sábado, 13 de fevereiro de 2016

Os chineses estão em festa. Comemoram o Ano do Macaco. Ano 4174

A imagem é da Rádio Internacional da China

Jornalistas brasileiros estão entre os mais pessimistas da América Latina

                                                                                                            Reprodução             

Cerca de 35% dos jornalistas brasileiros acreditam que a situação vai pior na economia
          Uma pesquisa realizada pelo instituto de pesquisa Ipsos comprova que os jornalistas no Brasil estão pessimistas em relação à evolução da economia do país nos próximos 12 meses. 

De acordo com o levantamento, 35% dos profissionais acreditam que, em um ano, a situação econômica brasileira estará pior que a atual. Somente um quinto dos profissionais de imprensa acreditam que a economia melhorará em um ano, enquanto 43% disseram que a situação continuará igual no período.


Na América Latina, o resultado só é melhor que o da Venezuela, onde 72% dos jornalistas creem que economia deteriorará nos próximos meses. 

Os repórteres mais otimistas da região são os argentinos. Cerca de 49% disseram que a situação econômica do seu país deve melhorar, frente aos 29% que afirmaram que o cenário ficará igual enquanto e os outros 19% que tendem a ver que o quadro terá uma piora. 

Cuba é o segundo país com jornalistas mais otimistas. 36% dos profissionais acreditam que a economia estará melhor nos próximos meses. De acordo com a pesquisa Ipsos, 43% dos profissionais de imprensa cubamos acreditam que a economia continuará igual nos próximos 12 meses, enquanto 17% veem deterioração. 

Análise da região

O mesmo estudo ainda questionou os jornalistas latino-americanos sobre a percepção que têm acerca da economia de países da região. A economia brasileira é classificada por 100% dos repórteres como ruim, sendo a pior avaliação da região.

sobre o futuro da economia brasileira, 58% dos comunicadores acreditam que em um ano a situação estará pior, 42% que esperam melhora. 

(Com o Portal da Revista Imprensa)

Um bom dia para reivindicarmos Einstein: Por que o socialismo?

                                                 


Diário Liberdade - Estudiosos norte-americano acabam de verificar de maneira empírica previsões que Albert Einstein tinha avançado um século atrás, em 1916, sobre a existência de ondas gravitacionais, curvas espaço-tempo geradas por violentos fenómenos do cosmos.

Foi o Observatório de Interferometria de Ondas Gravitacionais (LIGO) que detetou o chamado "som do universo", numa experiência realizada nos Estados Unidos que confirma a validade fundamental dos grandes estudos científicos que Einstein realizou.

São muitas a aproximações possíveis à figura do maior cientista do século XX. Nós propomos reler a avaliação por ele realizada em torno de uma outra questão colocada já no seu tempo: a questão do socialismo. Eis o artigo que Albert Einstein dedicou ao assunto em 1949.

Porque o socialismo?

Será aconselhável para quem não é especialista em assuntos económicos e sociais exprimir opiniões sobre a questão do socialismo? Eu penso que sim, por uma série de razões.

Consideremos antes de mais a questão sob o ponto de vista do conhecimento científico. Poderá parecer que não há diferenças metodológicas essenciais entre a astronomia e a economia: os cientistas em ambos os campos tentam descobrir leis de aceitação geral para um grupo circunscrito de fenómenos de forma a tornar a interligação destes fenómenos tão claramente compreensível quanto possível. Mas, na realidade, estas diferenças metodológicas existem. 

A descoberta de leis gerais no campo da economia torna-se difícil pela circunstância de que os fenómenos económicos observados são frequentemente afectados por muitos factores que são muito difíceis de avaliar separadamente. Além disso, a experiência acumulada desde o início do chamado período civilizado da história humana tem sido – como é bem conhecido – largamente influenciada e limitada por causas que não são, de forma alguma, exclusivamente económicas por natureza. 

Por exemplo, a maior parte dos principais estados da história ficou a dever a sua existência à conquista. Os povos conquistadores estabeleceram-se, legal e economicamente, como a classe privilegiada do país conquistado. Monopolizaram as terras e nomearam um clero de entre as suas próprias fileiras. Os sacerdotes, que controlavam a educação, tornaram a divisão de classes da sociedade numa instituição permanente e criaram um sistema de valores segundo o qual as pessoas se têm guiado desde então, até grande medida de forma inconsciente, no seu comportamento social.

Mas a tradição histórica é, por assim dizer, coisa do passado; em lado nenhum ultrapassámos de facto o que Thorstein Veblen chamou de “fase predatória” do desenvolvimento humano. Os factos económicos observáveis pertencem a essa fase e mesmo as leis que podemos deduzir a partir deles não são aplicáveis a outras fases. Uma vez que o verdadeiro objectivo do socialismo é precisamente ultrapassar e ir além da fase predatória do desenvolvimento humano, a ciência económica no seu actual estado não consegue dar grandes esclarecimentos sobre a sociedade socialista do futuro.

Segundo, o socialismo é dirigido para um fim sócio-ético. A ciência, contudo, não pode criar fins e, muito menos, incuti-los nos seres humanos; quando muito, a ciência pode fornecer os meios para atingir determinados fins. Mas os próprios fins são concebidos por personalidades com ideais éticos elevados e – se estes ideais não nascerem já votados ao insucesso, mas forem vitais e vigorosos – adoptados e transportados por aqueles muitos seres humanos que, semi-inconscientemente, determinam a evolução lenta da sociedade.

Por estas razões, devemos precaver-nos para não sobrestimarmos a ciência e os métodos científicos quando se trata de problemas humanos; e não devemos assumir que os peritos são os únicos que têm o direito a expressarem-se sobre questões que afectam a organização da sociedade.

Inúmeras vozes afirmam desde há algum tempo que a sociedade humana está a passar por uma crise, que a sua estabilidade foi gravemente abalada. É característico desta situação que os indivíduos se sintam indiferentes ou mesmo hostis em relação ao grupo, pequeno ou grande, a que pertencem. Para ilustrar o meu pensamento, permitam-me que exponha aqui uma experiência pessoal. 

Falei recentemente com um homem inteligente e cordial sobre a ameaça de outra guerra, que, na minha opinião, colocaria em sério risco a existência da humanidade, e comentei que só uma organização supra-nacional ofereceria protecção contra esse perigo. Imediatamente o meu visitante, muito calma e friamente, disse-me: “Porque se opõe tão profundamente ao desaparecimento da raça humana?”

Tenho a certeza de que há tão pouco tempo como um século atrás ninguém teria feito uma afirmação deste tipo de forma tão leve. É a afirmação de um homem que tentou em vão atingir um equilíbrio interior e que perdeu mais ou menos a esperança de ser bem sucedido. É a expressão de uma solidão e isolamento dolorosos de que sofre tanta gente hoje em dia. Qual é a causa? Haverá uma saída?

É fácil levantar estas questões, mas é difícil responder-lhes com um certo grau de segurança. No entanto, devo tentar o melhor que posso, embora esteja consciente do facto de que os nossos sentimentos e esforços são muitas vezes contraditórios e obscuros e que não podem ser expressos em fórmulas fáceis e simples.

O homem é, simultaneamente, um ser solitário e um ser social. Enquanto ser solitário, tenta proteger a sua própria existência e a daqueles que lhe são próximos, satisfazer os seus desejos pessoais, e desenvolver as suas capacidades inatas. Enquanto ser social, procura ganhar o reconhecimento e afeição dos seus semelhantess, partilhar os seus prazeres, confortá-los nas suas tristezas e melhorar as suas condições de vida. 

Apenas a existência destes esforços diversos e frequentemente conflituosos respondem pelo carácter especial de um ser humano, e a sua combinação específica determina até que ponto um indivíduo pode atingir um equilíbrio interior e pode contribuir para o bem-estar da sociedade. É perfeitamente possível que a força relativa destes dois impulsos seja, no essencial, fixada por herança. 

Mas a personalidae que finalmente emerge é largamente formada pelo ambinte em que um indivíduo acaba por se descobrir a si próprio durante o seu desenvolvimento, pela estrutura da sociedade em que cresce, pela tradição dessa sociedade, e pelo apreço por determinados tipos de comportamento. O conceito abstracto de “sociedade” significa para o ser humano individual o conjunto das suas relações directas e indirectas com os seus contemporâneos e com todas as pessoas de gerações anteriores. 

