sexta-feira, 1 de julho de 2016

Pela utopia de uma esquerda que dialogue com a sociedade

                                                                       
 Marcelo Castañeda (*)

 A “esquerda”, esse campo imaginário que deve ser dito no plural pela diversidade de seus elementos componentes, não cansa de brigar entre si, a ponto de ter desaprendido a dialogar com corações e mentes em prol das mudanças sociais que afetem a todos. Nesse movimento não consegue mais sequer se contrapor ao processo de direitização que toma conta do mundo em que vivemos.

A questão que coloco vai além de entender se é a divisão da(s) esquerda(s) que viabiliza o avanço da direita (ou do conservadorismo em suas vertentes governamentais e comportamentais que se tecem no terreno das sociedades contemporâneas). Obviamente, não é neste curto espaço e a partir do meu argumento que se resolverá o impasse. Aqui a pretensão é tão somente sinalizar um processo que me parece evidente: nós, da(s) esquerda(s), desaprendemos a dialogar com a sociedade. E por diálogo quero destacar a capacidade de ouvir o outro sem a pretensão de convencer a arrebanhar.

Quando falo da sociedade, esse ente abstrato, não me refiro ao adorador de Bolsonaro ou Le Pen, mas aquela pessoa que está no trem da Central do Brasil voltando para a Baixada depois de um dia de trabalho e vai se informar jantando, já bem cansado, com o Jornal Nacional, ou nem isso, pois o cansaço pode o levar para longe até mesmo das notícias.

Estou pintando um cenário dramático, pois me parece ser disso que precisamos tratar. No tempo pós-junho de 2013 que vivemos, enxergamos concretamente os limites que nos tolhem a capacidade de mobilizar as pessoas para se manifestarem por causas que lhes afetem. 

Nas redes sociais, pessoas próximas escrevem “vamos para a rua” como se fosse fácil empreender uma mobilização nos dias de hoje, que posso caracterizar como “precariedade da maioria”. Não se repete um fenômeno como junho de 2013, mas podemos imprimir novas dinâmicas de mobilização, como mostram os estudantes secundaristas com sucesso, mesmo sem tanta visibilidade para suas conquistas. Eles nos mostram que não precisa ser possível, basta fazer.

Esses novos personagens que entram em cena, para lembrar o saudoso Eder Sader dos anos 1980, vêm nos mostrar ser possível que as lutas se teçam para além da cacofonia esquizofrênica entre o apoio e a contestação ao golpe que tirou Dilma e o PT do governo federal. Esse golpe está em curso e, apesar do processo de resistência que se configura, não parece que terá como desfecho a volta de Dilma.

É preciso resistir ao que o governo de Temer com tucanos pode nos trazer como retrocessos, em especial na questão trabalhista, previdenciária ou mesmo com privatizações. Mas é necessário enxergar que o próprio PT foi nesta direção, agora intensificada com Temer.

E por que destaco o papel do PT na fragmentação e dispersão da(s) esquerda(s) no Brasil? Não se trata de qualquer fixação no partido, mas tão somente de deixar claro que o próprio partido assume que enfraqueceu a esquerda em resolução recente do Diretório Nacional (que analisei aqui: https://goo.gl/iLRdrb). No fundo, precisamos nos desprender do PT e do seu projeto de poder (Lula-2018, indo direto ao ponto) para nos concentrar em como dialogar múltiplas pautas com a sociedade de uma forma humilde e não crente-missionária ou proselitista. Eis o desafio.

As pessoas que não estão engajadas em lutas que não sejam referentes à própria sobrevivência não estão querendo ser convencidas do que é melhor para elas e isso pode servir de fio da meada para explicar porque a(s) esquerda(s) se tornam cada vez mais gueto, e por isso briga cada vez mais entre seus pares (ainda que estes possam ser bem desiguais e assimétricos). O drama é precisarmos de um tempo que não teremos para nos organizar para além dos sujeitos tradicionais (sindicatos, partidos) para dar conta do que temos pela frente.

Neste sentido, não vou concluir. Vou encerrar abrindo questões: como dar vazão a sujeitos políticos como os estudantes secundaristas, que no Rio de Janeiro eram tidos como despolitizados, em especial se olharmos para o fato de a maioria das ocupações se dar em colégios da periferia, do subúrbio e do interior? 

E o que dizer dos favelados cariocas que resistem bravamente e se organizam contra a violência policial, rejeitando cada vez mais as instituições que seriam canalizadoras dessa revolta, pois são vistas com desconfiança por colocarem seus fins acima das demandas concretas por que passam? 

Onde está a esquerda nessas lutas que, a meu ver, são aquilo que traz novo vigor e possibilidades de renovação e abertura a novas conexões, quando esta esquerda se mostra enredada em processos como plenárias e reuniões de cúpula?
  
(*) Marcelo Castañeda é sociólogo e pesquisador do Programa de Pós-Gradução da UERJ.

(Com o Correio da Cidadania)

https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=5538067426554059193#editor/target=post;postID=4304892770767401935

Um êxito o ato de repúdio aos ataques contra o povo Guarani Kaiowá

                                                                              
                                                                               
Foi realizado, no dia 29/06/2016, às 18:30, na PUC – BH/MG,  o Ato de repúdio aos ataques contra o povo Guarani Kaiowá.  O ato foi convocado pelas seguintes entidades: Luta Popular e Sindical (LPS), Liga Operária, Associação Brasileira de Advogados do Povo (ABRAPO), Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania, Liga dos Camponeses Pobres (LCP), Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Minas Gerais (FETAEMG), Sindicato dos Trabalhadores nas Empresas de Correios e Telégrafos e Similares do Estado de Minas Gerais (SINTECT/MG), Sindicato dos Trabalhadores da Construção de Belo Horizonte e região/MARRETA, Sindicatodos Empregados em Empresas de Processamento de Dados, Serviços de Informática e Similares do Estado de Minas Gerais (SINDADOS/MG), Sindicato dos Trabalhadores no Comércio Varejista e Atacadista de Contagem(SINTRACC), SINDBOR/MG, Movimento Estudantil Popular Revolucionário (MEPR), Movimento Feminino Popular(MFP), Movimento Mundo do Trabalho contra a Precarização, Comitê Mineiro de Apoio às Causas Indígenas e Aldeia Umuarama.

 O ato teve destaque com a presença dos indígenas Terena do Mato Grosso do Sul - Alberto Terena e Gilmar Veron. Este é também Guarani; seu avô, Marcos Veron foi assassinado em 2003 diante de sua família.  Este crime permanece impune até hoje.  Os companheiros Terena denunciaram a situação de barbárie que vigora em Mato Grosso do Sul:  50% dos assassinatos dos povos indígenas no Brasil acorreram naquele estado.  Destacaram que o genocídio institucionalizado constitui prática continuada levada a cabo pelo conluio do latifúndio/agronegócio, seus pistoleiros e o Estado brasileiro.  Dois dos maiores inimigos dos povos originários em Mato Grosso do Sul são o deputado estadual José Teixeira (DEM) e o fazendeiro assassino Jacinto Honório.

         Alberto Terena e Gilmar Veron relataram o brutal assassinato do agente de saúde indígena, o Guarani Kaiowá Clodiodi Aquiles Rodrigues de Souza, no dia 14/06/2016, mais um episódio do extermínio sistemático de lideranças indígenas por latifundiários e pistoleiros acobertados pelo Estado brasileiro. Este se apresentou no território dos Guarani Kaiowá através da Polícia Federal, da Força Nacional de Segurança Pública, das polícias civil e militar do Mato Grosso do Sul. 

 Os latifundiários e pistoleiros cercaram e metralharam um grupo de indígenas Guarani Kaiowá que estão mobilizados em defesa de suas terras.  Mais 6 indígenas foram atingidos, entre eles uma criança de 12 anos.  Trata-se do primeiro massacre do governo Temer (PMDB,PP, PSDB) que tem como Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento ninguém menos Blairo Maggi (PP), o dito rei da soja, ícone do latifúndio, do agronegócio e da bancada do boi no senado.

Os companheiros Terena denunciaram também a mídia burguesa que criminaliza os povos indígenas e  acoberta o racismo, a opressão e o genocídio praticados pelo Estado e o latifúndio.  Denunciaram a PEC 215, que transfere para o legislativo federal a demarcação de terras indígenas, quilombolas e zonas de proteção ambiental – leia-se, transfere para o latifúndio/agronegócio este poder.  Alberto Terena e Gilmar Veron reafirmaram a capacidade de luta e resistência dos povos indígenas para defender suas terras e sua cultura: “Direito conquistado não pode ser rasgado”.

Além dos Terena, participaram do ato indígenas das etnias Kambiwá, Guarani, Pataxó (Coroa Vermelha/BA) e Pataxó Hã-hã-hãe - inclusive parentes de Galdino Pataxó, queimado vivo em Brasília, em 1997.  Avelin Kambiwá, do Comitê Mineiro de Apoio às Causas Indígenas e da Aldeia Umuarama, fez amplo painel da situação da população indígena urbana em Belo Horizonte.  Esta tem sido submetida sistemática e cotidianamente ao racismo e à repressão da Polícia Militar, da Guarda Municipal, da Polícia Civil e do aparato institucional. 

