e suas chances estão ligadas ao sucesso do governo que enfraquece para negociar melhor.

O PSDB, histrionicamente bradando contra o governo com o cacife de uma oposição que garfou mais de 48% dos votos no último pleito, também se encontra em posição problemática. Não pode atacar o governo pelas medidas impopulares assumidas, pois as defendeu abertamente na campanha. Da mesma forma tampouco pode se dar ao luxo de se contrapor à linha geral da condução da economia e do Estado, pois no essencial respeita os compromissos macro econômicos, a premissa sacrossanta do superávit primário, a lógica privatista e mercantilizadora da vida… 

Escolheu a centralidade dos escândalos e da corrupção, mas convenhamos, é um terreno em que o PSDB não tem só o telhado de vidro, mas uma casa todinha de vidro. Basta lembrar a forma como foi feita a privatização das tele-comunicações sob a batuta do falecido Serjão, a entrega da Vale do Rio Doce, as contas não tão secretas em paraísos fiscais, para não falar do metrô de São Paulo e outras aventuras conhecidas.

Eis o segundo blefe. Alardeia-se o combate à corrupção, torcendo para que a apuração rigorosa e profunda, “doa a quem doer”, não chegue muito perto da mão que acusa, como o caso do HSBC parece indicar. Se o caos interromper o mandato da presidente e gerar dividendos eleitorais ao PSDB, ótimo para eles, mas não se pode fritar muito de modo que a fumaça não sufoque a todos na cozinha do Estado burguês. Qualquer alternativa de governo do PSDB passa pela negociação com o PMDB, daí o dilema: como queimar a gordura do PT sem tostar o bife do PMDB?

Por isso o escudeiro do caos, Aloysio Nunes e outros asseclas, vão às ruas pelo “sangue” de Dilma Rousseff, enquanto FHC e Aécio Neves, pedem um pouco mais de calma. Afinal, somos todos civilizados, não é?

[A APOSTA PETISTA]

O governo, um tanto quanto desorientado, pois julgava que bastava a mera repetição do mesmo procedimento anteriormente exercitado e uma base sólida no Congresso para escapar do pior da crise, tateia erraticamente. Antes das eleições sua prioridade era recompor uma base e compensar as defecções, como as PSB e PTB, mas, prioritariamente mostrar-se confiável aos financiadores de campanha: as empreiteiras, os bancos, os industriais, o agronegócio, em suma, os donos do governo. As alianças, o programa e o perfil da campanha não deixaram margem à dúvida desta prioridade.

No entanto, a polarização da campanha contra o PSDB (Marina foi um episódio inflado que não se manteve) obrigou os petistas a desenterrar o discurso da luta entre ricos e pobres, do fantasma do passado e, na reta final, produzir um factóide diversionista segundo o qual trata-se de um embate de projetos que contrapunha de um lado uma direta privatista, que atacaria os direitos dos trabalhadores e reverteria as “conquistas” alcançadas, e de outro uma proposta progressista que enfrentaria a crise com crescimento (o que implicava, por sua vez, a manutenção da generosa ajuda aos capitalistas) e não realizasse ataques aos direitos dos trabalhadores.

Vejam que o governo agiu com uma certa sinceridade. Precisava atrair os setores sociais (por isso o discurso), mas não podia romper com suas alianças e com as exigências de seus patrões (por isso a manutenção do rumo geral conservador). Não é esse o blefe do governo. É que tem gente que quer tanto uma coisa que a projeta na realidade como se realidade fosse…

O problema é que passada as eleições, os setores sociais e movimentos populares que generosamente se dispuseram a votar na candidata “mais progressista” para evitar a direita, se viram diante do constrangimento de um governo que moveu-se rapidamente para implementar tudo aquilo que a direita perversa propôs. Os movimentos sociais e populares já tinham cumprido sua função, agora era o momento da incrível arte do pragmatismo político no qual o governo do PT tinha que gerar as condições para manter-se no governo até o final e, quem sabe, um próximo mandato. 
                                                                
Nesta direção era necessário recompor a base, acertar a vida com o Congresso e tomar as medidas amargas contra os trabalhadores para garantir a continuidade da política de superávits primários e a sangria de recursos do fundo público para o capital financeiro.