O indíviduo é capaz de pensar, sentir, lutar e trabalhar sozinho, mas depende tanto da sociedade – na sua existência física, intelectual e emocional – que é impossível pensar nele, ou compreendê-lo, fora da estrutura da sociedade. É a “sociedade” que lhe fornece comida, roupa, casa, instrumentos de trabalho, língua, formas de pensamento, e a maior parte do conteúdo do pensamento; a sua vida foi tornada possível através do trabalho e da concretização dos muitos milhões passados e presentes que estão todos escondidos atrás da pequena palavra “sociedade”.

É evidente, portanto, que a dependência do indivíduo em relação à sociedade é um facto da natureza que não pode ser abolido – tal como no caso das formigas e das abelhas. No entanto, enquanto todo o processo de vida das formigas e abelhas é reduzido ao mais pequeno pormenor por instintos hereditários rígidos, o padrão social e as interrelações dos seres humanos são muito variáveis e susceptíveis de mudança. 

A memória, a capacidade de fazer novas combinações, o dom da comunicação oral tornaram possíveis os desenvolvimentos entre os seres humanos que não são ditados por necessidades biológicas. Estes desenvolvimentos manifestam-se nas tradições, instituições e organizações; na literatura; nas obras científicas e de engenharia; nas obras de arte. Isto explica a forma como, num determinado sentido, o homem pode influenciar a sua vida através da sua própria conduta, e como neste processo o pensamento e a vontade conscientes podem desempenhar um papel.

O homem adquire à nascença, através da hereditariedade, uma constituição biológica que devemos considerar fixa ou inalterável, incluindo os desejos naturais que são característicos da espécie humana. Além disso, durante a sua vida, adquire uma constituição cultural que adopta da sociedade através da comunicação e através de muitos outros tipos de influências. É esta constituição cultural que, com a passagem do tempo, está sujeita à mudança e que determina, em larga medida, a relação entre o indivíduo e a sociedade. 

A antropologia moderna ensina-nos, através da investigação comparativa das chamadas culturas primitivas, que o comportamento social dos seres humanos pode divergir grandemente, dependendo dos padrões culturais dominantes e dos tipos de organização que predominam na sociedade. É nisto que aqueles que lutam por melhorar a sorte do homem podem fundamentar as suas esperanças: os seres humanos não estão condenados, devido à sua constituição biológica, a exterminarem-se uns aos outros ou a ficarem à mercê de um destino cruel e auto-infligido.

Se nos interrogarmos sobre como deveria mudar a estrutura da sociedade e a atitude cultural do homem para tornar a vida humana o mais satisfatória possível, devemos estar permanentemente conscientes do facto de que há determinadas condições que não podemos alterar. Como mencionado anteriormente, a natureza biológica do homem, para todos os objectivos práticos, não está sujeita à mudança. Além disso, os desenvolvimentos tecnológicos e demográficos dos últimos séculos criaram condições que vieram para ficar. 

Em populações com fixação relativamente densa e com bens indispensáveis à sua existência continuada, é absolutamente necessário haver uma extrema divisão do trabalho e um aparelho produtivo altamente centralizado. Já lá vai o tempo – que, olhando para trás, parece ser idílico – em que os indivíduos ou grupos relativamente pequenos podiam ser completamente auto-suficientes. É apenas um pequeno exagero dizer-se que a humanidade constitui, mesmo actualmente, uma comunidade planetária de produção e consumo.

Cheguei agora ao ponto em que vou indicar sucintamente o que para mim constitui a essência da crise do nosso tempo. Diz respeito à relação do indivíduo com a sociedade. O indivíduo tornou-se mais consciente do que nunca da sua dependência relativamente à sociedade. Mas ele não sente esta dependência como um bem positivo, como um laço orgânico, como uma força protectora, mas mesmo como uma ameaça aos seus direitos naturais, ou ainda à sua existência económica. 

Além disso, a sua posição na sociedade é tal que os impulsos egotistas da sua composição estão constantemente a ser acentuados, enquanto os seus impulsos sociais, que são por natureza mais fracos, se deterioram progressivamente. Todos os seres humanos, seja qual for a sua posição na sociedade, sofrem este processo de deterioração. Inconscientemente prisioneiros do seu próprio egotismo, sentem-se inseguros, sós, e privados do gozo naïve, simples e não sofisticado da vida. O homem pode encontrar sentido na vida, curta e perigosa como é, apenas dedicando-se à sociedade.

A anarquia económica da sociedade capitalista como existe actualmente é, na minha opinião, a verdadeira origem do mal. Vemos perante nós uma enorme comunidade de produtores cujos membros lutam incessantemente para despojar os outros dos frutos do seu trabalho colectivo – não pela força, mas, em geral, em conformidade com as regras legalmente estabelecidas. A este respeito, é importante compreender que os meios de produção – ou seja, toda a capacidade produtiva que é necessária para produzir bens de consumo bem como bens de equipamento adicionais – podem ser legalmente, e na sua maior parte são, propriedade privada de indivíduos.

Para simplificar, no debate que se segue, chamo “trabalhadores” a todos aqueles que não partilham a posse dos meios de produção – embora isto não corresponda exactamente à utilização habitual do termo. O detentor dos meios de produção está em posição de comprar a mão-de-obra. Ao utilizar os meios de produção, o trabalhador produz novos bens que se tornam propriedade do capitalista. 

A questão essencial deste processo é a relação entre o que o trabalhador produz e o que recebe, ambos medidos em termos de valor real. Na medida em que o contrato de trabalho é “livre”, o que o trabalhador recebe é determinado não pelo valor real dos bens que produz, mas pelas suas necessidades mínimas e pelas exigências dos capitalistas para a mão-de-obra em relação ao número de trabalhadores que concorrem aos empregos. É importante compreender que, mesmo em teoria, o pagamento do trabalhador não é determinado pelo valor do seu produto.

O capital privado tende a concentrar-se em poucas mãos, em parte por causa da concorrência entre os capitalistas e em parte porque o desenvolvimento tecnológico e a crescente divisão do trabalho encorajam a formação de unidades de produção maiores à custa de outras mais pequenas. O resultado destes desenvolvimentos é uma oligarquia de capital privado cujo enorme poder não pode ser eficazmente controlado mesmo por uma sociedade política democraticamente organizada. Isto é verdade, uma vez que os membros dos órgãos legislativos são escolhidos pelos partidos políticos, largamente financiados ou influenciados pelos capitalistas privados que, para todos os efeitos práticos, separam o eleitorado da legislatura.

A consequência é que os representantes do povo não protegem suficientemente os interesses das secções sub-privilegidas da população. Além disso, nas condições existentes, os capitalistas privados controlam inevitavelmente, directa ou indirectamente, as principais fontes de informação (imprensa, rádio, educação). É assim extremamente difícil e mesmo, na maior parte dos casos, completamente impossível, para o cidadão individual, chegar a conclusões objectivas e utilizar inteligentemente os seus direitos políticos.

Assim, a situação predominante numa economia baseada na propriedade privada do capital caracteriza-se por dois principais princípios: primeiro, os meios de produção (capital) são privados e os detentores utilizam-nos como acham adequado; segundo, o contrato de trabalho é livre. Claro que não há tal coisa como uma sociedade capitalista pura neste sentido. É de notar, em particular, que os trabalhadores, através de longas e duras lutas políticas, conseguiram garantir uma forma algo melhorada do “contrato de trabalho livre” para determinadas categorias de trabalhadores. Mas tomada no seu conjunto, a economia actual não difere muito do capitalismo “puro”.

A produção é feita para o lucro e não para o uso. Não há nenhuma disposição em que todos os que possam e queiram trabalhar estejam sempre em posição de encontrar emprego; existe quase sempre um “exército de desempregados. O trabalhador está constantemente com medo de perder o seu emprego. Uma vez que os desempregados e os trabalhadores mal pagos não fornecem um mercado rentável, a produção de bens de consumo é restrita e tem como consequência a miséria. 

O progresso tecnológico resulta frequentemente em mais desemprego e não no alívio do fardo da carga de trabalho para todos. O motivo lucro, em conjunto com a concorrência entre capitalistas, é responsável por uma instabilidade na acumulação e utilização do capital que conduz a depressões cada vez mais graves. A concorrência sem limites conduz a um enorme desperdício do trabalho e a esse enfraquecimento consciência social dos indivíduos que mencionei anteriormente.

