quinta-feira, 17 de abril de 2014

TERRA DO B

                                         


José Carlos Alexandre

Até que demorou um pouco. 

Yuri Gagarin subiu aos céus em 12 de abril de 1961 declarando ser a Terra Azul.

Agora astrônomos anunciam a descoberta de uma espécie de Terra do B, ou Terra 2 ou uma espécie de clone da Terra. 

Talvez o primeiro planeta mais viável de se ter uma forma de vida que de que temos notícia, dentre os bilhões de corpos celestes do Universo.

Agora podemos ficar certos de que estamos muito próximos de twittar com extraterrestres...

Mandar e-mails. 

Trocar selfies mundiais...

É possível que já surjam agências de viagem com planos para que alguns de nós possamos fazer intercâmbios...

Infelizmente o mundo da paz preconizado pelas viagens de Yuri Gagarin e Neil Armstrong ao espaço e à Lua, capaz de nos propiciar um futuro de solidariedade universal, ultimamente está sendo ameaçado com a volta do nazismo derrubando governo  na Ucrânia.

A paz  continua sendo mera ficção em muitas partes do mundo, a começar pelo Afeganistão.

E também em alguns cantões da África e um pouco em todo mundo, inclusive no Brasil, onde pessoas ainda morrem de fome, de subnutrição.

Que nossa Terra 2 ou Terra do B, possa ser um mundo de muita paz, coisa que, infelizmente, ainda estamos longe de obter no nosso dia a dia.

A transição incompleta: os próximos 50 anos



Depoimentos de militantes, coletivos e intelectuais a respeito das heranças da ditadura constroem mosaico sobre o futuro da democracia no Brasil

Além de publicar nas últimas semanas o especial 50 Anos do Golpe: A Transição Incompleta, a equipe de Carta Maior buscou, a partir de relatos e leituras sobre as experiência vivenciadas, construir uma visão sobre o futuro da democracia no Brasil.

Para tanto, colheu depoimentos de especialistas, personalidades, militantes e coletivos a respeito das heranças da ditadura de 1964 no país, e do que deve ser feito nas próximas décadas com vistas a se afastar cada vez mais desse passado sombrio e consolidar a democracia brasileira.

As perguntas colocadas em pauta foram a respeito do "quê de autoritarismo mais explícito e velado foi feito durante a Ditadura em sua área atividade e que se reflete na realidade atual do setor no país?"; sobre se "a transição realizada entre ditadura e democracia nessa área pode ser considerada completa, ou houve elementos da transição que impediram que a superação do período autoritário se consolidasse em sua completude?"; e "com relação às próximas décadas, digamos que nos próximos 50 anos da democracia brasileira, o que precisa ser feito, especialmente na área ora abordada, para que a transição possa ser considerada completa, tornando a ditadura efetivamente passado?".

As questões foram encaminhadas para cerca de 50 pessoas, das quais publicamos agora os sete primeiros depoimentos: de Camilo Tavares (diretor de cinema), Roberto Leher (professor da UFRJ), Ela Viecko (procuradora do MPF), Tonico Benites (antropólogo guarani kaiowa), Coletivo Mídia Ninja, Bia Barbosa (Intervozes) e Raquel Rolnik (urbanista).

Ao longo das próximas semanas, serão publicados os demais depoimentos que chegarem da primeira relação de pessoas consultadas.
                                                          
RAQUEL ROLNIK (urbanista, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e relatora especial da Organização das Nações Unidas para o direito à moradia adequada)

Heranças da ditadura na política urbana. Do ponto de vista da política urbana, algumas lógicas produzidas no período autoritário permanecem até hoje. Durante o regime militar, conformou-se um modelo constituído por uma única fonte de financiamento, centralizado na esfera federal e estruturado de forma setorial para financiar habitação e obras de infraestrutura viária e saneamento.

Essa máquina de financiamento de obras setoriais – gerenciada incialmente, com recursos do FGTS, pelo BNH (Banco Nacional de Habitação), criado ainda em 1964, e depois pela Caixa – simplesmente não foi capaz de promover cidades melhores para se viver. A crise de urbanidade que enfrentamos hoje é a prova disso. É a prova de que produção de cidade não é uma soma de produção de casas e sistemas viários.

Esse modelo de construção de cidades a partir do financiamento de obras terminou colocando, nas mãos de empreiteiras, concessionárias de serviços públicos, e do mercado imobiliário, grande poder sobre os processos decisórios relacionados à política urbana.

Apesar das promessas da Constituinte de 1988 e do Estatuto da Cidade (2001) – cumprimento da função social da cidade e da propriedade, incorporação direta dos cidadãos aos processos decisórios sobre política urbana – os municípios não conseguiram romper com o modelo dominante e produzir uma política urbana includente e democrática. 

Nosso fracasso em romper com esse modelo tem a ver com a relação entre a produção da cidade e as lógicas político-eleitorais dominantes: arrecadação de recursos financeiros para campanhas junto às empreiteiras de obras públicas e às concessionárias de serviços públicos, e utilização dessas mesmas obras e serviços como forma de angariar capital político junto à população, entre outras questões.