Evidente que isso gerou um descontentamento muito grande, mas aqui fico na incômoda posição de defender a presidente Dilma. Ela falou que ia fazer isso, era evidente que faria. Os setores sociais que apostaram, com razões louváveis e algumas até justificadas, nesta opção estão descontentes com a imagem que criaram e não com o real efetivo. Acontece com torcidas de futebol, com relacionamentos amorosos… acontece também com projetos políticos. Já cantava Chico com as palavras de Ruy Guerra:

“Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito,
Me assombra a súbita impressão de incesto”.

…e até o Chico acreditou!

Certos movimentos sociais, setores populares e segmentos de esquerda literalmente não negociaram nada. Daí o qualificativo “generosamente” ao tratar do apoio oferecido. O Governo não se comprometeu formalmente com nenhum dos pontos que constituem a fantasia imaginada de uma inflexão à esquerda.

Pelo contrario, deu o tempo inteiro mostras que não alteraria o rumo da política que enterrou a reforma agrária em benefício do agronegócio, os direitos trabalhistas em nome das condições favoráveis ao crescimento da economia capitalista, a privatização contra as políticas públicas, o acordo com os fundamentalistas religiosos descartando a luta contra a homofobia e outras pautas, a conivência com velhas formas políticas contra uma verdadeira mudança das regras do fazer política na direção dos interesses populares.

[A VELHA DIREITA]

Aqui é que começa o problema. Apesar de ter cedido em tudo… tudo mesmo, ao que a ordem burguesa exigiu, o governo de pacto social do PT continua ameaçado. Ocorre é que a metáfora da adaga aqui se torna limitada. Não estamos diante de um instrumento nas mãos de um sujeito, mas de uma dinâmica política que uma vez desencadeada ganha certa autonomia. Os sujeitos políticos são compósitos, formados por fragmentos, facções segmentos que reproduzem em ponto menor o dilema da sociabilidade burguesa: a contradição entre interesses individuais particulares e interesse geral.

Nenhum ator particular que desembainhou a adaga parece de fato querer o impeachment, mas parece que a adaga quer. Em tempos de fetichismo absoluto, um fenômeno desses não devia nos espantar. É verdade que a burguesia monopolista em suas diferentes facções (industrial, bancária, agrária, comercial, etc.) nunca ganhou tanto e prescreveu o remédio que seus funcionários no governo estão zelosamente administrando. Precisa de estabilidade institucional, teme reviravoltas que possam colocar em risco, real ou potencial, a ordem. Mas adorariam encerrar este ciclo de governos petistas. E se houver possibilidade, porque não?

O mesmo pode ser dito do imperialismo. Alguns governistas afoitos e seu exercito de dedos nervosos nas redes sociais, desenterraram o imperialismo como o sujeito oculto da desestabilização. Ora o imperialismo sempre pensa em cenários e a desestabilização nunca ficou fora da pauta. 

A pergunta é: como se pensou nestes doze anos enfrentar esta evidência? Armando o povo, preparando as forças armadas e buscando aliados, como na Venezuela? Ou se mostrando confiável e evitando se apresentar como responsável, como nos governos Lula e Dilma, e fazendo um acordo militar com os EUA, mobilizando e dirigindo tropas de intervenção no Haiti?

Impedimentos e interrupções institucionais não são utilizados apenas contra governos de “esquerda” ou de um reformismo potencialmente perigoso à ordem capitalista (duas coisas que o governo do PT não representa nem remotamente) mas também contra governos que já cumpriram sua função e passaram a se tornar incômodos. É o que aconteceu quando surgiu a necessidade de interromper o Estado Novo getulista ou a autocracia burguesa no final dos anos 1970.

A grande burguesia e o imperialismo lucraram com o ciclo petista, mas não lutarão para defendê-lo se ele ameaçar ir para o ralo. A burguesia não é fiel, nem monogâmica. Nunca foi. Não será agora que irá mudar sua natureza.