Considero este enfraquecimento dos indivíduos como o pior mal do capitalismo. Todo o nosso sistema educativo sofre deste mal. É incutida uma atitude exageradamente competitiva no aluno, que é formado para venerar o sucesso de aquisição como preparação para a sua futura carreira.

Estou convencido que só há uma forma de eliminar estes sérios males, nomeadamente através da constituição de uma economia socialista, acompanhada por um sistema educativo orientado para objectivos sociais. Nesta economia, os meios de produção são detidos pela própria sociedade e são utilizados de forma planeada. Uma economia planeada, que adeque a produção às necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho a ser feito entre aqueles que podem trabalhar e garantiria o sustento a todos os homens, mulheres e crianças. A educação do indivíduo, além de promover as suas próprias capacidades inatas, tentaria desenvolver nele um sentido de responsabilidade pelo seu semelhante em vez da glorificação do poder e do sucesso na nossa actual sociedade.

No entanto, é necessário lembrar que uma economia planeada não é ainda o socialismo. Uma tal economia planeada pode ser acompanhada pela completa opressão do indivíduo. A concretização do socialismo exige a solução de problemas socio-políticos extremamente difíceis; como é possível, perante a centralização de longo alcance do poder económico e político, evitar a burocracia de se tornar toda-poderosa e vangloriosa? Como podem ser protegidos os direitos do indivíduo e com isso assegurar-se um contrapeso democrático ao poder da burocracia?

A clareza sobre os objectivos e problemas do socialismo é da maior importância na nossa época de transição. Visto que, nas actuais circunstâncias, a discussão livre e sem entraves destes problemas surge sob um tabu poderoso, considero a fundação desta revista como um serviço público importante.

Texto escrito por Einstein para o lançamento da revista Monthly Review, cujo primeiro número foi publicado em Maio de 1949. Tradução de Anabela Magalhães.

Fonte: Resistir.
Eisten


(Com o Diário Liberdade)

Com a ajuda de Opera Mundi ando acompanhando as eleições nos EUA. Quando da primeira eleições de Bill Clinton, pude fazê-lo pessoalmente. Mas o quadro estava muito claro: ele venceu o então presidente George Bush, o pai...Não este Bushinho, candidato republicano...


Olga Benario Prestes, uma comunista internacionalista. A vida e a luta de uma revolucionária. (Já leu o livro Olga? Então aproveite a obra de Fernando Morais)

                                         
108 anos do nascimento de Olga Benario Prestes, nascida em 12 de fevereiro de 1908 e assassinada em abril de 1942 no campo de extermínio de Bernburg, na Alemanha

Figura emblemática cujo heroísmo jamais deixará de suscitar admiração de todos aqueles, homens e mulheres, que sonham hoje com um mundo melhor, em que a exploração do homem pelo homem tenha sido abolida para sempre e, consequentemente, as injustiças sociais, a fome, a miséria, o desemprego e o desamparo de milhões de pessoas tenham desaparecido.

Para saber mais sobre a história de vida e de militância comunista de Olga, consulte a página do Instituto Luiz Carlos Prestes.

1 De: Olga Benario, Luiz Carlos Prestes – Die Unbeugsamen, Briefwechsel aus Gefängnis und KZ. Robert Cohen (Hsg.)
2 Não olhe nos olhos do inimigo
3 CARTA INÉDITA DE OLGA BENARIO PRESTES À ERMELINDA FELIZARDO (AVÓ DE LUIZ CARLOS PRESTES)*
4 Una mujer
5 Olga Benário Prestes: um exemplo para os jovens de hoje!
6 NOVOS RUMOS
7 OLGA BENÁRIO PRESTES, por M.V. Campos da Paz.
8 Sobre Olga Benário Prestes
9 Última Carta de Olga Benário

Link para baixar gratuitamente o e-book do livro Olga, de Fernando Morais:


(Com Prestes a Ressurgir)

O burocrata

Roberto Figueiredo/Bohemia

Luta pela limitação da jornada de trabalho

                                                                      
Filipe Diniz

Entre as lutas de classes a conquista das 8 horas de trabalho há 150 anos foi «um nó central na luta de classes, sempre debaixo de fogo, sempre necessitando de ser reivindicado e defendido».

Em 1866 a 1.ª Internacional, no Congresso de Genebra, consagra a reivindicação das 8 horas de trabalho diário. O Congresso Operário americano, que decorreu em simultâneo, aprova idêntica reivindicação.

Uma reivindicação inteiramente actual. Mais do que actual, permanente: um nó central na luta de classes, sempre debaixo de fogo, sempre necessitando de ser reivindicado e defendido.

O espantoso desenvolvimento das forças produtivas e dos meios de produção nestes 150 anos justificaria não só uma radical redução do horário de trabalho – diário e no limite das 35 horas semanais – como também condições de produção capazes de libertar a humanidade de qualquer constrangimento económico e de bem-estar.

Mas o que se passa é o inverso, e o empobrecimento dos trabalhadores é em todo o lado acompanhado pela intensificação da exploração do trabalho. Só para referir o nosso País, segundo dados da OCDE, cada trabalhador em Portugal trabalhou 1857 horas, em 2014 contra 1849 em 2012.

A limitação do horário de trabalho está presente em cada avanço histórico. E a cada retrocesso reaccionário é um dos primeiros alvos a destruir. Para intensificar a exploração, sem dúvida. Mas, mais do que isso, para debilitar a força dos trabalhadores, para atrasar, desarticular e bloquear a sua tomada de consciência e a sua organização de classe. 

Qualquer dos «três oitos» históricos (8 horas de trabalho, 8 horas de descanso, 8 horas de lazer) é uma ameaça para o capital, cuja ofensiva incide tanto sobre o tempo de trabalho como sobre os outros. 

Desarticulando arbitrária e anarquicamente horários, «flexibilizando» tarefas, intrometendo as empresas nos tempos livres, promovendo e massificando o consumo de meios de informação e entretenimento ideologicamente formatados. Prolongando nas relações sociais gerais a alienação do processo de produção.

A luta pela redução do horário de trabalho é a luta dos trabalhadores pelo seu próprio tempo. O tempo do estudo, do conhecimento, da cultura, da organização. Da compreensão do movimento da história e da sua inserção nele. 8 horas criam toda a riqueza. As outras 8 + 8 criarão as condições para que ela seja justamente distribuída.

Este texto foi publicado no Avante nº 2.202 em 11 de Fevereiro de 2016.

(Com odiario.info)

Capital fictício – Verbete da Grande Enciclopédia Soviética


                                                           
                                           WWW.Expresso.PT/Carcará/Divulgação

  L. N. Krasavina


Capital Fictício — Capital investido em títulos de crédito (acções, obrigações), o qual dá aos possuidores o direito de se apropriarem regularmente de uma parte dos lucros na forma de dividendos ou de juros. Sendo o papel contrapartida do capital real, o capital fictício tem um movimento especial externo ao capital existente. Como uma mercadoria específica, ele é comprado e vendido num mercado especial — a bolsa de valores — e adquire um preço. Mas uma vez que os títulos de crédito não possuem valor [intrínseco], as flutuações no seu preço de mercado não coincidem (e isso acontece com frequência) com mudanças no capital real.

O preço do capital fictício é o rendimento capitalizado a ser derivado dos títulos de crédito. Ele é directamente proporcional ao nível de rendimento dos títulos de crédito e inversamente proporcional à taxa de juro bancária num dado país. Exemplo: se o rendimento anual de um título de crédito for de US$20 e a taxa de juro bancária for de 5 por cento, então o preço deste título de crédito será (20 x 100)/5 = US$400. A diferença entre os montantes de capital fictício e o capital existente constitui o lucro promocional. Um método utilizado na obtenção deste lucro é a emissão de acções num montante que excede significativamente o capital realmente investido na empresa.

Na era do imperialismo, a emissão de títulos de crédito cresce numa escala enorme; ao mesmo tempo, o crescimento do capital fictício ultrapassa o aumento do capital existente. Este crescimento rápido é provocado pelo uso generalizado de acções para financiar empresas, pelo crescimento da dívida nacional surgida de aumentos em despesas improdutivas pelos estados burgueses com a militarização e a guerra, e pela intensificação da inflação. No decorrer do ciclo de negócios, o capital fictício expande-se durante períodos de ascensão e contrai-se durante períodos de crise.

O capital fictício distingue-se também do capital de empréstimo. Os títulos de crédito constituem uma área de investimento para o capital de empréstimo. O capital fictício quantitativamente excede o capital de empréstimo e os movimentos dos dois tipos de capital não coincidem.