O fato é que, para implementar uma reforma urbana que democratize de fato nossas cidades, nossa política urbana necessita de uma reforma do Estado que ainda não aconteceu. 
                                                              

ROBERTO LEHER (Professor Titular da Faculdade de Educação da UFRJ)

  
Ditadura e Universidade: O passado oprime o presente. A criação de um projeto original para a universidade brasileira foi violentamente interrompida pelo golpe empresarial-militar de 1964.

No contraditório processo nacional-desenvolvimentista, os esforços para erigir a universidade de pesquisa no Brasil, com destaque para o CNPq e CAPES, sobressai o projeto da UnB. Reunindo extraordinários quadros intelectuais, Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro projetaram uma universidade associada a um projeto nacional democrático. Este projeto teve de ser destroçado pela ditadura, por ser incompatível com o capitalismo monopolista necessariamente subordinado ao imperialismo.

Combinando coerção e cooptação, os apoiadores da ditadura estabeleceram um padrão feroz de repressão, cassando Anísio e Darcy, impondo um modelo tecnocrático para a pós-graduação (1965), empreendendo, a partir do complexo Lei 5.540/68, o braço legal da contrarreforma, acrescido do AI-5 e do Decreto 477/69, o braço repressivo da mesma, um tenebroso ambiente, cassando centenas dos melhores pesquisadores brasileiros e afastando estudantes; mas, ao mesmo tempo, aproximando, com verbas de projetos, a intelligentsia contrarrevolucionária do projeto de universidade demandada pelo capitalismo monopolista.

Delações, perseguições, censuras, buscaram esmagar o pensamento crítico e independente, processo que resultou em prisões e mortes, em número ainda a ser levantado.

Foi a partir deste substrato que a pós-graduação foi erigida no Brasil. Marcada pela heteronomia, logrou resistências localizadas, mas, grosso modo, expandiu a partir de um padrão de subordinação aos interesses particularistas de governos e das estatais.

É possível afirmar que as marcas da ditadura estão presentes nos dias de hoje: muitas das deformações e do alheamento de vastos setores universitários em relação aos problemas dos povos encontram nelas sua origem. As motivações que levaram a geração dos anos 1950 a construir uma universidade original, comprometida com os problemas dos povos, são emolumentos para as inquietações subjacentes às atuais lutas por uma reforma radical e antimercantil das universidades no Brasil!
                                                                         
                                                                

BIA BARBOSA (jornalista, mestre em gestão e políticas públicas, coordenadora do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social e ex-editora de Direitos Humanos da Carta Maior)



No campo midiático, a grande marca da ditadura, lembrada e relembrada pela imprensa, foi a censura a todo e qualquer conteúdo que desagradasse aos militares. De receitas de bolos a poemas de Camões publicados nos jornais, as histórias sobre como os jornalistas sobreviveram aos censores são conhecidas. O mesmo vale para os comunicadores que tiveram não apenas suas palavras apagadas, mas seus corpos marcados e vidas ceifadas pela violência das fardas.

O que pouco se conta, no entanto, foram os casos de apoio explícito e colaboracionismo dado à ditadura por inúmeros veículos de comunicação. Daqueles que colocavam seus carros a serviço da “caça aos comunistas” aos outros que se beneficiaram de todo tipo de ajuda política e econômica para desenvolverem e expandirem seus negócios durante o regime militar. 

Este talvez seja o principal resquício da ditadura no campo midiático nos dias de hoje: as grandes organizações e os veículos da – não coincidentemente – conservadora imprensa tradicional que sobreviveram à repressão porque simplesmente se aliaram aos ditadores. Estão todos aí, querendo apagar a história com linhas mal contadas em editoriais que justificam suas opções covardes feitas 50 anos atrás.

Infelizmente, a transição para a democracia não apenas não deu conta de responsabilizar também esses donos da mídia como não enfrentou a principal característica do sistema de comunicações brasileiro consolidada neste período: uma brutal concentração vertical e horizontal da propriedade dos meios, que segue avançando diante dos olhos acovardados do Estado brasileiro, em um silencioso e permanente ataque privado à liberdade de expressão do nosso povo.
                                                                   
                                        ELA VIECKO (Vice-procuradora-geral da República, MPF)


A área do Poder Judiciário – magistratura e ministério público – foi naturalmente objeto de explícita pressão por parte da Ditadura pois as relações formais de administração e controle sempre foram muito consideradas na cultura dos organismos estatais e governamentais oficiais. Assim, a conformação dessas instituições ao padrão ideológico das forças armadas constituiu uma maneira de aniquilar a identidade dos organismos judiciais. Tortura, autoritarismo, prepotência com relação aos adversários e excluídos, e subserviência, favoritismo e tolerância em face dos donos do poder. Essa equação não veio com o Golpe de 1964, mas consolidou-se, mantendo-se mesmo após a Constituição Federal de 1988, que preservou ou nunca erradicou suas raízes, sendo possível dizer que a suposta Democracia ainda está por construir.

Por essa razão, é ainda incompleto dizer que houve transição da Ditadura para a Democracia apesar de varias instituições modernizantes terem, apenas na superfície, logrado mudar costumes e atitudes de administradores e administrados. E nem é possível dizer que as possíveis mudanças são devidas exclusivamente a essa transição; ao contrário, a pressão da evolução de costumes e atitudes provocada pelo incremento da mídia e a velocidade das comunicações é planetária e está a obrigar pessoas e instituições a se adaptarem. Os costumes políticos, todavia, paradoxalmente não sofreram modificações substanciais, em muito pela inércia dos Tribunais e da jurisprudência, que se movem com extrema lentidão e que protegem legislação nascida no tempo autoritário.