Reiterou a denúncia do assassinato de Samuel Pataxó, assassinado em Betim/MG no ano de 2014, na ocasião da Copa do Mundo/FIFA. Destacou o papel das mulheres indígenas na luta – todas guerreiras. O Comitê Mineiro de Apoio às Causas Indígenas fez uma instalação no local do ato com a denúncia das chacinas e assassinatos institucionalizados sofridos pelos povos originários.


Célia Pataxó, da Aldeia Agricultura de Coroa Vermelha, Porto Seguro/BA é parente de Samuel Pataxó e teve também um tio, que era artesão, assassinado em Belo Horizonte.  Denunciou os obstáculos interpostos pelo Instituto de Medicina Legal (IML) de Belo Horizonte para que a família pudesse reaver os restos mortais do tio.  O IML se recusava até mesmo de reconhecer a identidade indígena da família e do parente morto. Denunciou a opressão sofrida pelos índios aldeados que, por questão de sobrevivência, são obrigados a vir temporariamente para a cidade para vender artesanato: são reprimidos no seu direito de ir, vir e permanecer; são impedidos de trabalhar; seu artesanato é confiscado e destruído; são impedidos de expor na feira de artesanato de Belo Horizonte; são maltratados pela prefeitura de Márcio Lacerda (PSB/PSDB).  Célia Pataxó denunciou a farsa eleitoral e a ineficácia e falsidade da demagogia eleitoreira. Ela e Avelin Kambiwá reafirmaram a união à luta e resistência dos parentes Terena e Guarani Kaiowá.

Junto com as companheiras e companheiros indígenas, compuseram a mesa coordenada por Felipe Nicolau (Abrapo): Pedro Paulo (Luta Popular e Sindical), Gerson Lima (Liga Operária) e Matheus (prof. da PUC/MG). Na sequência, houve várias intervenções dos participantes e dos organizadores: Nilo (LCP), Bizoca (Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania); João Martinho (Sind-UTE – Vespasiano/MG); profa. Cláudia (MOCLATE); Abram (LCP); Pronzato (cineasta); Marisa (professora da UFMG); membro da Unidade Vermelha; membro da Frente Revolucionária de Defesa dos Direitos do Povo; membro do MEPR e outros. 

Houve participação especial da escritora Rosana Bond, que fez bela explanação sobre a história dos Terena e a importância da luta dos povos indígenas para a América Latina e para a humanidade. Antes do encerramento do ato, foi exibido um vídeo realizado pelos Terena que denuncia o genocídio dos povos originários no Mato Grosso do Sul.

Todas as intervenções reiteraram a denúncia de que o Brasil é o país do genocídio sistêmico institucional contra indígenas, quilombolas e negros. Foi lembrado que, durante a ditadura militar (1964-1985), foram exterminados mais de 8 mil índios  e que seus nomes não constam nas listas de mortos e desaparecidos políticos. 

Foi feita a denúncia do papel da Polícia Militar de Minas Gerais neste processo: a ela pertenciam o Reformatório Krenak (Resplendor/MG) e a Fazenda Guarani (Carmésia/MG), que se tornaram verdadeiros campos de concentração étnicos durante o período. Foi destacada a necessidade da construção de um comitê permanente de defesa dos povos indígenas e quilombolas.  Destacou-se a importância da questão da terra no país, a qual unifica as lutas de indígenas, quilombolas, populações ribeirinhas e tradicionais e trabalhadores do campo/camponeses – estes também vítimas constantes assassinatos e massacres. 

Denunciou-se que o Estado e seus gerentes esvaziaram a luta pela reforma agrária e reafirmou-se a necessidade da retomada e da radicalização desta luta.    Reafirmou-se sobretudo o princípio da independência, da autonomia e da combatividades destas lutas. Tais lutas não se travam nas entranhas do Estado e da institucionalidade.  Elas devem ser travadas nas ruas, nas praças, nas aldeias, nas ocupações - sempre mantendo a perspectiva classista: uma forte aliança de indígenas, quilombolas, operários, trabalhadores da cidade e do campo

Os companheiros Terena do Mato Grosso do Sul fecharam o ato com um chamado à luta e cantaram a seguinte palavra de ordem:

-Diga ao povo que avance!  - eles puxaram.
E todas e todos respondemos: Avançaremos!

Belo Horizonte, 30 de junho de 2016

INSTITUTO HELENA GRECO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Carlos Lúcio Gontijo convida para o lançamento de "Tempo Impresso" segunda-feira às 19h


Uma violência contra os povos indígenas e quilombolas em articulação pelo agronegócio

Comemorado em Havana 95º Aniversário do Partido Comunista da China

                                                                         
                                                               Marcelino Vázquez (AIN)
Durante o ato pela celebração do 95º aniversário do PCCh, o embaixador do gigante asiático em Havana, Zhang Tuo, reconheceu que os sucessos de sua nação se correspondem, em grande parte, à guia e impulso desta organização. O Partido Comunista da China tem cerca de 90 milhões de filiados.

O Partido Comunista da China (PCCh) fez possível o sonho da fundação, desenvolvimento e grandeza de uma nação que é hoje a segunda potência mundial, expressou o embaixador do gigante asiático em Havana.

Durante o ato pela celebração do 95º aniversário do PCCh, realizado na capital o diplomata chinês reconheceu que os sucessos de sua nação se correspondem, em grande parte, à guia e impulso desta organização.

A atividade teve a presença do segundo secretário do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba (PCC) e vice-presidente dos Conselhos de Estado e de Ministro, José Ramón Machado Ventura, a membro do Bureau Político, vice-presidenta do Conselho de Estado e primeira secretária do Partido em Havana, Mercedes López Acea; bem como os membros do Secretariado do Comitê Central do PCC, o chefe do Departamento das Relações Internacionais José Ramón Balaguer Cabrera e Abelardo Álvarez Gil. Também assistiu o primeiro vice-ministro das Relações Exteriores, Marcelino Medina, e outros altos dirigentes.  

O representante de Pequim lembrou que sua organização se tornou no maior partido em nível mundial, com 88 milhões de membros, e detalhou os principais sucessos econômicos de seu país nos últimos anos.

Também comentou que ao longo destes 95 anos, o PCCh cumpriu e impulsionou, com o apoio do povo, a vitória da nova revolução democrática e a fundação de uma “Nova China”, bem como a política de reforma e abertura que fundou e desenvolveu o socialismo com peculiaridades chinesas.

Acerca dos projetos de seu país para o futuro revelou que para 2020, ano do centenário da fundação do PCCh se terá consumado a construção integral de uma sociedade modestamente confortável e para 2049, quando se completa um século do nascimento da Nova China, se terá materializado a construção de um país socialista moderno, e próspero.

Acrescentou que as chaves da estabilidade política da China consistem em que o Partido sempre se dedicou servir ao povo para conseguir seu bem-estar.  

Zhang Tuo reconheceu o papel indispensável que desempenha o PCCh e o PCC em tutelar e promover o desenvolvimento das relações chinês-cubanas e assegurou a disposição de compartilhar experiências com Cuba, nesta etapa crucial para seu desenvolvimento.

Por sua parte Mercedes López Acea assegurou que o percurso histórico do PCCh demonstra sua fortaleza e seu papel, capaz de enfrentar, recupera-se e dirigir a construção do socialismo com suas características próprias.

López Acea, disse que “os mais de 55 anos das relações entre nossos Partidos, Estados e Povos indicam que superamos a prova do tempo e achado vias para consolidar a amizade tradicional”.

Agradeceu a China pela solidariedade na luta contra o bloqueio imposto pelos Estados Unidos a nosso país e apreciou a cooperação do gigante asiático com o desenvolvimento econômico da Ilha.

Expôs que nas condições atuais o PCC continuará defendendo sua decisão de construir uma sociedade soberana, independente, socialista, democrática, prospera e sustentável tal e como se ratificou no 7º Congresso da organização.    

Finalmente asseverou que festejar o 95º aniversário da Fundação do Partido Comunista da China, constitui um triunfo das idéias socialistas.    

(Com o Granma)

Contra a privatização


Não vale a pena chorar pela União Europeia

                                                          

 Pepe Escobar (*)


Há uma receita de grande eficácia a que amiúde se recorria em Portugal nos anos negros do fascismo: «se não sabes onde te colocar olha para a posição dos fascistas: toma a posição contrária à deles e acertas».

Também hoje a Troika, a Comissão Europeia, o FMI, os jornais do dr. Balsemão, a RTP, a TVI… nos podem dizer que «as consequências geopolíticas do “Brexit” podem ser dramáticas». Mas a verdade é que para as encarar do ponto de vista da esquerda, do ponto de vista da classe trabalhadora, de todos os que não estão posicionados na estrutura de comando do capital, devemos lembrar-nos «que a UE nunca foi a “Europa dos Povos”».

Então, o que começou como chantagem feita por David Cameron e válvula de escape para o descontentamento dos britânicos, a ser usado como alavanca para barganhar com Bruxelas e arrancar mais alguns poucos favores, entrou em metástase e se converteu em espantoso terremoto político que tem tudo a ver com a desintegração da União Europeia.

O irrepreensivelmente medíocre Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, fazendo pose de “historiador”, alertou que o Brexit “pode ser o começo da destruição não só da União Europeia, mas da civilização política ocidental na totalidade.”