O desenvolvimento ulterior do fetichismo e do parasitismo das relações de produção capitalistas reflecte-se na categoria capital fictício. A fonte de rendimento com capital fictício é totalmente ocultada. Para os seus possuidores, os títulos de crédito parecem gerar rendimento por si mesmos. O parasitismo do capital fictício torna-se especialmente aparente no caso de empréstimos governamentais quando o governo gasta improdutivamente os fundos que levantou. Esta forma especial de capital fictício não só é destituída de valor como também, em muitos casos, não representa capital real. O juro de títulos governamentais é pago na sua maior parte através de receitas fiscais.

Na época da crise geral do capitalismo, têm-se verificado mudanças na estrutura do capital fictício. Com a expansão do sector estatal na economia e o aumento na dívida nacional, o mercado de títulos de crédito tornou-se cada vez mais saturado com títulos de crédito do governo. A coalescência de monopólios e governo pode ser vista em transacções conjuntas envolvendo capital fictício.

Com frequência crescente, o governo entra no mercados de títulos de crédito como devedor, credor e fiador, além disso, em contraste com empresas privadas, o governo ocupa um posição privilegiada uma vez que pode emitir títulos de crédito à vontade e pode oferecer vantagens fiscais aos investidores e garantias contra uma queda no valor de investimentos.

Esta conexão entre o capital fictício e o crédito e as garantias do governo agrava a inflação. O controle monopolista do Estado sobre transacções com capital fictício permite a este capital ser utilizado para atender necessidades do tesouro de títulos de crédito adicionais, aumentando portanto o montante do capital sob o controle de oligarquias financeiras.

Referências

Marx, K. Kapital , vol. 3, chs. 29 and 30. In K. Marx and F. Engels, Soch ., 2 nd ed., vol. 25, part 2.
Lenin, V. I. Imperializm, kak vysshaia stadiia kapitalizma . In Poln. sobr. soch ., 5th ed., vol. 27.
Trakhtenberg, I. A. Kreditno-denezhnaia sistema kapitalizma posle vtoroi mirovoi voiny . Moscow, 1954.
Anikin, A. V. Kreditnaia sistema sovremennogo kapitalizma . Moscow, 1964.
Shenaev, V. N. V. N. Banki i kredit v sisteme finansovogo kapitala FRG.   Moscow, 1967.
Krasavina, L. N. Novye iavleniia v denezhno-kreditnoi sisteme kapitalizma: Na materialakh Frantsii . Moscow, 1971.

Traduções adoptadas:
Securities: Títulos de crédito;    Bonds: Obrigações;    Income: Rendimento;   Revenues: Receitas;    Rent: Renda;   Earnings: Ganhos

Ver também:
O capital fictício, como a finança se apropria do nosso futuro
en.wikipedia.org/wiki/Fictitious_capital

O original é um verbete da Great Soviet Encyclopedia, 3 rd Edition (1970-1979), The Gale Group, Inc., transcrito em http://encyclopedia2.thefreedictionary.com/Fictitious+capital .   Este texto é anterior à explosão dos derivativos, o paroxismo absoluto do capital fictío.   Tradução de JF.

Este verbete encontra-se em http://resistir.info/ .

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Como obter um certificado de democracia

                                                         

Daniel Vaz de Carvalho

1 – O exame 

O exame é mediático. Comecemos pela pergunta eliminatória. O examinador (jornalista apresentador) coloca um ar traquina, estilo "com esta é que te vou tramar", e pergunta: "Acha que a Coreia do Norte é uma democracia?". 

Não se pode mostrar que se tem dúvidas sobre a ditadura instalada no país. Se responder – como o ex-candidato do PCP, Edgar Silva – que se preocupa com os direitos humanos na Coreia do Norte, como nos EUA, na Arábia Saudita ou em qualquer outra parte do mundo, está eliminado. 

No dia seguinte, o que quer que tenha enunciado sobre as suas ideias e propostas, sobre as crescentes desigualdades e pobreza no país devido à política de direita, os destaques na comunicação social são que "… tem dúvidas que a Coreia do Norte não seja uma democracia". O que servirá depois para gáudio dos comentadores. 

Se na altura do "exame" houver outro participante este deve aproveitar – mesmo que a pergunta não lhe tenha sido feita – para declarar o seu repúdio pelo "regime comunista" da Coreia do Norte e do seu ditador. Pode melhorar a nota mencionando também Cuba, por exemplo. Assim, mesmo que se apresente como "esquerda" ou mesmo "esquerda radical", os mediáticos examinadores dar-lhe-ão os mínimos para ser considerado(a) confiável, ou seja, mais ou menos inofensivo para o que se pretende na educação das massas. 

Porém, para passar no exame não basta ser bom aluno, é preciso cair nas boas graças dos examinadores. Assim, para adquirir o certificado e a sua periódica revalidação é tão importante o que se diz como o que se não diz. 

O facto de o poder em Kiev estar nas mãos de neonazis apoiados pela NATO não deve ser mencionado. Putin deverá sempre ser referido como ditador e a Crimeia como invadida e anexada. Ter havido um referendo não conta. No Kosovo, sim, contou, tanto mais que os EUA lá instalaram uma base militar, mas é melhor não falar nisso. É também importante achar que para resolver a questão Síria, Bashar-al-Assad deve ser afastado e o poder entregue à oposição "moderada". 

Outra pergunta eliminatória consiste em saber se "é a favor da saída do euro". Se disser que o país deve proceder ao estudo e preparar-se para essa situação, reprova. Escusa de insistir ou procurar mostrar-se simpático, prepare-se: as entrevistas vão ser como que interrogatórios e cada resposta contestada. 
                                                            
Dizer que Portugal deve permanecer no euro embora a sua "arquitetura" tenha de ser modificada, permite passar as eliminatórias, obter simpatia mediática e lugar como figurante na farsa do pluralismo vigente desempenhando o seu papel sem pôr em causa o que é fundamental para o sistema. 

Contudo para lhe darem este papel, não caia na asneira de defender o controlo público ou a nacionalização dos sectores estratégicos e muito menos de se considerar marxista-leninista, isto é, ter o materialismo-dialético como referência para analisar a realidade, a passada e a presente, bem como as perspectivas de futuro. Se o fizer, será reprovado e qualificado como "estalinista" 

2 – Aprofundamento de alguns pontos importantes 

É importante repetir como verdade absoluta o que dizem os media de referência. Sendo estrangeiros confere grande autoridade a quem os menciona. Nenhum apresentador se atreverá a discutir o que diz o Financial Times ou o Wall Street Journal. Citar relatórios do FMI ou da CE mostra que se está a lidar com alguém superiormente equipado intelectualmente, mesmo que previsões daquelas entidades tenham estado invariavelmente erradas e as medidas impostas se mostrem contraproducentes. 

Mas não se pense que no mundo mediático não há espaço para ser de esquerda ou mesmo "esquerda radical". Portanto, não se desista à partida. Pode ficar-se bem cotado na bolsa mediática se se tiver atenção a algumas questões já aqui citadas. Salientemos duas muito importantes. A Coreia do Norte e o "estalinismo". Para não cometer erros nestas matérias convém ignorar e, se for o caso, repudiar tudo o que se segue. 

É a Coreia do Norte uma democracia? A pergunta não faz sentido por duas razões. Primeiro, o interlocutor só aceita como democracia um sistema capitalista parlamentar que não conteste a hegemonia dos EUA; segundo, a pergunta induz à partida que a Coreia do Norte seria o único ou dos únicos países do mundo referenciados como ditadura. 
                                                     
Mas acresce uma outra razão: a Coreia do Norte é um Estado que permanece em guerra com os EUA e a coligação que chefiaram. Apesar das tentativas e propostas da Coreia do Norte para ser assinado um tratado de paz com os EUA que poria fim ao seu programa nuclear, foi sempre recusado. Existe apenas um armistício com os EUA, que portanto se mantém como adversário, dispondo de bases militares e importantes efetivos terrestres, marítimos e aéreos na proximidade das fronteiras da Coreia do Norte. 

Nenhum país em estado de guerra é uma democracia e nem é preciso chegar a este ponto. Nos EUA e na UE verificamos que cada vez mais as liberdades democráticas são seriamente cerceadas seja por razões de "segurança" [NR] , seja pelo forçado endividamento e a "austeridade". 