Nos próximos 50 anos é preciso que efetivamente se construa democracia real, resultado da qual a distribuição das rendas seja igualitária; as oportunidades sejam iguais; a propriedade seja justamente distribuída e o trabalho seja remunerado na proporção do seu verdadeiro valor social.

Enquanto assim não suceder a transição será incompleta, visto que o golpe de 1964 apenas formalizou a dominação de classe prestigiada pela força das armas mas o desparecimento das armas não fez desaparecer a dominação de classe, donde resulta em mera ficção a suposta transição. Aliás, o quadro tende a se repetir e a repressão retornar. Talvez não mais pela presença militar mas pela ação policial (o que no fundo é a mesma coisa). Os mecanismos de controle formal (corregedorias, ministério público, magistratura) têm pouca tradição de intervenção real e reduzido poder efetivo não estando aptos a dar cobro a esse quadro que ainda é remanescente da Ditadura. No campo de atuação dos órgãos e instituições do Poder Judiciário a transição – seja lá o que isso signifique – não avançou na velocidade das justas expectativas de quem combateu a Ditadura.
                                                                   
TONICO BENITES (guarani-kaiowá, doutor em antropologia social pela UFRJ)

As violências diversas contra os Guarani-Kaiowá no sul do Mato Grosso do Sul estiveram marcadas durante boa parte do século 20 por políticas de Estado voltadas a diminuir seus territórios, justamente no período das ações cruéis da ditadura militar. No entanto, apesar da atuação violenta do Estado, os Guarani-Kaiowá nunca deixaram de ocupar os territórios de onde foram expulsos. É importante relatar que desde o início da década de 1980 inúmeras famílias indígenas passaram a reivindicar a demarcação de parte dos territórios que foram ocupados pelos seus antepassados, fazendo com que os conflitos só aumentassem nos últimos vinte anos. Como consequência desses conflitos, inúmeros ataques vêm sendo praticados, causando não somente a morte como também ameaças, tortura, sequestro e isolamento de membros das famílias indígenas que se encontram nas zonas de conflito.

Por um lado, nos acampamentos indígenas localizados nas regiões litigiosas, as crianças, mulheres e idosos, por exemplo, têm dificuldades para receber qualquer tipo de atendimento à educação e à saúde. Por outro, nos casos onde os indígenas foram vítimas de ataques seguidos de morte, os autores e mandantes desses crimes nunca são investigados e punidos pelas instituições públicas, instalando assim uma situação de insegurança para várias famílias indígenas.

Diante desses fatos, as lideranças indígenas tentam fazer denúncias, demandando justiça, porém as narrações e depoimentos das lideranças indígenas são sempre distorcidas e ignoradas pelas instituições governamentais brasileiras, não atendendo assim suas denúncias e reivindicações. Em decorrência disso, as comunidades indígenas que estão vivendo nos minúsculos acampamentos das regiões em conflito continuam sendo vítimas de violências perversas.

"Em 1970, os fazendeiros e seus pistoleiros que chegaram ao sul de Mato Grosso do Sul em nossos tekoha, terras tradicionais, sempre portavam os dois revólveres (38 e 44) e balas na cintura e seus pistoleiros carregavam nas mãos duas espingardas (12 e 28), todos esses homens brancos “karai” os já lançaram os tiros sobre os índios, em qualquer momento já atiravam em direção dos indígenas, com os tiros de armas de fogos faziam correr os índios. 

Os índios não reagiam contra os pistoleiros, por isso, os índios para não morrer só corriam e fugiam com a sua família dos pistoleiros. Os fazendeiros e seus pistoleiros eram extremamente temidos, por que matavam sem piedade os índios. Naquela época, fazendeiros falavam rindo que matar índios não é nada, matar índios bugre não é crime, por isso, eles matavam índios rindo, era assim naquela época. Quando os fazendeiros mandavam matar índios, nenhum índio podia falar nada, se alguns índios se manifestassem ou reagissem contra as ações dos fazendeiros eles mandavam matar na hora ou era preso e mandava para cadeia. 

Naquela época, esses fazendeiros e seus pistoleiros já demonstravam que não gostavam mesmo de nós índios, apresentavam os olhares nervosos e bravos sobre os índios. Era assim naquela época, os fazendeiros já falavam para nós que ia mandar matar muitos índios. Na verdade, já naquela época eles mataram muitos índios e continuam matando nós índios até hoje”. 

(Narrações de idosos(as) guarani-kaiowá do Mato Grosso do Sul). 

Nota da Aty Guasu para governo e justiça do Brasil, 25 de maio de 2013.

Nota da Aty Guasu, 18 de dezembro de 2012: "Os territórios indígenas do litoral foram invadidos em 1500, enquanto o território Guarani-Kaiowá foi invadido pelo pequeno grupo de fazendeiro-político em 1940." 
                                                                     

MIDIA NINJA 

Os porões da comunicação.