Bobagem. Está claro que a causa do Brexit é a imigração, estúpido. E mais uma vez é a economia, estúpido (embora o establishment britânico neoliberal jamais tenha dado atenção a isso). Mas pode-se apostar dinheiro sério em que o sistema da União Europeia em Bruxelas nada aprenderá dessa terapia de choque – e não se autorreformará. 

Haverá racionalizações de que afinal de contas o Reino Unido classicamente sempre reclamou demais, sempre se opunha a tudo e vivia a exigir privilégios extras nas negociações com a UE. Quanto à “civilização política ocidental”, o que acabará – e, sim, é grande evento – é o relacionamento transatlântico especial entre EUA e UE com a Grã-Bretanha lá enfiada como Cavalo de Troia dos norte-americanos. (…)

Como seria de prever, a Escócia votou “Fica” e pode fazer outro referendo – e separar-se do Reino Unido – antes de deixar-se expulsar pelos votos dos trabalhadores ingleses brancos. Na Irlanda, o Sinn Fein [herdeiro do Exército Republicano Irlandês-IRA] já quer plebiscito pela unidade do país [o que implicaria em separar a Irlanda do Norte do Reino Unido]. 

Dinamarca, Holanda e até Polônia e Hungria quererão status especial dentro da União Europeia, porque senão… Por toda a Europa, a direita movimenta-se como estouro da boiada. Marine Le Pen quer um referendo francês. Geert Wilders quer um referendo holandês. Quanto à vasta maioria dos britânicos com menos de 25 anos, que votaram “Fica”, talvez considerem viagem só de ida, não para o continente, mas ainda mais adiante.

Mostre-me o povo

O historiador anglo-francês Robert Tombs observou que, quando europeus falam sobre história, referem-se ao Império Romano, à Renascença e ao Século das Luzes. Passam pela Grã-Bretanha como se nem existisse, de certo modo. Em troca, há britânicos que ainda veem a Europa como entidade da qual se deve guardar distância segura.

Acrescente-se ao problema que não se trata de uma “Europa de povos”. Bruxelas absolutamente detesta a opinião pública europeia, e o sistema mostra resistência férrea a qualquer reforma. Nesse projeto atual de União Europeia, que visa afinal a ser uma federação modelada segundo os EUA, a Grã-Bretanha não se encaixa. Pode-se dizer que aí está uma das razões chaves por trás do Brexit – que por sua vez já desuniu o reino e pode eventualmente reduzi-lo a pequeno entreposto comercial na beirada da Europa.

Sem “povo europeu”, o sistema de Bruxelas só conseguiu articular-se como uma burocracia kafkiana, não eleita. Além do mais, os representantes dessa Europa sem povo em Bruxelas realmente defendem o que consideram que seja o interesse nacional deles, não o interesse ‘europeu’.

Mas Brexit não significa que a Grã-Bretanha ficará livre do que dite a Comissão Europeia (CE). A CE sim, propõe a política, mas nada pode seguir adiante sem decisões do Parlamento Europeu e do Conselho de Ministros, que reúnem representantes de todos os governos eleitos dos estados membros.

Pode-se argumentar que um “Fica”, no melhor dos casos, teria levado a algum exame de consciência em Bruxelas, e a um sinal de alerta, que talvez se traduzisse em política monetária mais flexível; em impulso para conter os imigrantes atrás das fronteiras africanas; e mais abertura em direção à Rússia. O Reino Unido permaneceria numa Europa que daria mais peso a países fora da eurozona, e a Alemanha concentrar-se-ia nas 19 nações membros da eurozona.

O “Fica” teria levado a Grã-Bretanha a aumentar o próprio peso político econômico em Bruxelas, e a Alemanha se abriria mais para algum crescimento moderado (em vez da ‘austeridade’). Mesmo que sempre se pudesse argumentar que a Grã-Bretanha rejeitaria a noção de um futuro ministro do Tesouro da eurozona, de um FBI europeu e de um ministro europeu do Interior – de fato, toda a noção de uma completa união monetária e econômica.

Já são águas passadas. Além do mais, não se pode esquecer o poderoso drama do mercado único.

A Grã-Bretanha não perderá apenas o livre acesso ao mercado único europeu de 500 milhões de pessoas; terá de renegociar todos e cada um dos tratados comerciais com o resto do mundo, uma vez que todos eles foram negociados pela/na União Europeia. O ministro da Economia da França e aspirante à presidência Emmanuel Macron já alertou que “se a Grã-Bretanha quer um tratado de acesso comercial ao mercado europeu, os britânicos têm de contribuir para o orçamento europeu, como fazem noruegueses e suíços.

Se London não concorda com isso, nesse caso tem de ser saída total.” A Grã-Bretanha ficará excluída do mercado único – para o qual vão mais de 50% de suas exportações –, a menos que pague quase tudo que paga atualmente. Além disso e sobretudo, Londres terá ainda assim de aceitar a liberdade de movimentos, tipo imigração europeia.

A City ganhou um olho roxo

Brexit derrotou conjunto espantoso do que Zygmunt Bauman definiu como as elites globais da modernidade líquida: a City de Londres, o FMI, Wall Street, o Fed, o Banco Central Europeu [ing. European Central Bank (ECB)], grandes fundos de hedge/investimentos, todo o sistema interconectado do banking global.

Mais de 75% da City de Londres, como era de prever, votou “Fica”. Espantosos US$2,7 trilhões são negociados todos os dias na “milha quadrada”, que emprega quase 400 mil pessoas. E não é só a milha quadrada, porque a City agora inclui também Canary Wharf (quartel-general de vários grandes bancos) e Mayfair (local privilegiado de convivência dos fundos hedge).

A City de Londres – indiscutível capital financeira da Europa – também administra espantoso $1,65 trilhão de fundos de clientes, riqueza, literalmente, de todos os cantos do planeta. Em Treasure Islands, Nicholas Shaxson diz que “empresas de serviços financeiros voaram em bandos para Londres, porque Londres as deixa fazer o que não podem fazer em casa.”

Desregulação sem limites combinada a influência sem igual sobre o sistema econômico global é mistura tóxica. Nessa direção, Brexit pode também ser interpretada como um voto contra a corrupção que invadiu a mais lucrativa indústria da Inglaterra.

As coisas mudarão. Dramaticamente. Não mais haverá “passporting” [“Passporting significa que um banco britânico pode prover serviços em toda a UE, a partir de sua sede na Grã-Bretanha. Importante, também significa que um banco suíço ou norte-americano pode fazer a mesma coisa de uma filial ou subsidiária estabelecida na Grã-Bretanha, pela qual os bancos podem vender produtos a todos os 28 membros da UE, com acesso, assim, a uma economia integrada de $19 trilhões” (de Dlapiper, NTs)]. Basta ter quartel-general em Londres e alguns miniescritórios satélites. Passporting entrará em fase de negociação feroz, assim como o que acontece nos pregões denominados em euro, de Londres.

Acompanhei o Brexit aqui de Hong Kong – a qual, há 19 anos, teve seu próprio Brexit, quando realmente deu bye bye ao Império Britânico para ligar-se à China. Pequim está preocupada, temendo que Brexit venha a se traduzir em fuga de capitais, “pressões de depreciação” sobre o yuan, e perturbações sobre a gestão da política monetária do Banco da China.

Brexit pode até afetar seriamente as relações China-UE, porque Pequim, em tese, pode vir a perder influência em Bruxelas, sem o apoio britânico. É crucial não esquecer que a Grã-Bretanha apoiou um pacto de investimento entre China e UE e um estudo conjunto da viabilidade de um acordo de livre comércio China-UE.

He Weiwen, codiretor do Centro de Estudos China-EUAUE, sob a Associação Chinesa de Comércio Internacional, parte do Ministério do Comércio, disse claramente: “A União Europeia provavelmente adotará abordagem mais protecionista nos negócios com a China. Quanto a empresas chinesas que instalaram quartéis-generais ou filiais na Grã-Bretanha, é possível que já não gozem de acesso sem tarifas ao marcado europeu em geral, depois que a Grã-Bretanha deixar a União Europeia.”

Isso se aplica, por exemplo, às grandes chinesas de alta tecnologia, como Huawei e Tencent. Entre 2000 e 2015, a Grã-Bretanha era principal destino de investimento chinês direto, e o segundo maior parceiro comercial da China dentro da UE.

Mas também pode acabar por reverter em ganha-ganha para a China. Alemanha, França e Luxemburgo – todos competindo com Londres pelos sumarentos negócios offshore em yuan – aumentarão seu papel. Chen Long, economista do Banco de Dongguan, está confiante de que “o continente europeu, especialmente países da Europa Central e Oriental, se envolverão mais ativamente nos programas chineses de “Um Cinturão, Uma Estrada” [também chamados “Novas Rotas da Seda” (NTs)].

A Grã-Bretanha, assim, viraria a nova Noruega? É possível. A Noruega deu-se muito bem depois de rejeitar a inclusão na União Europeia, em referendo de 1995. Será estrada longa e sinuosa, antes de o Artigo 50 ser invocado e lançar-se uma negociação de dois anos entre Reino Unido e União Europeia sobre território ainda não mapeado. Alistair Darling, ex-chanceler britânico do Exchequer, resumiu tudo: “Ninguém tem ideia do que signifique ‘Fora’.