Relatos de visitantes e reportagens sobre a Coreia do Norte contrariam o que se propala sobre aquele país. Apesar da hostilidade de que se vê rodeado, os testemunhos dão conta de um governo que se esforça por melhorar a vida dos cidadãos partilhando o seu labor. Cada um ajuíze por si segundo reportagens que com diversas visões contrariam a "narrativa" institucionalizada. [1] 

A atual liderança promove uma abertura ao exterior e um grande esforço de desenvolvimento económico, científico e tecnológico, evidente nos seus avanços nas tecnologias aeroespaciais. Uma reportagem dá conta das condições de vida oferecidas a um cientista, curiosamente não ligado à produção militar, mas à biologia. 

Existe um líder carismático e é inegável a existência de um culto da personalidade pouco condizente para a mentalidade ocidental – o facto é que no ocidente submetidos às oligarquias não existem líderes dignos deste nome…. 

A direção política norte-coreana considera que o seu sistema é a forma de manter a soberania do país e não cair nos erros que as cedências ao ocidente produziram na Líbia, no Iraque, na Rússia de Ieltsin, ou a algo como o que ocorre na Síria. 

Não desejamos nem propomos nas margens do Tejo um sistema de organização política como o norte-coreano. Porém a Coreia do Norte merece a nossa amizade, solidariedade e admiração pela luta do seu povo na construção pacífica de um Estado plenamente desenvolvido. Assim deixasse de existir o imperialismo e as suas ingerências. 

Quanto ao chamado "estalinismo" – o que quer que isto queira dizer aqui e agora – é um conceito inventado pelo antimarxismo para condicionar e desacreditar as teses e a ação dos partidos e movimentos que lutam pela superação da sociedade capitalista e a construção do socialismo. "Estalinista" passou a ser um termo de carácter pavloviano (desencadeamento de reflexos condicionados) muito útil no processo de alienação vigente. 

Estaline foi responsável por grandes êxitos do socialismo, mas também erros e abusos que desvirtuaram a democracia socialista. Contudo, comprovadas falsidades sobre aquele período histórico são ampliadas e repetidamente divulgadas. Os crimes do imperialismo e do colonialismo são escamoteados; as situações de repressão motivadas pela cruel guerra de agressão das potências ocidentais 1918 -1921 (dita "guerra civil"), conspiração, sabotagem e terrorismo posteriores, invasão nazi-fascista, são integralmente atribuídas ao socialismo e caluniadas como "estalinismo"

É grosseira violação da verdade histórica ignorar os êxitos da URSS no desenvolvimento económico e social, na construção do socialismo, na luta pela emancipação dos povos e contra o fascismo, durante o período designado "estalinista". 

O termo "estalinista é utilizado atualmente pela direita, pela social-democracia, e também por certa esquerda como calúnia contra as teses básicas do marxismo-leninismo, teses que como nenhumas outras defendem e lutam pela paz, pela democracia económica e social e pelas relações de igualdade e não ingerência nas relações entre os povos. O capitalismo mostrou que nada disto é possível no seu sistema, daí ser usado como condicionamento intelectual e comportamental o "estalinismo" – termo sem qualquer relação com a realidade do nosso tempo e do nosso país. 

3 – Alguns conselhos adicionais 

Quando há factos que se tornam evidentes e mesmo escândalo público, como as alegadas fraudes bancárias no BPN, BPP, BES, BANIF, as acusações devem ser dirigidas a pessoas (administradores, gestores, etc.) nunca denunciando a natureza predatória do sistema capitalista, que esmaga os povos com impostos em benefício de uma minoria que vive da usura, da especulação, da exploração e da austeridade. 

A forma escandalosa como foram feitas privatizações e PPPs com prejuízo para o interesse público foi denunciada em relatórios do Tribunal de Contas. O tema foi evitado nos media e abafado pelos múltiplos ruídos em que é fértil. Nestes casos o que se pode criticar não é a intenção de privatizar, mas o Estado e os "políticos", defendendo sempre "menos Estado". 

Para obter um certificado com distinção é necessário defender que a "economia de mercado" é a única viável e de sucesso, que o privado é eficiente, que o Estado é mau gestor. Claro que é mau gestor, ao colocar-se ao serviço dos interesses privados (a "economia de mercado") e não dos interesses coletivos e sociais, mas isto não se deve dizer. 

Um comentário útil neste processo é exibir "ativo repúdio" pelo "modelo soviético", o que quer que isto seja, e o que tenha a ver com qualquer discussão sobre a situação atual. 

Criticar os media e seus comentadores dá direito a reprovação. Se o fizer será sempre tratado como "testemunha hostil". É preciso ser bem comportado(a) e respeitador do seu poder, nunca esquecendo quem os controla. Para não haver descuidos nesta matéria vejamos o que diz quem sabe. 
                                                      
Segundo William Colby, ex-diretor da CIA, "a CIA controla todos os que têm importância nos principais media". "Comprar um jornalista custa mais barato do que uma boa garota, quase duzentos dólares por mês", afirmou um agente da CIA em discussão com Philip Graham, do Washington Post, sobre a possibilidade de encontrar jornalistas dispostos a trabalhar para a CIA. 

Serge Halimi, diretor de Le Monde Diplomatique, afirmou que "a informação tornou-se um produto como qualquer outro. Um jornalista dispõe sobre a informação de pouco mais poder que uma empregada de supermercado sobre a estratégia comercial da empresa". 

De facto, "a essência dos media não é informação: é o poder" diz John Pilger, acrescentando: "Nos EUA seis mega empresas: GE-(NBC), News Corp (FOX), Dysney, Viacom, Time Warner (CNN), CBS, controlam 90% do que vemos, ouvimos ou lemos; 232 executivos da comunicação social prescrevem a dieta informativa dos norte-americanos. A faturação destes seis grupos em 2010 foi de 275,9 mil milhões de dólares." 

O fundador da Seara Nova, Raul Proença, escrevia em 1928: "Chama-se liberdade de imprensa, o direito exclusivo que têm certos potentados ou certos malfeitores, graças à sua fortuna ou às suas chantagens de influir na opinião do país." 

Muito assertivo, Paul Craig Roberts classifica os media como os "presstitutos" e resume esta questão: "Nos dias de Marx, a religião era o ópio das massas. Hoje são os media." Dizia Marx em carta para o seu amigo Ludwig Kugelmann: "E para que outra coisa são pagos os tagarelas sicofantas que não sabem jogar nenhum outro trunfo científico a não ser que, em suma, na economia política não é permitido pensar?" 

Nos media proliferam os "comentadores". A designação é consequente. De facto, na Idade Média, na escolástica, não havia investigadores, apenas "comentadores" de textos assimilados como dogmas. E ai daqueles que os contestassem… 

Atualmente os "comentadores" de serviço ao sistema são a clerezia do neoliberalismo e suas instituições, FMI, BCE, CE: a troika dos interesses oligárquicos. Podem passar horas em monocórdicas charlas sobre a submissão às inquestionadas "regras da UE" e a conformidade com a dogmática neoliberal. 

Queixam-se que a "reestruturação" não foi feita, mas as causas que originam e agravam as crises não são averiguadas: tudo o que sai fora do nihil obstat neoliberal é dado como não existente, blasfemo ou herético... Aqui se chegou.

[1] www.rt.com/shows/documentary/203135-north-korea-kim-jongun/ 
www.rt.com/news/329192-north-korea-peace-demands/ 
eoriasdarevolucao.blogspot.pt/2014/11/152-imagens-que-provam-que-coreia-do.html 
www.rt.com/news/329192-north-korea-peace-demands/ 

[NR] Em França, o parlamento acaba de inserir o "estado de urgência" na Constituição, cerceando direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Utilizaram como pretexto atentados recentes, de acordo com a receita americana:   a implosão de edifícios do World Trade Center em 11/Set/2001 permitiu aprovar de imediato a legislação repressiva que fora previamente elaborada. 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Quando você usa seu smartphone, todos os órgãos de segurança do mundo ficam sabendo o que você fala...

                                                   
            O novo estado da vigilância global

TVs espiãs. Reconhecimento facial de multidões. Mapeamento completo de atitudes. Como a “internet das coisas” e o “big data” amedrontam as sociedades

Ignacio Ramonet | Tradução: Vinícius Gomes Melo

Em nossa vida cotidiana deixamos, constantemente, rastros que entregam nossa identidade, mostram nossos relacionamentos, reconstroem nossos deslocamentos, identificam nossas ideais, revelam nossos gostos, nossas escolhas e nossas paixões – incluindo as mais secretas. Por todo o globo, múltiplas redes de controle maciço não param de nos vigiar. Em todas as partes, alguém nos observa através de fechaduras digitais. 