Dia 1º de maio de 1964. Os militares derrubam Jango do poder e instauram uma ditadura que duraria 25 anos. Naquele momento, a comunicação de massa ainda despontava em nosso país. Mesmo com a chegada da TV nos anos 50, e com a popularização do rádio nos anos 30, o processo todo era difuso. Não existia uma cadeia nacional que desse conta de uma comunicação de massa, que conseguisse impor a ditadura do imaginário. Um ano após o golpe, no dia 26 de abril de 1965, entra no ar a TV Globo, canal 4 do Rio, embrião da Rede Globo, empresa que tinha como dono o autor de um editorial ácido que defendia o golpe e deixava claro o lado de sua empreitada. De forma repentina, com mudanças em leis, uma grande rede de televisão e comunicação se construiu no Brasil com amplo apoio da ditadura militar. 

Além de toda censura estabelecida no período da ditadura, um pacto político e econômico entre mídia e governo autoritário possibilitou a consolidação da indústria cultural do Brasil. Este pacto cria um sistema perverso de relacionamento promíscuo entre imprensa, elite econômica e staff politico conservador, que se enraíza na imprensa brasileira. Políticos assumem canais regionais e reprodutoras de rádio e TV por todo o país, uma obra astuta de consolidação da Rede Globo entranha-se por todos os demais canais de TV, enquanto a publicidade aprofunda o controle das corporações sobre jornais e revistas. Um cenário complexo para a liberdade de expressão é instaurado, enquanto as ruas lutam para trazer de volta a democracia no Brasil.

Com a Democracia elegemos nosso primeiro presidente, sem antes um vergonhoso debate televisivo, claramente manipulado em favor do candidato vencedor. Boa parte de nós ainda nem tinha nascido, mas soube do ocorrido. Ao mesmo tempo, quando chegamos a este mundo, e começamos a nos comunicar com ele através da mídia, a impressão que tínhamos era de viver o país de uma mídia só. Uma única TV, uma única rádio e jornal local. Todos eles controlados por políticos. No Brasil Profundo, nas milhares de cidades do interior uma juventude nasce e cresce com limitações absurdas e pouquíssimas opções, rendidas a uma indústria de massa pouco comprometida com seus desejos e interesses.

Chega o século XXI, a internet e o governo popular. De repente infinitas possibilidades de troca de informações e conhecimento está à disposição desta juventude. Fotos e vídeos são agora feitos por celulares. Todo mundo recebe e produz informações. A arma militar transforma-se em espaço do comum. Sua existência abala as raízes deste modelo de comunicação de massa. A crise traz consigo a necessidade de assumir de forma mais virulenta as contradições colocadas, e de forma gradual a verdade antes imaculada pelo discurso da imparcialidade jornalística transforma-se em manipulação e conteúdo questionável. Mas isso não muda a estrutura arcaica de nossa legislação, que ainda se apoia nos mesmos instrumentos que monopolizaram a disputa de nosso imaginário no período ditatorial. 

Nós, estes jovens que nascemos com a democracia, mas que vivemos plenamente a ditadura da comunicação, acreditamos na importância e necessidade de ampliarmos as formas de participação. Entre tantos desafios, a consolidação de redes de comunicação da sociedade civil organizada, a necessidade de  garantir a neutralidade da rede através de leis como o Marco Civil da Internet, e a construção de uma nova Lei de Meios, que possibilite a multiplicação de vozes, que valorize a diversidade de nossa sociedade e fomente novos veículos, novas parcialidades. 
                                  

                                                           
   
                              CAMILO TAVARES (diretor do filme O Dia que durou 21 anos)


A ditadura civil-militar que durou 21 anos deixou um legado trágico em nossa História: interrompeu um processo criativo efervescente que estava em todas as áreas da cultura e do pensamento nacionalista, emudeceu vozes e fez do medo e da subserviência a sua marca.

O Brasil perdeu. Todos perdemos. No lugar da criatividade e do sentido nacionalista, veio a repressão que impôs o autoritarismo e abaixamos a cabeça para o modelo americano.

As vozes da resistência lutaram pela nossa identidade e graças a artistas como Glauber, Leon Hirszman, Eduardo Coutinho, Cacá Diegues e todos do Cinema Novo, sem falar do Teatro do Oprimido de Boal, do Zé Celso do Teatro Oficina e das musicas interpretadas por Chico Buarque, Caetano, Tom Zé, Nara Leão, Elis Regina, Gilberto Gil, e tantos outros heróis... Temos hoje orgulho dos que lutaram.

Mas é hora de refletir e pensar no que pensadores como Paulo Freire e Darcy Ribeiro  vislumbravam? Por que eles foram considerados inimigos públicos do estado? Por pensar diferente? Por defender a emancipação e a liberdade de expressão?

E o mercado nacional de cinema, como lida com as majors? Escrevo dos EUA, onde estou divulgando o filme [O Dia que durou 21 anos] para as universidades americanas e me pergunto: qual será o nosso futuro?

Espero que os jovens queiram saber mais sobre heróis como Anísio Teixeira ou mesmo Lampião e queiram conhecer nosso rico imaginário de lendas indígenas , mas isto eh pura ilusão... Afinal os blockbusters estão aí e com eles o mercado e os grandes interesses!