(*) Jornalista, correspondente do Ásia Times

http://outraspalavras.net/capa/por-que-nao-vale-chorar-pela-uniao-europeia/

Do cessar-fogo na Colômbia à paz, desejada mas muito distante

                                                                  

Miguel Urbano Rodrigues

 A assinatura em Havana, no dia 23 de Junho, pelas FARC-EP e pelo governo de Juan Manuel Santos, dos Acordos de Cessar Fogo e de Hostilidades Bilateral e Definitivo, de Renúncia às Armas, e o de Garantias de Segurança e Combate ao Paramilitarismo foi recebida com entusiasmo pelo povo colombiano e com alívio e satisfação pela maioria da humanidade. 

Mas seria uma ingenuidade concluir que o fim do conflito armado trouxe à pátria de Marulanda a paz social e politica.

Os discursos pronunciados na capital cubana, a presença dos chefes de Estado e altas personalidades ali reunidos e a atmosfera da grande jornada tendem a gerar esperanças românticas. 

Além do comandante Timoleón Jimenez, chefe do Estado-Maior Central das FARC, e de Juan Manuel Santos, compareceram na solenidade o secretário-geral e o presidente do Conselho de Segurança da ONU e o da Assembleia Geral da organização, os presidentes de Cuba, do México, do Chile, da Venezuela, de El Salvador, da Republica Dominicana, representantes especiais dos governos dos EUA, da União Europeia, da Noruega, etc. 

Compartilho a alegria nascida do fim de uma guerra iniciada há mais de 60 anos em que pereceram centenas de milhares de colombianos, a esmagadora maioria civis, guerra que devastou o país e aprofundou abissais desigualdades sociais. 

Mas esse sentimento de júbilo não pode apagar uma preocupação profunda, inseparável da certeza de que os grandes problemas que levaram as FARC- EP a optar pela luta armada não constarão do Acordo Final a ser firmado na Colômbia. 

A EPOPEIA FARIANA 

AS FARC-EP são uma das organizações revolucionárias que mais marcaram emocionalmente a minha vida como comunista. 

Cimentei com alguns dos seus dirigentes amizades que perduram. 

Já admirava a guerrilha–partido de Marulanda, e sobre o seu combate tinha escrito muito quando conheci em Havana o comandante Rodrigo Granda então chamado Ricardo González. 

Entre nós surgiu imediata empatia que evoluiu para sólida amizade. Aprendi muito com ele. Passei a movimentar-me melhor na história da Colômbia; compreendi o significado terrível do paramilitarismo. 

Devo a Rodrigo Granda o convite das FARC-EP para passar algumas semanas no acampamento do comandante Raul Reyes no Caquetá e a oportunidade de acompanhar na região as negociações de paz com o governo de Pastraña. 

Assisti então em La Macarena, no dia 24 de junho de 2001, a um acontecimento inesquecível: o encontro para libertação unilateral de 242 soldados e polícias capturados em combate pelas FARC. 

Conheci nesse dia o comandante-chefe Marulanda (que me concedeu uma entrevista) e, entre outros os comandantes Jorge Briceño, Joaquin Gomez, Simon Trinidad, todos alvo de manifestações de apreço e admiração da parte dos embaixadores ocidentais ali presentes. 

Não se previa nesses dias que o presidente Pastraña, cedendo a pressões dos EUA, do exército e da oligarquia colombiana, em breve conduziria as negociações de Los Pozos a um impasse, prólogo da ocupação da Zona Desmilitarizada e do recomeço da guerra e de sucessivas ofensivas (derrotadas) no âmbito dos Planos Colômbia e Patriota. 

Escrevi e publiquei em diferentes países textos sobre a minha a experiência pessoal no acampamento das FARC-EP. Não é sem emoção que recordo o convívio com os homens e mulheres da guerrilha. Mantive aliás contacto permanente, via Internet, com o comandante Raul Reyes, até à trágica jornada em que foi assassinado, com dezenas de camaradas, durante o bombardeamento de Sucumbio, no Equador, concebido por Juan Manuel Santos, ao tempo ministro da Defesa de Álvaro Uribe Velez. Não esqueci que semanas antes Reyes me convidara a revisitá-lo, algures na amazónia colombiana. 

Reencontrei muitas vezes Rodrigo Granda. A última em Caracas, em 2004, nas vésperas da sua prisão por esbirros de Uribe, com a cumplicidade de polícias venezuelanos. A minha admiração por ele aumentara de ano para ano. 

Via nele um revolucionário exemplar pela vastidão da sua cultura marxista, pelo caráter, pela coerência, pela disponibilidade total para a luta. A convite do advogado fui aliás testemunha de defesa, através de um depoimento, no processo que contra ele instaurado quando preso, antes da sua libertação por influência do presidente Sarkozy da França. 

Foi com alegria que recebi a notícia do seu imediato regresso à luta e a sua inclusão na Delegação de Paz das FARC-EP em Havana. Quando responsável pelas Relações exteriores da guerrilha no exterior, era conhecido pelo seu talento diplomático como El Canciller de las FARC. 

Por que evoco hoje o amigo fraterno e o revolucionário exemplar? 

Precisamente porque nestas semanas em que se festeja a assinatura dos Acordos que puseram fim às hostilidades na Colômbia me pergunto, apreensivo, o que pensarão da chamada "reconciliação" Rodrigo e outros amigos como os comandantes Alberto e Juan António e qual seria a posição do comandante Demétrio, já falecido, um intelectual brilhante, a que chamavam «o ministro da educação sombra» das FARC? 

PREOCUPAÇÕES E TEMORES 

Quero registar com clareza que aprovei desde o início os Diálogos de Paz de Havana. Ao sentar-se à mesa para negociar, as FARC deram expressão concreta ao profundo desejo de paz da esmagadora maioria do povo colombiano. Foi essa aspiração, cada vez mais generalizada e intensa, que levou presidentes como Belisário Bettencourt e Pastraña Borrero a abrir negociações com as FARC com vista ao fim do conflito armado. 

O Estado Maior Central das FARC-EP teria negado o passado e a ideologia revolucionária da sua organização se não houvesse respondido favoravelmente a Juan Manuel Santos quando este, numa viragem inesperada, estabeleceu os contatos que conduziram em Oslo, na Noruega, a entendimentos preliminares que desembocaram nos Diálogos de Paz de Havana e na elaboração de uma Agenda ambiciosa. 

Acompanhei de longe o difícil processo de paz, e os esforços para o torpedear desde o começo pelo alto comando das Forças Armadas, pelos latifundiários que controlam a agricultura, pelos barões de narcotráfico, por uma parcela da grande indústria e pelo imperialismo estado-unidense apesar da ambiguidade da sua posição perante o conflito. 

As tremendas dificuldades a superar na negociação de interlocutores tão antagónicos como as FARC e o Governo de Santos ficaram transparentes na continuação da guerra, no financiamento do Plano Colômbia, na entrega de armas sofisticadas ao exército e à Força Aérea, na cumplicidade de influentes generais com destacados dirigentes paramilitares, no massacre frequente de camponeses pelo exército. 

Apesar das campanhas contra a paz, da repressão permanente ao abrigo da famigerada "Lei de Segurança Democrática", a Agenda aprovada avançou embora lentamente. As FARC conseguiram impor em Havana posições por elas defendidas na discussão de temas fulcrais como a questão da terra, a participação política, o debate sobre as minorias, as discriminadas, os milhões de deslocados, a degradação do ambiente, a reforma de uma justiça corrupta, as reparações às vítimas da guerra, a erradicação do tráfico de drogas, etc. No debate desses outros temas as FARC obtiveram do governo concessões que em muitos casos foram além do que se poderia esperar. 

Porquê então a profunda preocupação que me invadiu ao tomar conhecimento dos documentos assinados em Havana? 

Dediquei horas à sua leitura. 

A natureza do regime não é posta em causa. AS FARC-EP não podiam obviamente exigir o fim do capitalismo, objetivo do seu programa revolucionário. A relação de forças existente não permitia debater o tema. 

Mas não é essa inevitável omissão que me inquieta. 

O Acordo sobre o Cessar-fogo e o abandono das armas ( dejación em espanhol) estabelece que no prazo de 180 dias o armamento das FARC-EP será entregue a comissões fiscalizadoras indicadas pela ONU e pela CELAC. 

O dominicano Narciso Isa Conde, num artigo publicado no dia 24 de Junho na Republica Dominicana, afirma que essa decisão "equivale ao desarmamento total e unilateral do exército popular mais poderoso da Colômbia da nossa América em troca de garantias de segurança atribuídas por um sistema sumamente hostil" (…) 

Distancio-me muitas vezes de opiniões do autor, mas neste caso compartilho plenamente a apreensão que manifesta quanto ao desarmamento das FARC e à insuficiência de garantias sobre o compromisso oficial de eliminar o paramilitarismo. 

Marx advertiu que a Historia nunca se repete da mesma maneira. As circunstâncias na Colômbia são hoje muito diferentes das existentes em 1985. Mas é impossível esquecer o genocídio da União Patriótica. 