O desenvolvimento da internet das coisas e a proliferação de objetos conectados (1) multiplicam a quantidade de todo o tipo de dedos-duros que nos rodeiam. Nos Estados Unidos, por exemplo, a empresa eletrônica Vizio, sediada em Irvine (California), fabricante de televisões inteligentes conectadas a internet, revelou recentemente que seus aparelhos espionavam seus usuários através de dispositivos tecnológicos incorporados aos produtos.

Essas TVs gravam tudo o que seus espectadores consomem em matéria de programas audiovisuais: os programas em canais a cabo, o que é assistido em DVD, os pacotes de acesso a internet ou até mesmo os games… Dessa maneira, a Vizio pode saber tudo sobre o que seus clientes preferem em matéria de lazer audiovisual. E, consequentemente, pode vender essas informações a empresas publicitárias que, por meio da análise dos dados recolhidos, conhecerão com precisão os gostos de seus usuários e estarão em melhor posição para tê-los sob suas miras (2).

Por si só, essa não é uma estratégia diferente daquela que, por exemplo, o Facebook e o Google utilizam frequentemente para conhecer seus internautas e oferecer uma publicidade ajustada aos seus supostos gostos. Recordemos que, em 1984 de George Orwell, os televisores – obrigatórios em cada residência – “viam”, em suas telas, o que as pessoas faziam. (“Agora podemos vê-los!”). E a questão obrigatória hoje, diante da existência de aparelhos como os da Vizio, é saber se estamos dispostos a aceitar que nossa televisão nos espione.
                                                                
A julgar pela denúncia apresentada, em agosto de 2015, pelo deputado californiano Mike Gatto (foto) contra a sul-coreana Samsung, parece que não. A empresa foi acusada de também equipar seus novos televisores com um microfone oculto, capaz de gravar as conversas dos telespectadores, sem que estes soubessem, e de transmiti-las a terceiros (3)… Mike Gatto, que preside a Comissão de Proteção ao Consumidor e da Privacidade na Câmara Estadual, apresentou um proposta de lei proibindo que televisões espionassem as pessoas.

De maneira contrária, Jim Dempsey, diretor do centro de Direito e Tecnologias, na Universidade da California, acredita que os televisores-espiões irão proliferar: “A tecnologia permitirá analisar os comportamentos das pessoas. E isso não será interessante apenas para os publicitários. Também permitirá avaliações psicológicas ou culturais, que, por exemplo, interessarão também às companhias de seguro”. Sobretudo, se se considera que as empresas de recursos humanos e de trabalhos temporários já utilizam sistemas de análise de voz para estabelecer um diagnóstico psicológico imediato das pessoas que lhes telefonam em busca de emprego…

Espalhados por todas as partes, os detectores de nossas ações e atitudes abundam o nosso entorno. Sensores registram a velocidade de nossos movimentos ou de nossos itinerários; tecnologias de reconhecimento facial memorizam o formato de nossos rostos e criam, sem que saibamos, bases de dados biométricos de cada um de nós… Isso sem falar dos novos de chips de identificação por radiofrequência (RFID, sigla em inglês) (4), que, automaticamente, descobrem nosso perfil de consumo, assim como fazem os “cartões de fidelidade” que a maioria dos grandes supermercados e grandes marcas oferecem de maneira generosa.

Já não estamos sozinhos frente ao nosso computador. Quem, a essa altura, duvida que estão examinando e filtrando nossas mensagens eletrônicas, nossas pesquisas de internet, nossas conversações nas redes sociais? Cada clique, cada telefonema, cada compra no cartão de crédito e cada navegação na internet, fornecem excelentes informações sobre cada um de nós, que são entregues e analisadas por um império operando nas sombras a serviço de corporações comerciais, empresas publicitárias, entidades financeiras, partidos políticos ou autoridades governamentais.

O necessário equilíbrio entre liberdade e segurança corre, portanto, o perigo de se romper. No filme 1984, baseado na obra de Orwell e dirigido por Michael Radford, o presidente supremo, chamado Big Brother, definia assim sua doutrina: “A guerra não tem por objetivo ser vencida, seu objetivo é continuar”, e: “A guerra é feita pelos mandatários contra seus próprios cidadãos, e tem, por objetivo, manter intacta a estrutura dessa mesma sociedade” (5). Dois princípios que, estranhamente, são a ordem do dia em nossas sociedades contemporâneas. Com o pretexto de proteger toda a sociedade, as autoridades enxergam em cada cidadão um potencial infrator. A guerra permanente (e necessária) contra o terrorismo lhes proporciona o álibi moral perfeito e favorece a construção de um impressionante arsenal de leis para estabelecer o controle social total.

Além disso, deve-se levar em conta que crises econômicas inflam o descontentamento social; que, aqui ou ali, podem tomar a forma de revoltas entre cidadãos, levantes de camponeses ou rebeliões nas cidades. Mais sofisticadas que os cassetetes e os jatos de água das forças de segurança, as novas armas de vigilância permitem identificar melhor seus líderes e tirá-los de cena antecipadamente.
                                                      
O Panótico, de Michel Foucault
As autoridades nos dizem: “Haverá menos privacidade e menos respeito pela vida particular, mas haverá mais segurança”. Mas em nome desse imperativo instala-se, de maneira furtiva, um regime de segurança que podemos classificar como “sociedade de controle”. Em seu livro “Vigiar e Punir”, o filósofo Michel Foucault explica como o “Panótico” (“o olho que tudo vê”) (6) é um dispositivo arquitetônico que cria uma “sensação de onisciência invisível” e permite que os guardas vigiem sem serem vistos dentro da prisão. Atualmente, o princípio do “panótico” é aplicado a toda sociedade.

Na prisão, os detidos expostos permanentemente à mirada oculta dos “vigilantes”, vivem com o temor de serem flagrados cometendo alguma falta. Isso os leva a se autodisciplinarem… Podemos deduzir que o princípio organizador de uma sociedade disciplinária é o seguinte: estabelecendo-se uma vigilância ininterrupta, as pessoas acabam por modificar seus comportamentos. Como afirma Glenn Greenwald, “as experiências históricas demonstram que a simples existência de um sistema de vigilância em grande escala, seja qual for a maneira pela qual é utilizada, é o suficiente para reprimir dissidentes. Uma sociedade consciente de estar permanentemente vigiada torna-se, por consequência, mais dócil e amedrontada”. (7)

Hoje em dia, o sistema panótico foi reforçado com uma particular novidade em relação às sociedades de controle anteriores, que confinavam as pessoas consideradas antissociais, marginais, rebeldes ou inimigas em lugares de privação fechada: prisões, reformatórios, manicômios, asilos, campos de concentração, etc. Nossas sociedades de controle modernas oferecem uma aparente liberdade a todos os suspeitos (ou seja, a todos cidadãos), enquanto os mantêm sob permanente vigilância eletrônica. A contenção digital sucedeu a contenção física.

Às vezes, essa vigilância constante também acontece com a ajuda de dedos-duros tecnológicos que adquirimos “livremente”: computadores, telefones celulares, tablets, bilhetes eletrônicos para transportes públicos, cartões de crédito inteligentes, cartões de fidelidade, aparelhos GPS, etc. Por exemplo, o portal Yahoo!, que cerca de 800 milhões de pessoas consultam regular e constantemente, captura uma média de 2.500 rotinas de cada um de seus usuários por mês.

Já o Google, cujo número de usuários é maior que 1 bilhão, dispõe de um impressionante número de sensores para espionar o comportamento de cada usuário (8): o buscador Google Search, por exemplo, permite saber onde o internauta se encontra, o que ele busca e em que momento. O navegador Google Chrome, um mega-dedo-duro, envia diretamente para a Alphabet (a empresa matriz do Google) tudo o que o usuário faz quando navega na internet. 

O Google Analytics elabora estatísticas muito precisas sobre a navegação dos usuários na rede. O Google Plus recolhe informações complementárias e as mescla. O Gmail analisa a correspondência trocada – o que revela muito sobre o remetente e seus contatos. O serviço DNS (Sistema de Nome de Domínio) do Google analisa os sites visitados.