Espero que a todo o esforço da Ancine e do MinC ajudem a construir e divulgar nosso imaginário para que daqui a 10 ou mesmo 50 anos possamos falar de nossa cultura brasileira sem ser um fac-símile do grande irmão norte-americano! (Com Carta Maior)

Declaração da Missão Diplomática da Palestina acerca da condição dos Prisioneiros Palestinos

                                                   

                                              
Documento

O dia 17 de Abril de cada ano é ocasião para evocar a situação que os Palestinos sofrem perante a ocupação militar israelita: o Dia dos Prisioneiros. Ocasião para os Palestinos informarem a comunidade internacional da penosa e prolongada situação de mais de 5000 Palestinos prisioneiros e detidos em 28 instalações prisionais israelitas. 

Estima-se que mais de 800.000 Palestinos foram detidos por Israel, a potência ocupante, desde o início da ocupação em 1967. Hoje existem mais de 5000 Palestinos em prisões israelitas, 210 dos quais crianças, e 21 mulheres, bem como outros 183 detidos administrativamente que estão presos sem que tenham sido acusados ou julgados, 11 dos quais membros de órgãos legislativos.

Outro motivo de preocupação é a situação de pessoas vulneráveis – crianças, mulheres, idosos, doentes – nas prisões israelitas. Num relatório publicado recentemente, a UNICEF informa que em cada ano cerca de 700 crianças palestinas com idades entre os 12 e os 17 anos foram presas, interrogadas e detidas pelo exército, pela polícia ou por agentes de segurança israelitas. 

Estima-se que, nos últimos 10 anos, 7000 crianças terão sido detidas, interrogadas, acusadas e/ou feitas prisioneiras pelos militares israelitas. A UNICEF confirmou que é generalizado o tratamento cruel, desumano e degradante a que as crianças palestinas são sujeitas no sistema prisional israelita, de forma sistemática e institucionalizada, em violação do artigo 37ª da Convenção dos Direitos da Criança.

Não existe praticamente uma única família palestina que não tenha sido afectada pela campanha de prisões, assédio e intimidação em curso, conduzida pelas forças de ocupação israelitas. A arbitrária lei militar israelita criminaliza o legítimo protesto contra a ocupação. Palestinos são julgados em tribunais militares que não cumprem padrões internacionais mínimos de isenção, independência e imparcialidade. 

Em desafio aberto à legalidade internacional, são condenados na base de meios de prova secretos, baseados em confissões obtidas por meio de violência ou tortura, é-lhes negado o direito a serem defendidos por um advogado, e crianças são julgadas como se fossem adultos. Muitos Palestinos nem sequer são levados a julgamento. Sofrem detenções, por vezes com a duração de anos, sem que tenham sido acusados de qualquer infracção específica. 

Estas acções de Israel, a potência ocupante, violam directamente o artigo 71º da Quarta Convenção de Genebra. As condições de detenção dos Palestinos nas prisões israelitas continuam a constituir motivo de grave preocupação. 

Os prisioneiros são amontoados em instalações superlotadas e insalubres, é-lhes recusado o acesso a serviços de saúde, são sujeitos a insultos, espancamentos e humilhações pelos guardas, são sujeitos a prisão em isolamento, as vistas de familiares são severamente restringidas, tudo isto em contravenção com as normas cautelares contidas na Quarta Convenção de Genebra relativas ao tratamento de pessoas sob detenção. São claramente alarmantes os constantes relatos de torturas e outras formas de maus-tratos.

A situação crítica em que se encontram os presos e detidos Palestinos tem conduzido ao agudizar de tensões e é causa de acrescida instabilidade no Estado Palestino sob Ocupação, incluindo a zona leste de Jerusalém.

A situação de vários presos e detidos Palestinos que têm em curso greves de fome de longa duração em protesto contra os abusos e violações dos seus direitos humanos fundamentais tem despertado a atenção. Esta situação alarmante requer a urgente atenção e intervenção da comunidade internacional.

As mortes de prisioneiros em circunstâncias inexplicáveis deveria ser prontamente investigada por uma autoridade independente. Desde 1967, duzentos e cinquenta e sete prisioneiros Palestinos morreram em prisões e instalações de detenção israelitas devido à tortura ou a negligência médica. 

É urgente encontrar-se uma solução humanitária para as greves da fome de longa duração, de acordo com os padrões e princípios legais internacionais. Os que estão detidos administrativamente deverão ser acusados e levados a julgamento, ou imediatamente libertados. Israel deverá respeitar o direito ao protesto pacífico e deverá agir com contenção sempre que os protestos assumam formas não-violentas.

Apelamos à Altas Instâncias Subscritoras da Quarta Convenção de Genebra a que assegurem que Israel, a potência ocupante, respeita as garantias nela contidas no que diz respeito ao tratamento dado a civis sob a sua ocupação, incluindo os presos e detidos Palestinos. Do mesmo modo, apelamos à comunidade internacional a que force Israel a pôr termo à ocupação militar do Estado da Palestina.

A Missão Diplomática Palestina.

Lisboa, 16.04.2014 (Com odiario.info)

Em memória de Gabriel García Márquez

                                                                        
Em algum lugar de seus longos silêncios Gabriel García Márquez deve abrigar, em vez daquela memória sem fim, a nostalgia de um tempo em que recordar era viver


Eric Nepomuceno, da Carta Maior

Ninguém combinou nada com ninguém, nada foi pedido a quem quer que fosse, mas existia uma espécie de pacto silencioso: não mencionar, fora de círculos absolutamente restritos e da mais rigorosa confiança, que Gabriel García Márquez perdia, pouco a pouco no princípio, e rapidamente depois, a memória.