É alarmante que o comandante de uma região do Vale do Cauca, no próprio dia em que eram assinados os Acordos de Havana tenha afirmado, em entrevista a uma radio local, que a sua ideologia é a de Carlos Castanho. Cabe recordar que o fundador e primeiro chefe dos bandos paramilitares foi um assassino, responsável por monstruosos crimes contra a humanidade. 

Que eu tenha conhecimento, o governo de Santos não reagiu às inadmissíveis declarações desse oficial superior do Exército. 

Os Acordos preliminares de Havana são também omissos sobre a permanência de oito bases militares dos EUA no território colombiano e as relações especiais que o governo de Bogotá mantém com o estado neofascista de Israel, cuja polícia secreta, a MOSSAD, atua na Colômbia como em casa própria. 

As Farc tiveram de renunciar á reivindicação de uma Constituinte e de aceitar o referendo de que discordavam. 

Essas cedências foram não apenas compreensíveis como inevitáveis. Nos Diálogos de Havana as FARC-EP negociaram numa época de refluxo histórico. O imperialismo havia retomado a ofensiva na América Latina e atuava agressivamente no Medio Oriente, na Europa e na Asia Oriental. 

A delegação fariana enfrentou os representantes do Governo de Santos consciente de que a relação de forças lhe era muito desfavorável. Num curto espaço de tempo perdera dirigentes fundamentais. Raul Reyes fora assassinado no Equador, Jorge Briceño e Alfonso Cano tinham perecido em combate. Manuel Marulanda, o herói de perfil homérico, falecera no seu acampamento. 

As mais recentes técnicas electrónicas para localização das unidades guerrilheiras, mesmo nas densas florestas da região amazónica, criaram também problemas dificilmente superáveis aos estrategos das FARC-EP. 

A minha solidariedade permanente e irrestrita com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-Exército do Povo não me impede, porém, antes me impõe o dever de encarar com muita apreensão o futuro imediato. 

A linguagem de alguns parágrafos do Acordo de Cessar Fogo por elas assinado e a troca de mensagens com o alto comando do Exército não me parecem também compatíveis com a ideologia da organização revolucionária. 

Tenho dificuldade em imaginar que tipo de "reconciliação" – palavra agora muito utilizada – será possível, num contexto em que a classe dominante não esconde a sua fidelidade ao neoliberalismo ortodoxo e à íntima aliança com os Estados Unidos. 

Daí este desabafo de um comunista português que fez sua a luta heróica das FARC-EP. 

Vila Nova de Gaia, 29 de junho de 2016 

O original encontra-se em www.odiario.info/do-cessar-fogo-na-colombiaa-paz/ 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Ministra do STJ suspende série de processos abertos contra jornalistas

                                                       

A ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Rosa Weber(foto) suspendeu a tramitação de mais de 40 processos abertos por juízes do Paraná contra o jornal Gazeta do Povo e cinco de seus jornalistas, que, em fevereiro, publicaram reportagem sobre os supersalários recebidos pelos magistrados.

A liminar suspende também os efeitos de qualquer decisão que ordene o pagamento de indenizações a magistrados do Paraná, até que a matéria seja julgada pelo plenário do STF. Rosa Weber reconsiderou sua própria decisão anterior, tomada em 24 de maio, na qual havia negado o pedido de liminar protocolado pelos advogados da Gazeta do Povo, Alexandre Kruel Jobim e Marcelo Augusto Chaves.

“Concedo a medida acauteladora para o fim suspender os efeitos da decisão reclamada, bem como o trâmite das ações de indenizações propostas em decorrência da matéria jornalística e coluna opinativa apontadas pelos reclamantes, até o julgamento do mérito desta reclamação”, escreveu a ministra.

Reportagem

No dia 15 de fevereiro, o jornal a Gazeta do Povo publicou uma reportagem na qual revelava o recebimento, por juízes do Paraná, de remunerações que, após a soma de salário com benefícios e outras verbas, com frequência superavam os R$ 100 mil, bem acima do teto constitucional estipulado para o salário de servidores públicos. Os dados foram compilados a partir de informações públicas.

Por causa da publicação, juízes do Paraná abriram uma enxurrada de processos em juizados especiais cíveis espalhados por todo o estado, obrigando os cinco autores da reportagem a percorrerem mais de 9.000 km de carro para comparecer às audiências, o que, na prática, os impediu de continuar trabalhando.

Em um dos processos, os jornalistas foram condenados a pagar R$ 20 mil em indenização a um dos juízes. No total, foram pedidos mais de R$ 1,3 milhão em indenizações. O juízes alegam que a reportagem teve cunho difamatório, pois os provimentos recebidos dizem respeito a direitos adquiridos e estão de acordo com a lei.

Gazeta do Povo afirma que o objetivo da reportagem foi “expor e debater o sentido do teto constitucional”. Em sua reclamação ao STF, o jornal acusou os magistrados paranaenses de uma ação coordenada, cujo objetivo seria o de cercear a liberdade de expressão e constranger a publicação de futuras reportagens sobre o assunto.

Como prova, foi apresentada uma gravação em que o presidente da Associação de Magistrados do Estado do Paraná (Amapar) diz ter disponível uma “ação padrão” a ser utilizada pelos juízes que se sentiram ofendidos.

Em nota, a Amapar negou qualquer ação coordenada entre os juízes, acrescentando que os magistrados que se sentiram prejudicados possuem o direito constitucional de acionar a Justiça. Para a entidade, “a imprensa deve ser livre, mas, se abuso houver, ele deve ser reparado”. O texto diz que o jornal prestou um “desserviço” à sociedade e “extrapolou o direito à liberdade de expressão”.

Em meados de junho, a Associação Nacional de Jornais (ANJ) repudiou a postura dos magistrados, e disse, em nota, que a abertura de processos em diferentes locais do Paraná “tem o claro objetivo de intimidar, retaliar e constranger o livre exercício do jornalismo”.


ABI aplaude 

                                  "NOTA OFICIAL         

A Associação Brasileira de Imprensa aplaude e expressa profundo alivio com a liminar deferida pela Ministra Rosa Weber do Supremo Tribunal Federal que corrige grave injustiça imposta aos jornalistas da Gazeta do Povo ao longo dos últimos meses. O suplício a que foram submetidos os repórteres do Jornal, alvo de vendeta de reduzida parcela de membros do judiciário do Paraná, não poderia perdurar por mais tempo sob pena de se legitimar um processo inquisitório em pleno século XXI.

A ABI entende que a mordaça através da toga é inaceitável em um regime democrático. Como guardião da Constituição, a decisão do Supremo restabelece a liberdade de imprensa e o livre acesso à informação ofendidos pelos autores dos processos contra a Gazeta do Povo.

O verdadeiro objetivo das ações pulverizadas por diferentes comarcas do Estado não se destinava a reparação de danos morais, como tentaram fazer crer os supostos ofendidos, mas a intimidar e punir jornalistas no livre exercício da profissão.

A sociedade brasileira não tolera e jamais pactuará com qualquer arranjo corporativista que ameace as garantias fundamentais asseguradas pelo Estado de Direito. A ABI espera que esse lamentável episódio estimule reflexões e ajustes urgentes no âmbito do Legislativo para que sejam preservados, de forma definitiva, o exercício profissional e o livre acesso a informação, mandamentos inerentes a uma Nação que se considera Democrática.

Domingos Meirelles

Presidente da ABI"

quarta-feira, 29 de junho de 2016

A manutenção hegemônica e a atividade de inteligência

                                                                  
Alex Agra

A interferência dos Estados Unidos em outras nações, seja favorecendo a instabilidade democrática, ocupando militarmente outros países, ou financiando ditaduras é hoje reconhecida internacionalmente. Seja através do Poder Duro, ou seja, através dos instrumentos coercitivos de que dispõe o Estado americano, relativos ao seu poderio militar e econômico, seja através do Poder Suave, que são os instrumentos de atração e persuasão à disposição. 

Para ilustrar o Poder Duro, podemos utilizar como exemplo a ocupação americana no Iraque e para ilustrar o Poder Suave, podemos utilizar como exemplo o financiamento dos EUA através da Agência Central de Inteligência (CIA) de organizações como o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) ou o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) no período da ditadura empresarial militar no Brasil.

A atuação direta ou indireta dos Estados Unidos nos países passa necessariamente pela atividade de inteligência, seja através da CIA ou da NSA (Agência de Segurança Nacional), sendo o trabalho da primeira extremamente importante para a manutenção da hegemonia burguesa no período da Guerra Fria, sobretudo nos países latino-americanos, a exemplo da interferência da CIA no Chile, com aprovação inclusive do Comitê dos 40, órgão responsável na época por fiscalizar as ações secretas no exterior.

Visto isso, para compreender um pouco mais desse cenário é necessário compreender onde estão fundadas as origens da política diplomática estadunidense e como elas se relacionam com a atividade de inteligência.

O Destino Manifesto é uma filosofia que expressa a crença de que o povo dos Estados Unidos foi eleito por Deus para comandar o mundo, “o destino dos EUA é conquistar”. Esse pensamento vem do período correspondente à marcha para o Oeste, que culminou na morte de centenas de povos indígenas. A marcha para o Oeste era lida como um resultado da missão civilizatória e territorial americana, ou seja, a expansão geográfica e política era uma expressão dessa vontade divina de conquista.