O YouTube, o serviço de vídeos mais visitados do mundo, que também pertence a Google – e portanto, à Alphabet – registra tudo o que fazemos em seu interior. O Google Maps identifica o lugar em que nos encontramos, para onde vamos, quando e por qual itinerário… AdWords sabe o que queremos vender ou promover.

E desde o momento em que ligamos um smartphone que opera com Android, o Google sabe imediatamente onde estamos e o que estamos fazendo. Ninguém nos obriga a utilizar o Google, mas quando o fazemos, eles sabem tudo sobre nós. E, segundo Julian Assange, imediatamente informa as autoridades dos Estados Unidos….

Em outras ocasiões, os que espionam e rastreiam nossos movimentos são sistemas dissimulados ou camuflados, semelhantes aos radares nas avenidas, os drones ou as câmeras de vigilância (também chamadas de “videoproteção”). Esse tipo de câmera tem se proliferado tanto que, por exemplo, no Reino Unido – onde existem mais de 4 milhões dela, uma para 15 habitantes – um pedestre pode ser filmado em Londres até 300 vezes ao dia.

E as câmeras de última geração, com a Gigapan, de altíssima definição (mais de um bilhão de pixels) permitem obter, com apenas uma fotografia e através de um poderoso zoom que entra na própria fotografia – a ficha biométrica do rosto de cada uma das milhares de pessoas presentes em um estádio, um comício ou uma manifestação política. (9)

Apesar de existirem sérios estudos, que já demonstraram a fraca eficiência da videovigilância (10) em matéria de segurança, esta técnica segue sendo ratificada pelos grandes meios de comunicação. Uma parte da opinião pública acaba por aceitar a restrição de suas próprias liberdades: 63% dos franceses declaram estar dispostos a uma “limitação das liberdades individuais na internet, por conta da luta contra o terrorismo”. (11).

O que demonstra haver, ainda, muita margem de submissão a ser explorada pelos que nos vigiam….


(1) A expressão “objetos conectados” refere-se àqueles cuja missão principal não é apenas a de ser periféricos informáticos ou interfaces de acesso à web, mas agregar, graças a uma conexão com a internet, valor adicional em termos de funcionalidade, informação, interação com o entorno ou de uso (Fonte: Dictionnaire du Web)

(2) El País, 2015

(3) A partir de então, a Samsung anunciou que mudaria sua política, e assegurou que o sistema de gravação instalado em seus televisores só seria ativado quando o usuário apertasse o botão de gravação

(4) Que já são parte de muitos dos produtos habituais de consumo, assim como os documentos de idenbtidade.

(5) Michael Radford, 1984

(6) Inventado em 1791 pelo filósofo utilitarista inglês Jeremy Bentham.

(7) Glenn Greenwald, Sem lugar para se esconder, Editora Sextante, 2014.

(8) Ver “Google et le comportement de l’utilisateur”, [“Google e o comportamento do utilizador”], AxeNet.

(9) Ver, por exemplo, a fotografia da cerimônia da primeira posse do presidente Obama, em Washington, 20/1/2009.

(10) “Assessing the impact of CCTV” [“Avaliando o impacto da CCTV”], o mais completo dos informes dedicados ao tema, publicado em fevereiro de 2005 pelo ministério do Interior britânico (Home Office), marca um ponto contra a videovigilância. Segundo este estudo, a debilidade do dispositivo deve-se a três elementos: a execução técnica, a ambição extrema dos objetivos pretendidos e o fator humano. Ver Noé Le Blanc, “Sous l’oeil myope des caméras”, Le Monde Diplomatique, Paris, setembro de 2008.

(11) Le Canard enchaîné, Paris, 15/4/2015

(Com Pátria Latina/Portal do PCB)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

DENGUE (EUA INTRODUZIRAM O VÍRUS EM CUBA)

                                      
Reconstrução tridimensional da estrutura do vírus da dengue, utilizando criomicroscopia eletrônica (Foto:www.purdue.edu).
                Ciência revela crime dos EUA contra Cuba em 1981



Mariana Cabrera


Resumen Latinoamericano/Bohemia

Era o ano de 1983 e o cientista cubano Gustavo Kourí assistia, como convidado, a um congresso de medicina tropical, realizado em Calgary, Canadá, onde ofereceria dados sobre a epidemia de dengue hemorrágica ocorrida em Cuba, em 1981, a qual ocasionou 158 falecidos, entre eles 101 crianças.

Entre os participantes do encontro estava também a doutora em Ciências Guadalupe Guzmán. Ela contou a esta redatora, em uma ocasião em que ambos apresentaram seus trabalhos acerca do tema e, de imediato, naquele salão repleto de gente, o professor Kourí leu uma declaração, na qual denunciava, publicamente, que esse vírus havia sido introduzido em Cuba, de forma deliberada, pelos Estados Unidos.

"Era um escrito breve, mas de muita força”, relatou a pesquisadora, e acrescentou: "Fez-se um grande silêncio; todos ficaram impactados. Depois, houve aplausos, e alguns se levantaram dos seus assentos e se foram”.

Alguns anos depois dessa revelação, em 1995, cientistas cubanos mostraram evidências sobre a semelhança do vírus circulante, em 1981, em Cuba, com o primeiro de dengue 2 isolada no mundo, conhecido como de referência ou protótipo. Depois daquele acontecimento não usual, apareceram textos em publicações científicas internacionais, que questionavam esses resultados. Mas a verdade terminaria por impor-se de maneira rotunda. Era só questão de tempo.

Em agosto de 2014 – três décadas depois da declaração do professor Kourí –, a revista Archives of Virology, órgão oficial da seção de Virologia da União Internacional de Sociedades Microbiológicas, incluiu em suas páginas o artigo intitulado "Primeira epidemia de dengue hemorrágico nas Américas, 1981: novos conhecimentos sobre o agente causal”. Sua autora principal é a doutora em Ciências Rosmari Rodríguez Roche, pesquisadora do Instituto de Medicina Tropical Pedro Kouri (IPK), reconhecida por esse resultado com o Grande Prêmio do Concurso Anual de Saúde 2015.

O estudo oferece evidências científicas irrefutáveis que corroboram a acusação feita por Cuba. Para compreender como foram atados os fios desta indagação minuciosa, com v características detetivescas, a doutora Rosmari Rodríguez faz um pouco de história.

                                                                         
Ter descoberto mudanças no vírus durante a epidemia de dengue, em 1981, abre a porta para novos estudos neste campo, afirma a doutora em Ciências Rosmari Rodríguez Roche. (Foto: LEYVA BENITEZ).

"Na década de 1990, o IPK, em colaboração com instituições afins de outros países, realizou estudos para caracterizar a cepa causadora da epidemia de dengue hemorrágica, em 1981. Essas pesquisas permitiram obter a sequência de cerca de 300 pares de bases, dos quase 11 mil que tem o genoma viral completo, com a utilização de metodologias de sequenciação manual e ferramentas bioinformáticas muito simples, as quais eram as que estavam disponíveis então.

"Entretanto, este pequeno fragmento resultou suficientemente informativo para demonstrar que a cepa causadora da epidemia de 1981 tinha grande semelhança com a do laboratório Nova Guiné C, isolada em 1944 (a primeira vez que se isolou a dengue 2 no mundo)”, explica a doutora Rosmari Rodríguez.

Recorda a cientista que essa descoberta foi muito controvertida, tanto pela semelhança da cepa cubana com aquelas antigas, do sudeste asiático, como pelos limitados dados de sequência disponíveis. Quem o impugnou atribuía o resultado a uma contaminação ocorrida no laboratório durante o processamento das amostras.

"A Nova Guiné C, de 1944, é a cepa protótipo de dengue 2, e existe em quase todas as instituições onde se trabalha na temática da dengue. Levando em conta que os sistemas de amplificação e sequenciação do genoma são muito sensíveis, eles alegaram que ocorreu a amplificação de um vírus não desejado, como consequência da inadequada manipulação dos isolamentos virais”, detalha a especialista.

"Ademais, como os vírus mudam – acumulam mudanças em seu genoma, ano após ano, durante o processo de replicação em humanos e mosquitos, com uma frequência conhecida –, estudiosos da evolução disseram que, se o vírus circulante em Cuba, em 1981, se parecia tanto com o isolado em 1944, ou seja, tinha muito poucas mutações, se tratava, então, de uma contaminação com a cepa de laboratório.