Começou há alguns anos. Mas foi a partir dos últimos quatro que o processo se acelerou. As declarações emocionadas de seu irmão caçula, Jaime, na semana passada, correram mundo e acabaram escancarando o assunto. Ele não foi o primeiro a romper aquele pacto não declarado: um mês antes, o jornalista colombiano Plínio Apuleyo Mendoza mencionou a perda de memória do escritor.

Há algum tempo circulam rumores sobre o estado de saúde de García Márquez. São especulações de todo tipo, e o que fizeram Plínio Apuleyo Mendoza primeiro, e Jaime depois, serve ao menos para esclarecer alguns pontos.

O jornalista, amigo de García Márquez há mais de meio século, seu compadre, foi mais contido. Relatou que durante um longo tempo os dois se falavam por telefone quase todas as semanas. E que, a partir de determinada época – ele não disse quando – García Márquez deixou de ligar.

Daí em diante, já não se falaram. Sempre que ele telefonava para o México, ouvia alguma desculpa delicada e viável. A explicação veio, enfim, de um dos filhos de García Márquez, que contou que seu pai não reconhecia mais as pessoas pela voz, só pessoalmente. E que por isso já não atendia as ligações.

Jaime foi caudaloso em suas declarações. Contou que ele e o irmão mais velho se falam por telefone quase todos os dias, e que o tema das conversas é recorrente: García Márquez pede que o ajude a lembrar fatos passados.

Disse que o irmão sofre de demência senil, um mal comum na família. Afirmou que há anos ele não escreve nada, e que não tornará a escrever.

Estive com Jaime em Cartagena das Índias outubro de 2010. Numa de nossas muitas conversas ele me disse que a doença do irmão estava em estado avançado.

Menos de um ano depois, estive com Mercedes e Gabriel García Márquez, em sua casa na Cidade do México. Foi uma conversa longa, de quase três horas. Durante esse tempo, ele falou muito pouco. Entrava em longos silêncios, mas cada vez que eu pressentia que estava alheio ao que Mercedes e eu dizíamos, ele intervinha. Eram comentários curtos, disparados entre sorrisos. A certa altura, perguntou por quê meu filho Felipe, que estava comigo no México e ele conhece desde os quatro anos de idade, não tinha ido vê-lo. E voltou a um silêncio profundo e prolongado.

Não ouvi de ninguém, de nenhum dos amigos realmente próximos, menção alguma a demência senil. O que sim, sei, é que aquela memória prodigiosa de García Márquez não existe mais, e faz tempo.

Conta Jaime, agora, exatamente o que me contou em Cartagena: o prolongado e intenso tratamento com quimioterapia ao qual García Márquez se submeteu para superar um câncer linfático que o afetou em 1999 acabou de prejudicar de vez sua memória. Os efeitos começaram a se fazer sentir aos poucos, e se agravaram nos últimos seis anos.

Na verdade, tem sido fácil constatar isso. Gabriel García Márquez sempre foi dono de uma memória sem limites, e essa memória se desvaneceu.

Lembro das muitas vezes que vi como ele interrogava alguém sobre determinado tema – volta e meia aconteceu comigo – e, anos depois, era capaz de rearmar a história ouvida como se tivesse sido vivida por ele dois dias antes. Era capaz de descrever determinada rua de alguma cidade como se estivesse chegando de lá. Discutir com ele era, na imensa maioria das vezes, perder tempo: acabava sempre achando alguma prova inconteste de que sua memória era imbatível.

Assim ele escreveu tudo que escreveu. Disse, ao longo da vida, que não há uma só linha, em toda a sua obra, que não tivesse como ponto de partida um dado da realidade. Ou seja: um dado guardado, intacto, em sua memória.

Bem: essa memória se acabou. E, com ela, se acabou a escrita mais luminosa das últimas muitas décadas da literatura feita na América de todos nós.

Numa tarde de novembro de 2008 ele me disse, no jardim da sua casa: ‘Não escrevo mais porque já não tenho ideias para escrever’. Brinquei, dizendo que era a mesma coisa que ele havia me dito ao longo de mais de vinte anos.

Já contei essa história em alguns textos que escrevi sobre ele. O que não contei, porém, conto agora: ao ouvir meu comentário, Gabriel García Márquez me olhou e disse num fio de voz: ‘Ideias, eu até que tenho, ou devo ter. Só que na hora de escrever não me lembro de nenhuma’.

Foi quando entendi que já não haveria mais livros do autor que certa vez disse que escrevia para que os amigos gostassem mais dele.

O pacto que nunca existiu volta a existir. Jaime García Márquez disse o que achou que devia dizer. Nos dias seguintes, Jaime Abello, diretor da Fundação do Novo Jornalismo, criada e mantida por Gabriel García Márquez, resolveu acabar com essa história toda. Negou que o escritor padeça de demência senil, disse que não há nenhum diagnóstico médico indicando a doença, e que García Márquez, aos seus 85 anos de vida, é apenas um ancião esquecediço (a palavra, em castelhano, foi ‘olvidadizo’), e que continua desfrutando dele como amigo.