Em 1823, através do presidente James Monroe, foi criada a Doutrina Monroe, com o slogan “América para os americanos”, já denunciando do que se trata a doutrina, que consistia em três pontos: impedir a criação de novas colônias na América, impedir a intervenção nos assuntos internos dos países americanos e impedir estrategicamente o envolvimento dos EUA em conflitos relacionados aos países europeus.

Mais tarde, em 1900, é feita uma releitura da Doutrina Monroe chamada Corolário Roosevelt, criada pelo então presidente Theodore Roosevelt para justificar a expansão estadunidense pela América Latina. Dessa releitura, veio uma política diplomática conhecida como “Diplomacia do Dólar”, uma política de garantia de empréstimos e endividamento dos países latino-americanos. 

Ela começa em Cuba com a Emenda Platt, no Panamá com a construção do Canal, e na Nicarágua com a Revolta de 1909. Acompanhando ela, existia a política do Big Stick (Grande Porrete), derivada de um provérbio africano que dizia “fale com suavidade e tenha à mão um grande porrete", que resultou na expansão da marinha americana, e era fundamentada na “obrigação” dos países a se submeterem à Diplomacia do Dólar, caso contrário, estariam sujeitos à ocupação.

Em 1933, é criada a Política de Boa Vizinhança, uma política diplomática criada por Franklin D. Roosevelt para tentar reestabelecer a boa relação com os países latino-americanos após o desgaste gerado pela política intervencionista do Big Stick. Oficialmente, a política se tratava de investimentos e venda de tecnologia dos EUA aos países da América Latina, em troca de apoio à política externa estadunidense, e ligado a esses investimentos estava um movimento de aproximação cultural que visava a influência hegemônica dos EUA.

Em 1940 é criada a agência Office of the Coordinator of Inter-American Affairs (OCIAA), presidida por Nelson Rockfeller e vinculada diretamente ao Conselho Nacional de Defesa dos Estados Unidos. O objetivo dessa organização era criar um aparato hegemônico no ambiente cultural, sobretudo, no espaço cinematográfico, voltado para a manutenção e difusão de elementos ideológicos ao longo dos países da América Latina. 

Esse aparato visava, através de uma aproximação cultural dos EUA com os países latino-americanos, criar um aparelhamento ideológico para legitimar a Política de Boa Vizinhança. Nessa época, por exemplo, são criados personagens como o Zé Carioca, pertencente aos Estúdios Disney, e o filme Saludos Amigos, que apresentou o Pato Donald, e que enfatizava a Política de Boa Vizinhança.

A atividade de inteligência passa a ter função central no período da Guerra Fria. Com o crescimento da União Soviética e o avanço das forças comunistas na Segunda Guerra, responsáveis quase que inteiramente pela queda do Terceiro Reich e com Cuba mostrando ao mundo o potencial revolucionário das massas, os Estados Unidos veem uma ameaça crescente ao seu poderio hegemônico, tanto no campo econômico, quanto no campo bélico. Um exemplo dessa visão são as corridas armamentista e espacial, que constituíram uma série de esforços de ambos os países para se mostrarem mais avançados tecnologicamente.

Tendo em vista essa grande ameaça, os Estados Unidos temem então que “uma nova Cuba” seja instaurada em territórios vizinhos. Começa então uma forte articulação da CIA para voltar-se ao financiamento de golpes de Estado, ditaduras e movimentos antirrevolucionários em toda a América Latina, reforçando e insuflando em todos os espaços possíveis o pensamento anticomunista.

A CIA atuava tanto com o trabalho de espionagem, ou seja, coleta de informações estratégicas de interesse do Estado estadunidense, quanto com as ações encobertas, as chamadas intervenções diretas.

Na mídia, por exemplo, podemos lembrar que em 14 de agosto de 1965, em um telegrama ao Departamento de Estado norte-americano, o embaixador Lincoln Gordon relatou um diálogo do dono da Globo com cérebros do golpe em decisões sobre sucessão e endurecimento da ditadura empresarial-militar. 

No telegrama do embaixador, é dito que Marinho estava “trabalhando silenciosamente” pela prorrogação ou renovação do mandato do ditador Castelo Branco, junto a um grupo composto por diversos nomes importantes do regime, como general Ernesto Geisel, chefe da Casa Militar, Luis Vianna, chefe da Casa Civil, e o general Golbery do Couto e Silva, chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI).

Nesse sentido, toda a atividade de inteligência no Brasil era voltada para a perseguição e captura de revolucionários comunistas ou potenciais militantes de esquerda. Organismos como o SNI ou o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) eram voltados exclusivamente para a contenção da “ameaça interna”, ou seja, a coleta e análise de informações estratégicas no intuito de capturar os dissidentes do regime, a exemplo do trabalho executado pela equipe de Sérgio Paranhos Fleury, que culminou na captura e morte do revolucionário Carlos Marighella, do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Na atualidade, o Brasil ainda está muito vulnerável em relação ao aparato das agências de inteligência estadunidenses. É muito comum o Departamento de Defesa dos Estados Unidos financiar a criação de softwares e mesmo um software livre ou auditável pode ter uma porta de entrada que permita a agências como a NSA ou CIA coletar informações.

A própria internet é um projeto de Estado que veio a partir da disputa tecnológica na Guerra Fria, como o governo dos EUA como um grande financiador da iniciativa privada nesse sentido. Ao que é divulgado na mídia, sobretudo pelo New York Times, o aparato tecnológico dos EUA do ponto de vista cibernético é tamanho que o governo estadunidense em parceria com Israel conseguiu, através de um vírus chamado Stuxnet, atrasar o programa nuclear iraniano.

O TCP/IP, principal protocolo de envio e recebimento de dados MS internet, foi primeiro disponibilizado pelo Departamento de Defesa estadunidense. Dos treze servidores raiz da internet, 10 são localizados nos Estados Unidos.

As próprias empresas de telefonia do Brasil são empresas transnacionais, não tendo o país um satélite próprio voltado para a comunicação, seja do governo ou de caráter militar. O Estado brasileiro hoje não tem uma doutrina de inteligência ou uma agenda informacional e a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) é inclusive proibida por lei de fazer interceptação telefônica. Ademais, grande parte das lideranças da ABIN hoje são delegados de Polícia Federal, que inclusive protagonizaram o caso dos grampos ilegais que beneficiou o banqueiro Daniel Dantas e foi investigado posteriormente na chamada CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) dos Grampos.

Entender esse panorama é essencial para compreender o cenário em que se dá a luta dos movimentos sociais atualmente. A preocupação dos movimentos sociais (especificamente dos comunistas) com a atividade de inteligência e consequentemente, de contrainteligência, não é necessariamente uma preocupação atual.

Um comandante militar soviético responsável por chefiar o Exército Vermelho, Mikhail Tukhachevsky, já havia mostrado essa preocupação ao escrever o artigo “Serviço de Informação e de Reconhecimento nas Lutas de Rua”. Nele, o revolucionário russo escreve uma série de medidas a serem adotadas pelos militantes antes e durante o período revolucionário, dando destaque aos serviços de informação e a importância do elemento informacional como uma arma estratégica da luta revolucionária. 

Segundo Tukhachesky, “Sem um cuidadoso serviço de informação sobre os objetos colocados em questão, as ações vitoriosas de luta das unidades revolucionárias dos sublevados são inconcebíveis, durante a condução dos primeiros golpes, no início da insurreição proletária socialista.”

A obra das agências de inteligências no sentido de fortalecimento de uma hegemonia tem repercussões muito claras, sobretudo em termos de superação da consciência de classe. O trabalho de conscientização da classe trabalhadora tem sido cada vez mais complicado e é necessária uma análise não só do ponto de vista histórico, mas também do ponto de vista do comportamento geopolítico mundial, com um olhar atento para a principal representação da potência capitalista, os Estados Unidos.

Mesmo a política interna estadunidense pode ser reveladora para entender alguns obstáculos da luta revolucionária, e para termos um bom exemplo disso basta analisar atentamente a declaração de John Ehrlichman, assessor político do governo de Richard Nixon para a CNN: “Nós não poderíamos tornar ilegal ser anti-guerra ou ser negro, mas fazendo o público associar hippies com maconha e negros com heroína, e depois criminalizando as duas drogas severamente, nós poderíamos destruir essas comunidades.

Assim poderíamos prender seus líderes, invadir suas casas, suas reuniões e difamá-los diariamente nos noticiários. Se nós sabíamos que estávamos mentindo sobre as drogas? Claro que sim”. Através da análise dessa declaração, podemos refletir por exemplo qual é o verdadeiro papel da Drug Enforcement Administration (DEA) e demais agências voltadas para a repressão de entorpecentes dos Estados Unidos que também realizam essa atividade externamente, semelhante ao que fez o DEA na Colômbia.

Considerando o papel dos Estados Unidos na manutenção hegemônica, analisar declarações como essa, mesmo que voltadas inicialmente para uma política interna, são essenciais para compreender os obstáculos dos comunistas em todo o mundo, sobretudo porque, parafraseando o próprio Marx: “as ideias dominantes na época nunca passaram das ideias da classe dominante”.