A expressão política da burguesia tem, no entanto, outros problemas. A ocupação do espaço político central pelo PT lhe rouba sua essencialíssima função na vida. Ela precisa encontrar um meio de se livrar do PT porque este ocupa o lugar que por coerência seria o seu, por isso quer aproveitar toda chance possível. Sua responsabilidade com os interesses de classe da grande burguesia monopolista faz com que ela hesite, assim como o medo de, no chumbo trocado das acusações, colocar em risco a ordem instituída. Mas ela tem a obrigação de tentar, porque disso depende sua sobrevivência.
                                                 
[A EXTREMA DIREITA]

Isso é diferente quando se trata da extrema direita. Ela é o cachorro louco da burguesia. É incômoda e caricatural, mas útil. Não pede licença para pôr fogo no circo. Em épocas normais a burguesia a mantém presa na jaula do Estado de Direito, mas a crise é seu habitat natural. Isolada ela é só pitoresca, como nas marchas que andou ensaiando pelo país. Mas, num certo caldo de cultura, se alimenta do irracionalismo e do conservadorismo, cresce e pode se tornar uma ameaça, mesmo um incômodo para seus donos.

A extrema direita foi às ruas e ganhou dimensão massiva nos últimos protestos pelo impeachment. A extrema direita quer o impedimento da presidente, se possível seu fuzilamento e a exumação do corpo de Marx para ser fuzilado também. Parece que descobriram o motivo do desmonte da educação no Brasil, é um perigoso terrorista de barbas longas (sem turbante) chamado Paulo Freire.

[O BLEFE PETISTA]

Diante deste cenário intricado o PT mantém-se fiel à sua ação aparentemente errática. Faz todos os esforços para garantir a credibilidade diante do grande capital e de seus aliados de direita, que constituem a base operacional de seu governo; ao mesmo tempo em que precisa mobilizar suas “bases sociais” (de fato eleitorais) para não virar presa fácil contra aqueles que querem sua queda.

Neste ponto a coisa fica ridícula. O governo impõe as chamadas medidas de austeridade e ataca diretamente os direitos dos trabalhadores. O principal partido do governo (talvez o segundo na linha hierárquica depois do PMDB) – o PT – aprova por maioria as medidas de austeridade propostas, e o ex-presidente Lula conclama que elas são necessárias e não atacam os direitos dos trabalhadores. Ao mesmo tempo conclama suas “bases sociais” (na verdade, em parte aparelhos burocráticos que um dia foram organizações independentes da classe trabalhadora) para atos em defesa do governo, mas contra as medidas de austeridade… do mesmo governo… que implementa as medidas… Estão acompanhando?

Ora, aqui também não se deve culpar o PT. Ele não pode fazer outra coisa. Os setores que, com razões honestas, queriam uma guinada à esquerda estão trabalhando com o desejo, não com a realidade. Este seria o caminho mais rápido para o impeachment. O governo jamais fará isso. Todos sabem. Desde os que sinceramente gostariam que o governo fosse mais à esquerda, até os governistas mais renitentes que acham que tudo está certo e não há nada a ser corrigido.

Este é o blefe.

Mobilizam as massas, mas para apassivá-las. As mobiliza para usá-las como instrumento em seu jogo e não como força própria em busca de seus próprios interesses de classe. É para ameaçar seus aliados e adversários. Desembainha uma adaga que não pretende usar.

A direita chama um ato pelo impeachment. Lógico que a extrema direita se anima. Mas as lideranças estão preocupadas, seus nomes andam sendo divulgados pelas listas dos envolvidos nos atos de corrupção. FHC pede calma, não é hora de impeachment. Michel Temer sorri ao lado dos presidentes do Senado e da Câmara (os dois na lista) na arte de fazer de conta que ele não tem nada a ver com isso.

Na mais alta temperatura do acirramento, escuto a notícia que Dilma propôs um pacto… com o PSDB… que não aceitou… mas, está pensando. Depois do domingo amarelo… duvido.

No meio disso uma população tentando entender o que está acontecendo. De um lado, um cara com uma adaga bradando – “vou te meter um impeachment no bucho!” – (lógico, com muita calma para não prejudicar os negócios), de outro um senhor que pregava a paz e o amor e que adora dizer que banqueiros nunca ganharam tanto em seu governo ameaçando chamar as massas para uma rebelião (lógico, desde que não atrapalhe o bom relacionamento da ministra do agronegócio com a presidente e as medidas de austeridade, que na verdade são necessárias… não é?).

De um lado os governistas chamam um ato contra as medidas de austeridade que atacam os trabalhadores e em defesa do governo que as aplica, de outro a direita que quer derrubar o governo “esquerdista”, mas aprova as medidas.