                                                                 
O pessoal médico cubano viveu dias muito tensos durante a epidemia de dengue hemorrágica de 1981, que se desatou, por sua vez, em todo o país. (Foto: ARQUIVO JUVENTUD REBELDE).

"Propuseram que, durante a circulação dessa cepa na natureza, por um período de quase 40 anos, devia se esperar que se acumulasse um número importante de mutações. Portanto, a de 1981 devia ter diferenças notáveis com respeito à de 1944”.

Para demonstrar que não se tratava de uma contaminação de laboratório, era preciso sequenciar o genoma completo de cepas virais, coletadas em diferentes momentos da epidemia. E isto foi o que fez Rosmari Rodríguez, que havia se preparado para a ocasião durante anos.


Descobertas inequívocas

Pouco depois da epidemia de dengue ocorrida em 1997, no Município de Santiago de Cuba, a jovem licenciada em Radioquímica liderou um estudo sobre a evolução do vírus durante essa epidemia.

Ela havia tinha chegado ao IPK cinco anos antes, recém-graduada e logo após um estágio no Centro de Engenharia Genética e Biotecnologia, onde realizou seu trabalho de diplomação sobre caracterização de proteínas. No entanto, muitas coisas da microbiologia eram, para mim, um mundo totalmente desconhecido”, confessa Rosmari.

Desde o seu começo no IPK, ela se vinculou aos estudos sobre dengue e cursou o mestrado em virologia. "Foi como iniciar uma nova carreira”, declara.

Armada desses conhecimentos, viajou para o Reino Unido, no início dos anos 2000, para trabalhar em um projeto de pesquisa relacionado com as causas da reemergência da dengue hemorrágica, em Cuba, em 1997. Lá, analisou vírus coletados durante a epidemia de Santiago de Cuba, com o objetivo de treina na amplificação e sequenciação de genomas virais completos.

                                                             
Capa do número da revista em que foi publicado o artigo acerca da pesquisa liderada pela professora Rosmari Rodríguez. (Foto: link.springer.com).

No fim de 2006 e início de 2007, ela participou de um projeto que pesquisou os quatro serotipos da dengue durante um período epidêmico na Venezuela. Como parte desse estudo, a cientista se aperfeiçoou no uso das tecnologias avançadas no campo da sequenciação durante sua estadia no Instituto do Genoma de Singapura. Depois, recebeu um treinamento para a análise de sequências com o emprego de ferramentas bioinformáticas de alta resolução, no Museu de História Natural de Londres.

Depois de concluir esse processo de aprendizagem, o seguinte passo foi a aquisição, por parte do IPK, em 2008, de uma tecnologia moderna de sequenciação automática. Era o momento justo para retomar aquelas cepas de 1981, conservadas durante mais de 30 anos em um frigorífico a -80 °C, e realizar todo o processo pela primeira vez, em Cuba.

"Conseguimos amplificar e sequenciar o genoma completo das cepas originais obtidas em diferentes momentos da epidemia de 1981. Depois, empregamos ferramentas bioinformáticas, que nos permitiram definir, com elevada certeza, a relação genética das cepas cubanas de 1981 com a Nova Guiné C. Ou seja, nosso estudo demonstrou que, efetivamente, eram muito similares”, expressa Rosmari.

"Agora – continua –, quando analisamos as sequências de cepas de distintos momentos da epidemia, notamos que, se bem todas eram similares à de Nova Guiné, de 1944, havia diferenças entre as cepas cubanas, ou seja, que o vírus havia sofrido mudanças durante o período epidêmico.

"Provavelmente, este é o fato mais transcendental da pesquisa do ponto de vista científico, já que, por um lado, rechaça a hipótese de contaminação de laboratório, pois se se tratasse deste todas as cepas analisadas, deveriam ter a mesma sequência. Um contaminante não muda, seria um vírus existente no laboratório, presente no meio ambiente ou nos reativos utilizados devido a más práticas de laboratório.

"Por outro lado, depois de constatar a grande semelhança das cepas cubanas de 1981 com a de referência antes mencionada, se demonstrou que, como as primeiras não tinham suficientes mutações em relação à segunda, não se tratava, efetivamente, de um vírus que estava circulando na natureza, mas de uma cepa de laboratório”, revela a professora. Era a confirmação do crime: a substância nociva havia sido plantada em Cuba.

Também sustentaram esta certeza outros elementos. Por exemplo, o fato de que a epidemia se desatou em três pontos do país ao mesmo tempo: oriente, centro e ocidente. "Isto não ocorre com muita frequência, e foi expressado em seu momento pelo professor Kourí”, afirma a doutora Rodríguez Roche.

"Os brotos epidêmicos de dengue são detectados usualmente a partir de um caso índice, em uma área determinada, ao redor do qual aparecem novos doentes. Logo começam a expandir-se para outros territórios com o movimento de pessoas infectadas, e se observa um aumento paulatino do número destas até alcançar picos epidêmicos. Este incremento depende, em grande medida, da densidade de mosquitos”, acrescenta.

O estudo, dirigido pela especialista, revelou, ademais, que Cuba não exportou a dengue hemorrágica para as Américas, como havia se especulado, pois as epidemias sucessivas na região foram causadas por cepas de dengue 2, de um genotipo muito diferente do que agrupa as cepas velhas do sudeste asiático.

Novas interrogações

Seguir passo a passo a evolução dos vírus da dengue nas epidemias cubanas resulta apaixonante, para a doutora Rosmari Rodríguez. Ela relata que, em 1981, chamou a atenção do professor Gustavo Kourí que, no transcurso da epidemia, quando o número de casos diminuía ostensivamente, a proporção de indivíduos graves e falecidos aumentava, ou seja, a severidade era maior no final. Essa observação epidemiológica foi reiterada na citada epidemia de Santiago de Cuba e, em 2001, em Havana.

Ao explicar as causas desse incremento da severidade no tempo, a entrevistada refere que poderia relacionar-se com as mudanças que sofre o vírus, durante a sua interação com o mosquito e o homem, ao longo da epidemia. Isto sugere – diz – que, ao final desta, poderia surgir uma cepa com maior potencial virulento, capaz de produzir dengue grave, o que depende estreitamente do contexto epidemiológico no qual circule.

Para esclarecer este último ponto, a professora assinala que, nas pesquisas sobre a epidemia de 1981, foi comprovado que mais de 98 por cento dos casos graves apresentavam anticorpos de uma infecção anterior, com dengue 1 (serotipo que circulou em Cuba, em 1977). Por isso as crianças que contraíram o vírus e tinham de um a três anos de idade não mostraram quadros clínicos graves, pois não haviam nascido quando ocorreu a epidemia do fim dos anos 1970.

"ter descoberto mudanças no vírus durante a epidemia nos permite formular novas hipóteses a respeito do papel deste no incremento da severidade da enfermidade no tempo. Tratam-se de estudos novos para os quais é preciso buscar um modelo no qual coloquemos o vírus com as mutações encontradas e, sem estas, em presença ou não de anticorpos para um serotipo diferente, e vejamos como pode influir cada mutação na replicação viral.

"A maior dificuldade é que não existe um modelo animal ideal, que reproduza a enfermidade que se observa no humano. São pesquisas complexas, mas nossos objetivos presentes e futuros estão focados nessa linha”, assegura a especialista.

Em novembro último, a propósito do prêmio que recebeu pelo impacto científico e político de sua pesquisa, a jovem agradeceu no portal da Infomed a Fidel, aos seus colegas e, sobretudo, aos professores Gustavo Kourí Flores e Pedro Más Lago, "que nos deixaram como maior legado a modéstia, a honestidade e uma dedicação sem limites à ciência”.

Ao evocar Pedro Más Lago, com quem teve a sorte de trabalhar muito de perto, recorda que ele conversava muito com os jovens sobre as suas aventuras científicas. "Ele postulou, a par do doutor Kourí, a hipótese de que a epidemia de 1981 era uma agressão biológica. Nunca conheci alguém mais humilde e simples, mas dotado de uma inteligência natural, que quiçá vinha dos campos de Guaracabuya, onde nasceu, além da serra do Escambray”.

Conhecido como o pai da Virologia em Cuba, Pedro Más Lago foi quem isolou a cepa de dengue 1, que circulou na epidemia cubana de 1977. Parte desse caudal em mãos hábeis, como as de Rosmari Rodríguez Roche, continua aportando respostas.

(Com a Adital)