(Com o Diário Liberdade)

Tribunal dos EUA condena ex-militar chileno pelo assassinato do cantor Víctor Jara em 1973

                                                                     Cristian Borquez / Flickr CC 

Veredito abre caminho para extradição de Pedro Pablo Barrientos Nuñez ao Chile; viúva e filhas do artista devem receber indenização de US$ 28 milhões
      
A Corte Federal de Orlando, na Flórida (EUA), condenou ] segunda-feira (27/06) o ex-oficial do Exército chileno Pedro Pablo Barrientos Nuñez pela tortura e execução do cantor Víctor Jara em 1973, durante a ditadura militar no país sul-americano.

Segundo a decisão, a viúva e a filha de Jara deverão receber uma indenização de US$ 28 milhões, cerca de R$ 92 milhões.

O veredito contra Nuñez, de 67 anos, foi divulgado após um julgamento que durou duas semanas.
A decisão abre caminho para a extradição do ex-militar ao Chile, onde ele enfrenta acusações de assassinato relacionadas à sua atuação no regime ditatorial (1973-1990) imposto por Augusto Pinochet.

De acordo com a acusação, Nuñez assassinou Jara a tiros em 16 de setembro de 1973 no Estádio Chile, em Santiago, que serviu como um centro de detenção em massa e de tortura no início do regime de Pinochet.

Nuñez fugiu do Chile em 1989 para os Estados Unidos, onde conseguiu a cidadania após se casar com uma mulher norte-americana. 

Em 2012, uma ordem de captura internacional foi emitida para o ex-oficial e outros oito militares acusados pela morte de Jara. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos, porém, não respondeu a um pedido chileno sobre a extradição de Nuñez ao país.

Segundo Kathy Roberts, diretora legal do CJA (Centro de Justiça de Responsabilidade), uma organização baseada na Califórnia e que representa a família de Jara, a condenação de Nuñez é um "passo no caminho à justiça".

“[A decisão] é um passo no caminho à justiça para nossos clientes e para Víctor, e também para muitas outras famílias que perderam alguém no Estádio Chile tantos anos atrás”, disse.

“Apresentamos evidências que começaram a jogar luz no que aconteceu lá [no estádio], e esperamos que o processo continue no Chile e esperamos que os Estados Unidos extraditem Nuñez para enfrentar a justiça no país onde ele cometeu aqueles crimes”, disse a representante do CJA.

De acordo com a viúva de Jara, Joan Jara Turner, a condenação “é o começo de justiça para todas aquelas pessoas, aqueles familiares no Chile que estão esperando para saber o destino dos seus amados, que estão esperando por anos e anos, como nós, buscando justiça [e] conhecimento”.

"Ele fugiu. Ele tem se escondido por tanto tempo, é hora de ele enfrentar aquilo [crimes] no Chile", disse a filha do cantor, Amanda Turner Jara.

Nuñez não fez nenhum comentário após o julgamento. Segundo seu advogado, Luis Calderon, o veredito deixou seu cliente “desapontado”.

“Vamos explorar todas as opções a respeito de apelação”, disse o advogado, que alegou ao júri que Nuñez vive uma situação financeira precária.

Além de cantor, Víctor Jara era diretor de teatro e professor na UTE (Universidade Técnica do Estado), a atual Universidade de Santiago. Ele tinha 40 anos quando foi preso em 12 de setembro, um dia após o golpe que destituiu o então presidente Salvador Allende.

Ele foi torturado e morto nas dependências do Estádio Chile. Seu corpo foi encontrado nos arredores do estádio, mutilado e com 44 tiros.

Centenas de alunos, trabalhadores e professores da UTE foram presos no estádio, que em 2003 foi renomeado Estádio Víctor Jara em homenagem ao artista. Estima-se que três mil pessoas morreram e pelo menos 28 mil foram torturadas durante os 17 anos de ditadura chilena.

*Com informações de Agência Efe.

(Com Opera Mundi)

Fora Temer: resistir aos ataques do capital e construir a greve geral

                                                                                                         

                             (Nota Política do PCB)

O Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro (PCB) avalia que o Brasil vive uma conjuntura complexa, difícil e volátil, em função da crise econômica, social e política, agravada pela crise sistêmica mundial do capitalismo e seus impactos no Brasil, o processo de impeachment da presidente Dilma e a posse de um governo ilegítimo, corrupto e antipopular.

A gravidade dessa crise pode ser observada nas seguintes variáveis: o País teve, nos últimos cinco anos, os menores índices de crescimento do último meio século; o desemprego já atinge cerca de 12 milhões de trabalhadores e a crise política revelou a podridão das instituições brasileiras, que se expressa na corrupção generalizada e na crise de representatividade. Aliam-se a estes fatos a ofensiva contra salários, direitos e garantias dos trabalhadores, a aceleração de processos de privatizações e de entrega do patrimônio público à iniciativa privada.

O governo ilegítimo que assumiu o poder pode ser caracterizado por um punhado de representantes da oligarquia rentista  que estão nos ministérios econômicos e sociais com o objetivo de se apossar dos fundos públicos e transferi-los para setor financeiro e oligopólios nacionais e internacionais, por conta da dívida interna; e um conglomerado de oligarcas corruptos das várias regiões do País, cuja meta é manter o poder das oligarquias regionais e alimentar a corrupção nos vários segmentos da administração pública.

Cada vez fica mais claro, conforme se pode observar nos áudios revelados publicamente, que as manobras para destituir a presidente Dilma na verdade também encobriam um esquema de políticos ligados a Temer para barrar as investigações da Operação Lava a Jato e salvar todos os corruptos, ressaltando-se que o próprio presidente interino está envolvido nesses esquemas.

A crise também demonstrou pedagogicamente o fracasso da política de conciliação de classe que o Partido dos Trabalhadores desenvolveu ao longo dos 13 anos de governo. Por mais que esse governo tenha realizado essencialmente a política do capital; por mais que tenha posto no governo os representes dos banqueiros, dos industriais, do agronegócio e da velha oligarquia política; por mais que tenha incorporado à sua prática o modus operandi da velha política; por mais que tenha aberto mão da regulação da mídia e das reformas populares; por mais que tenha cooptado, apassivado e desarmado os trabalhadores para a luta política, a classe dominante descartou o PT quando este passou a não servir mais aos seus interesses, provando mais uma vez que as ilusões da conciliação de classe só levam à derrota.

Estamos agora diante de um governo que, apesar de frágil e desmoralizado, é muito perigoso porque será capaz de levar a efeito qualquer tipo de medida antipopular para agradar o mercado e o imperialismo e se manter no Poder, garantido por uma maioria parlamentar conservadora e pela mídia hegemônica. 

Portanto, diante de nós está a ameaça concreta de se acelerarem e aprofundarem a reforma trabalhista, a reforma da previdência, as privatizações, os cortes nos gastos da saúde, educação e verbas sociais e o ataque contra os direitos e garantias dos trabalhadores e pensionistas, ou seja, a pauta do capital que já vinha sendo implantada gradualmente pelos governos petistas. 

Ressalte-se ainda que um governo desse tipo não vacilará em utilizar todo o aparato legal e repressivo contra os trabalhadores e os movimentos sociais, sem precisar mudar a legislação, já que herdou do governo Dilma a famigerada lei antiterrorismo.

No entanto, como se trata de um governo frágil (três ministros caíram em um mês e outros estão na fila), se os números da economia continuarem negativos e as investigações da Operação Lava Jato e novas delações premiadas tornarem inviável esse governo, a burguesia já tem seu Plano B, que é a realização de eleições presidenciais. Para os comunistas, as eleições presidenciais, realizadas numa correlação de forças favorável à burguesia, só iriam legitimar um novo governo do capital e tentar virar a página de todas as tramas e manipulações do processo de impeachment.

Portanto, é uma ilusão defender eleições nessa conjuntura tão desfavorável, como certos setores da esquerda e do PT vem defendendo. O centro da luta dos trabalhadores deve ser contra o ajuste fiscal e o pagamento dos juros e amortizações da dívida interna, contra os ataques do capital aos direitos dos trabalhadores e pensionistas, por terra, trabalho e moradia e em defesa do patrimônio público e pelo poder popular. Essa é a luta que vai sensibilizar os trabalhadores porque está ligada à sua vida cotidiana e que poderá colocar o movimento sindical e popular em movimento

Diante dessa conjuntura complexa e difícil, os comunistas entendem que a luta de classes mudou de patamar no Brasil e tornou mais aberta a luta contra o capital, exigindo respostas mais avançadas de toda a esquerda revolucionária. A luta pela derrota do governo Temer deve ir além da via institucional, deve evitar o atrelamento dessa luta à estratégia ilusionista do lulismo, que busca desviar a luta dos trabalhadores para objetivos eleitorais em 2018.

Nesse momento, nossa tarefa é a construção de um poderoso Bloco de Lutas que seja capaz de aglutinar a unidade de ação de todas as forças que estejam contra a ordem do capital. Um passo importante nesse sentido é a realização de um Encontro Nacional da Classe Trabalhadora e dos Movimentos Populares, que possa construir um programa mínimo capaz de mobilizar os trabalhadores e a juventude nos seus locais de trabalho, moradia e estudo e conduzir um processo que leve à greve geral e aponte as saídas para a crise no interesse dos trabalhadores.

Ousar Lutar, ousar vencer!

Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro (PCB)

terça-feira, 28 de junho de 2016

Ato de repúdio aos ataques contra o povo Guarani Kaiowá

                                                                                 
Basta do genocídio dos povos indígenas!

Quarta feira - 29 de Junho – 18:30h
Local: IEC-PUC MG – Rua Cláudio Manoel, N.º 1205, Funcionários
(próximo à Praça da Liberdade)

Com a presença de companheiros indígenas Terenas do Mato Grosso do Sul

 O brutal e covarde ataque de latifundiários e pistoleiros acobertados pelo Estado brasileiro, que no último dia 14 de junho assassinaram o agente de saúde indígena Guarani Kaiowá Clodiodi Aquileu Rodrigues de Souza de 23 anos, e levaram ao hospital seis indígenas atingidos por arma de fogo, inclusive uma criança de 12 anos, cobra uma resposta contundente de todos os democratas e movimentos populares brasileiros.

É mais um capítulo do histórico, secular e continuado genocídio dos povos indígenas. E uma vez mais o monopólio da imprensa, com a Rede Globo à frente, tenta subtrair da nação o conhecimento e o verdadeiro significado deste ataque, noticiando pouquíssimas vezes este grave acontecimento. E mesmo nesta ínfima “cobertura” jornalística, os indígenas foram tratados como “invasores” de terras de “fazendeiros”, e o ataque levado a cabo por pistoleiros, empresas de segurança privada e latifundiários foi divulgado como um conflito entre dois lados, dando a entender que os indígenas e latifundiários se enfrentaram e que os indígenas “levaram a pior”. E mais ainda, o tratamento dado à questão indígena é o de um problema localizado, como se não fosse parte da luta do povo brasileiro contra os exploradores e saqueadores da nação.

Os indígenas foram atacados em seu legítimo território. Os “invasores” são os latifundiários.

Não foi um “conflito”, os indígenas foram atacados logo após o Estado brasileiro - através da Polícia Federal, Força Nacional de Segurança, polícias civil e militar do Mato Grosso do Sul - comparecer em seu território. 

Ou seja, o Estado brasileiro apresentou suas armas aos indígenas, e se retirou e se omitiu diante das milícias dos latifundiários. Os indígenas não são fracos como quer deixar transparecer o monopólio da imprensa, pelo contrário, cada vez mais resistem e lutam por seu território e por seu legítimo direito de autodeterminação.

E a luta dos indígenas, assim como a luta dos camponeses pela terra e a luta dos remanescentes de quilombolas por seus territórios e suas tradições, enfrenta uma sanguinária repressão do Estado brasileiro, que têm na exportação de minério, petróleo, soja, gado e cana, a medula deste modelo econômico falido, que espalha a miséria, a fome e o desemprego por todos os lares brasileiros. Só em 2015 ocorreram 1.217 conflitos no campo, mais do que 3 conflitos por dia; mais de 50 camponeses, indígenas e quilombolas foram assassinados.

Por tudo isso e muito mais, o ataque contra os Guaranis Kaiowás no Mato Grosso do Sul é um ataque contra todo o povo brasileiro. Pelo que conclamamos a participação de movimentos, sindicatos e entidades neste ato do próximo dia 29 de junho. Com a presença dos companheiros Terenas, que junto com os Guaranis Kaiowás e outras etnias resistem e lutam por seus territórios no Mato Grosso do Sul, certamente teremos muitas informações da verdadeira situação do que ocorre naquela região, talvez a mais conflagrada na questão indígena do país na atualidade. E poderemos somar forças poderosas contra o bárbaro genocídio dos povos indígenas brasileiros.

Luta Popular e Sindical (LPS) - Liga Operária - Associação Brasileira dos Advogados do Povo(Abrapo) - Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania – Liga dos Camponeses Pobres (LCP) – FETAEMG – SINTECT-MG STICBH-MARRETA – SINDADOS – SINTRACC – SINTBOR-MG – MEPR – MFP - Mundo do Trabalho Contra a Precarização - Comitê Mineiro de Apoio às Causas Indígenas - Aldeia Umuarama.

http://institutohelenagreco.blogspot.com.br/2016/06/ato-de-repudio-aos-ataques-contra-o.html

"Tecnologia, rapidez e precarização compõem cenário do mercado de trabalho atual" (Matéria especial do "Brasil de Fato")

                                                         

Mudanças nas relações de trabalho ocorrem de maneira acelerada desde o final dos anos 60

Juliana Gonçalves

Cada vez mais se exige agilidade e comprometimento dos trabalhadores. Inadequação e erro ficam mais visíveis com a tecnologia - Créditos: José Eduardo Bernardes/ Brasil de Fato

Em constante mudança, as principais transformações no mundo do trabalho ocorrem de forma acelerada desde a década de 1960. Aumento do número de mulheres empregadas, diminuição dos trabalhadores na indústria, crescimento da informalidade, informatização e dificuldades de inserção dos que buscam o primeiro emprego são exemplos, listados por pesquisadores, do que se alterou nesse cenário.

Nesta série especial, publicada a partir desta segunda-feira (27), o Brasil de Fato discute – em “quatro atos” – diferentes abordagens para pensar o mundo do trabalho na atualidade. Transformações, tecnologia, juventude e saúde foram os temas escolhidos para este conjunto de reportagens.

Com o aumento do desemprego, o nível de cobrança para quem está empregado se intensifica. “Hoje, a exigência ao trabalhador é feita com base na produção, o que gera muita sobrecarga”, avalia a professora Elaine Rabelo Neiva, do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho da Universidade de Brasília (UnB).

Nesse contexto, Elaine considera que a informatização e a entrada da tecnologia em todas as áreas trouxeram ganhos reais, como flexibilização dos horários, oportunidade de trabalho remoto (como o home office – trabalho em casa), entre outros, mas também precarizaram a qualidade de vida do trabalhador.

“No final do século passado, as pessoas acreditavam que, hoje, teríamos mais momentos de lazer e menos horas trabalhadas, o que não aconteceu. Trabalham-se cada vez mais horas, não as computadas pelo relógio, mas fora do ambiente de trabalho, levando tarefas para casa, ficando depois do expediente para finalizar projetos. A tecnologia é primordial nisso ao permitir que o trabalho invada a vida das pessoas”, comenta ao citar os grupos do WhatsApp das empresas que permitem que, a qualquer hora e local, o trabalhador esteja “disponível”.

A precarização também é uma marca da atualidade. De acordo com levantamento da Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL), quatro em cada dez brasileiros têm emprego informal no Brasil e 71% têm mais de 35 anos. “A informalidade que concede liberdade, mas retira direitos; e a precarização, que faz com que o indivíduo trabalhe com cada vez menos suporte para realizar suas funções também fazem parte desse cenário de novas exigências do mercado, vide a terceirização que nada mais é do que uma forma de precarizar a atividade do trabalhador”, pondera Elaine.

Tecnologia e formação

Cada vez mais se exige agilidade e comprometimento dos colaboradores – como os trabalhadores são comumente chamados –, pois o erro ou a inadequação ficam mais visíveis com a tecnologia.

“Desde o processo seletivo, onde, por meio das redes sociais, um avaliador da empresa consegue determinar as características dessa pessoa, até no dia a dia do trabalho, a tecnologia tem papel fundamental fazendo com que as pessoas sejam mais produtivas e com que as empresas consigam acessar pessoas de regiões mais distantes para solucionar problemas específicos sem maior custo”, diz Glauber Pasqualini, instrutor de informática da Escola Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial de São Paulo (Senai-SP) na Área de Desenvolvimento e Programação de Sistemas. Para ele, em tempos de crise, “a oportunidade está na área da tecnologia”, pois o mercado busca, a todo o momento, melhorar processos para economizar.

Em relação às exigências das empresas, o supervisor de Avaliação Educacional do Senai-SP, Fabrício Ramos da Fonseca, entende que o novo paradigma produtivo requer o desenvolvimento de competências profissionais que superem o modelo fordista de uma educação, voltado à formação para tarefas e postos de trabalho. “Certas características, como ser capaz de se comunicar satisfatoriamente, trabalhar em equipe, decidir com autonomia, pensar estrategicamente, interpretar e lidar com situações novas e resolver problemas, passaram a ser muito valorizadas em adição à expertise técnica”, comenta.

Denis da Silva, 28 anos, formado em 2009 pelo Senai Roberto Simonsen no curso de Eletricista de Manutenção, conta que um dos carros-chefes da escola é justamente a formação do profissional como um todo e, por essa razão, costuma reconhecer outras pessoas formadas na mesma instituição por conta da postura e da qualidade apresentada, para além dos quesitos técnicos. Além disso, ressalta a importância do curso em sua carreira. “Devo toda a minha vida profissional e crescimento ao curso, por conta dele consegui meu primeiro trabalho e oportunidade de ir me estruturando financeiramente para crescer ainda mais”, conta.

A exemplo de Denis, os profissionais vindos de cursos técnicos e profissionalizantes costumam ser absorvidos mais rapidamente pelo mercado por preencherem uma demanda imediata da empresa. “Enquanto o colaborador precisa ser aceito como estagiário ou aprendiz para ter oportunidade de crescer dentro da empresa, ela, por sua vez, quer alguém mais ambientado e preparado”, explica Pasqualini, do Senai.