E vocês querem que os trabalhadores entendam isso? Lá na consciência imediata da classe trabalhadora uma faxineira explica ao repórter de um jornal paulista porque aderiu as vaias contra a presidente diante de seu pronunciamento (no qual disse que era preciso coragem para aplicar as medidas contra os trabalhadores propostas por seu ministro Levy) e diz:

“Querem saber o motivo da vaia? É simples: estou cansada de trabalhar e não ter nada”.

Outro trabalhador é ainda mais direto:

“Ela mexeu nos direitos do trabalhador. Falou a campanha inteira que não ia e fez”.

(“Após manifestação de ‘peões’, empresária defende petista“, Folha de S. Paulo, 11/03/2015, por Juliana Sayuri e Daniela Lima)
                                                          
[A PERGUNTA QUE NÃO SE CALA]

Que a direita e a extrema direita se comportem como tal é compreensível e esperado. A pergunta que precisa ser respondida é por que ela ganha apoio de amplos setores de massa. A resposta cômoda para o governismo defensor do pacto social é simplista, trata-se de quem votou e quem não votou na Dilma. Típico de quem abandonou o referencial de classe para pensar em eleitores. Trata-se perigosamente de um momento onde os anseios e inquietações de setores dos trabalhadores estão sendo capturados pelo ideário conservador e de direita.

E que ideário é esse? A rede Globo em mais uma demonstração de miséria jornalística tenta enquadrar a realidade no molde de seu jornalismo de desinformação, transformando o circo de horrores da direita na rua no dia 15 em uma “festa da democracia” e perguntando aos inquietos e perdidos ministros Rosseto e Cardoso como o governo responderia às “demandas da ruas”, a “voz das ruas”, o “grito das ruas”. Apesar da emissora (que recebeu auxílio governo petista para não quebrar) tentar reapresentar o samba de uma nota só da corrupção, as “ruas” gritavam coisas como: “pela intervenção militar”, “morte aos comunistas”, “em defesa do feminicídio”, “pela maioridade penal”, “contra as doutrinações marxistas nas escolas”. Algumas demandas, para facilitar o entendimento, escritas em inglês e francês.

Vejam, com todos os problemas das Jornadas de 2013 podíamos ver ali como central um conjunto de demandas como a defesa do transporte público, contra os gastos com os eventos esportivos, contra a violência da política militar, a denúncia dos limites desta pobre democracia representativa. Ainda que houvesse por um tempo, a tentativa de contrabando das bandeiras direitistas elas foram sendo isoladas das manifestações. Agora elas dão o tom e organizam grandes manifestações em defesa da barbárie.

Interessante notar que as Jornadas de 2013 forma violentamente reprimidas e o senhor Cardoso, Ministro da (in)Justiça, se apressou a cercar de garantias legais a ilegalidade da repressão e criminalização dos movimentos. Já no festival da extrema direita anti-comunista a policia militar tirava fotos e selfies com os animados participantes vestidos com a camisa da CBF, enquanto à noite o Ministro dizia que precisamos respeitar as manifestações porque são democráticas.

15 03 17 Mauro Iasi Selfie Choque[Oficial da tropa de choque tira foto com família verde a amarela. A imagem foi capturada pelas lentes da TV Trip na cobertura que fez da manifestação em São Paulo]

Meu barbeiro, filho de operário eletricitário, que se animou com a campanha das diretas porque queria votar para presidente, diz que este governo precisa acabar porque senão vai implementar aqui um regime parecido com o da Venezuela e sugere duas alternativas: entregar o Brasil para ser administrado pelos EUA ou devolver aos índios (eu sugeri que ele insistisse na segunda alternativa).

O mais surpreendente, no entanto, foi sua conclusão diante das minhas ponderações. Com o olhar sério e aquela autoridade que só possui quem segura uma navalha afiada em sua garganta, ele concluiu: “Sabe, eu acho que ninguém quer o impeachment, o que eles querem é deixar este governa sangrar por quatro anos para depois derrotá-lo de uma vez por todas nas próximas eleições”.

Sabe do que mais, acho que meu barbeiro está certo. Feito isso, pegou a navalha e aparou o que restava de cabelo na minha nuca, limpando a espuma em um pano. Lá na rua ainda se ouvem os gritos de combatentes segurando suas adagas cegas que não pretendem usar… “olha que eu te furo”… “não se eu te furar primeiro”… enquanto se prepara o acordo.

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Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas. (Com a Boitempo)