Melhor assim. Em algum lugar de seus longos silêncios Gabriel García Márquez deve abrigar, em vez daquela memória sem fim, a nostalgia de um tempo em que recordar era viver. (Com Brasil de Fato)

17 de abril de 1996:NOSSA HOMENAGEM AOS MARTIRES DE CARAJAS !

                                                               

 Da Secretaria Geral do MST

Homenagem  aos  mártires de carajás, nossos 19 trabalhadores rurais  brutalmente assassinados pela Policia Militar do Pará,  quando era  Presidente Fernando Henrique Cardoso e governava o estado do Para, o senhor ALMIR GABRIEL (PSDB), já falecido.
  
Não podemos nos esquecer jamais.

Não  podemos esquecer que até hoje nenhum dos responsaveis foi punido por aquele crime.

Não podemos esquecer que as dezenas de soldados e oficiais, sairam de seus quarteis de Paraupebas e Marabá, com munição real, armados de fuzis e sem identificação nas fardas, prenunciando o massacre,  cercaram os caminhantes e impediram a continuidade da marcha que o MST estava fazendo até Belém. 

Todos eles foram todos absolvidos. Alguns morreram assasinados pela violencia social. Outros devem estar remoendo o remorso até hoje.

Não podemos esquecer que comandaram a tropa o Coronel Mário Pantoja e o Major José de Oliveira. Ambos foram condenados a 228 anos de prisão cada.  Porém,  estão recolhidos a apartamentos privativos de oficiais em algum quartel de Belém.

Não podemos esquecer, que consta nos autos processuais, denunciada pelos advogados da Policia Militar, de que a operação militar foi custeada com recursos da mineradora VALE DO RIO DOCE,  que não queria ter caminhantes atrapalhando a passagem dos seus lucros.

Não podemos esquecer que há entre as vítimas 69 feridos com sequelas, a maioria impossibilitados para o trabalho agricola. As viuvas  foram indenizadas pela Assembleia Legislativa do Para e recebem  um salario minimo mensal.

As centenas de familias que resistiram e sobreviveram, estão finalmente assentadas, na area que reivindicavam desapropriação.  Um latifundio improdutivo de 50 mil hectares, que o então presidente do Incra, Francisco Graziano considerava antes produtiva.   

Agora, são o assentamento 17 de abril.  Sua  agrovila, progressista, se transformou em distrito do municipio de Eldorado de Carajas.  Vivem muito bem, e só a produção de leite atingem mais de 30 mil litros diários para abastecer a população da região. 

Há até uma biblioteca com o nome JOSE SARAMAGO, em agradecimento ao seu depoimento solidario.

Por isso as dezenas de organizações campesinas de todo mundo, da VIA CAMPESINA INTERNACIONAl,   reunidas  na II conferencia mundial em  abril de 1996, no Mexico, institutiram o dia 17 de abril: Dia mundial de luta camponesa!

A sociedade brasileira reagiu indignada.  O MST fez entre março aabril de 1997 uma  longa marcha de 1500 quilometros até Brasilia, para exigir justiça, A cidade parou e fomos recebidos por milhares de trabalhadores.

Envergonhado por sua resposabilidade indireta, em novembro de 2002, o então presidente Fernando Henrique Carodoso, sancionou projeto de inciativa da Senadora Marina Silva, que decretou  17 de abril: dia nacional de luta pela reforma  agraria!

Queremos denunciar e lembrar os fatos, através da poesia de PEDRO TIERRA,  escrita  em  homenagem aos mártires. logo após o ocorrido.


A Pedagogia dos Aços

Candelária,
Carandirú,
Corumbiara,
Eldorado dos Carajas ...

A pedagogia do aços
golpeia no corpo
essa atroz geografia ...

Há cem anos
Canudos,
Contestado
Caldeirão ...

A pedagogia dos aços
golpeia no corpo
essa atroz geografia ...

Há uma nação de homens
excluídos da nação.
Há uma nação de homens
excluídos da vida.
Há uma nação de homens
calados,
excluídos de toda palavra.
Há uma nação de homens
combatendo depois das cercas.
Há uma nação de homens
sem rosto,
soterrado na lama,
sem nome
soterrado pelo silêncio.

Eles rondam o arame
das cercas
alumiados pela fogueira
dos acampamentos.

Eles rondam o muro das leis
e ataram no peito
uma bomba que pulsa:
o sonho da terra livre.

O sonho vale uma vida?
Não sei. Mas aprendi
da escassa vida que gastei:
a morte não sonha.

A vida vale tão pouco
do lado de fora da cerca ...

A terra vale um sonho?
A terra vale infinitas
reservas de crueldade,
do lado de dentro da cerca.

Hoje, o silêncio
pesa como os olhos de uma criança
depois da fuzilaria.

Candelária,
Carandirú,
Corumbiara,
Eldorado dos Carajás não cabem
na frágil vasilha das palavras ..

Se calarmos,
as pedras gritarão ...


Brasília,
25/04/96

Universidades se somam à jornada nacional de luta pela Reforma Agrária

                                                                        
Ao longo de todo mês de abril, as cerca de 50 universidades espalhadas pelo país com que o MST tem parcerias, realizam a 1º Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária.
Serão realizadas atividades acadêmicas, políticas e culturais em apoio à luta dos movimentos sociais do campo brasileiro. 

A atividade acontece em paralelo a Jornada Nacional de Lutas de Abril, realizada anualmente pelo MST em memória ao Massacre de Eldorado dos Carajás, quando 21 trabalhadores rurais sem terra foram assassinados no dia 17 de abril de 1996, no Pará.

Segundo Maria Cristina Vargas, do setor de educação do MST, a jornada universitária tem como principal objetivo ampliar o debate e o diálogo com a sociedade sobre a importância e a necessidade da Reforma Agrária.

“Ao mesmo tempo em que fazemos as lutas no campo, ocupando terras, prédios públicos, realizando marchas e mobilizações, ampliamos nosso leque de diálogo com a sociedade levando a discussão da Reforma Agrária Popular para o espaço acadêmico”, avalia.

Como lembra Cristina, o MST compreende que apenas será possível realizar a Reforma Agrária com a aliança entre os trabalhadores do campo e os da cidade.  

Ocupar a universidade 

Na mesma linha, a professora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Cristina Bezerra, acredita que a presença dos movimentos sociais nas universidades é extremamente necessária.

Para ela, trata-se de uma luta para questionar política e socialmente o papel da universidade na sociedade.

“Que tipo de conhecimento ela produz e com que sentido?”, questiona, ao acreditar que o movimento social no espaço acadêmico "tem a potencialidade de fazer com que os muros da universidade se voltem mais para as demandas socialmente referenciadas, necessárias para a população, para o crescimento do país, que legitimem o sentimento de justiça, de encaminhamentos mais voltados à população, não só para os setores dominantes".

Já foram realizadas atividades na Unesp de São José do Rio Preto e Presidente Prudente, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" (Esalq/USP), Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), entre diversas outras (veja programação completa abaixo).

Para Luis Carlos Pereira, Coordenador Pedagógico do Curso de Residência Agrária na UFMG, “a importância da jornada está em retomar o debate da Reforma Agrária para a construção de um novo modelo de agricultura que esteja de acordo com as reais necessidades da população brasileira, um modelo capaz de produzir alimentos saudáveis para o consumo da população”.


Veja a programação completa:

UNESP - Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" de São José do Rio Preto (SP)  - 24/03 a 28/03                                  

UFCA - Universidade Federal do Cariri  -  todo o mês de abril

UFAM - Universidade Federal do Amazonas  - até dia 29/04

UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais  - 7 a 11/04

UNESP - Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho” de Presidente Prudente  - 7/04 a 10/04

UFRB – Universidade Federal do Recôncavo Baiano  -  7/04

UFBA - Universidade Federal da Bahia  - 7/04 a 21/04

UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro  - 8/04

UFRRJ - Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro  -  8/04

ESALQ - Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" (Esalq)  -  10/04

UERJ - Universidade Estadual do Rio de Janeiro – Campus Maracanã  - 10/04              

UNIFAL - Universidade Federal de Alfenas  - 8 e 9/04

UFLA – Universidade Federal de Lavras  -  9/04

IFSULMINAS - Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas Gerais  -  10/04

UEMA - Universidade Estadual do Maranhão  - 10/04 e 28 a 30/04

Unifesp - Universidade Federal de São Paulo - campus Osasco  - 15 a 16/04

UFES - Universidade Federal do Espírito Santo  -  15/04 a 25/04

UFPR – Universidade Federal do Paraná  - 15/04 a 29/04

UECE - Universidade Estadual do Ceará  -  21/04 a 24/04             

FAEC - Faculdade de Educação de Crateús  -  21/04 a 24/04

UFC - Universidade Federal do Ceará  -  22/04 a 29/04

UVA - Universidade Estadual Vale do Acaraú  -  22/04 a 24/04

UFC - Universidade Federal do Ceará  -  22/04 a 25/04

UFVJM - Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri   -  22/04 a 26/04                                                     
UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora  -  22/04 a 30/04                                                                                          
UnB - Universidade Federal de Brasília  -  22/04 a 25/04

UNILA - Universidade Integração Latino-americana  -  22/04 a 26/04

IFPR - Instituto Federal do Paraná   -   22/04 a 26/04

UNIOESTE - Universidade Estadual do Oeste do Paraná  -  22/04 a 26/04

UEL - Universidade Estadual de Londrina  -  23/04                                              

UESC - Universidade Estadual de Santa Cruz (BA)  -  28/04           

UFF - Universidade Federal Fluminense Rio das Ostras   -  28/04

UERJ – Campus São Gonçalo   -  28/04 a 30/04  

UNIFESSPA - Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará  - 28/04 a 30/04  

USP – Universidade de São Paulo  -   29/04

UFF - Universidade Federal Fluminense  -   29/04

UFG - Universidade Federal de Goiás   -  29/04 a 01/05

Universidade de Coimbra - Portugal   -  29/04 a 30/04                    

UFF - Universidade Federal Fluminense  -  30/04

PUC-RJ - Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro  -  8/05

Universidades ainda sem data pré-definida:

UFF - Universidade Federal Fluminense

UFFS – Universidade Federal Fronteira Sul

UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense

IFF Campos – Instituto Federal Fluminense

UNIRIO - Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro 

(Com o MST)

Kerison Lopes é eleito presidente do SJPMG

                                             

A chapa 2, "Movimento Pra Sacudir", liderada por Kerison Lopes, venceu a eleição para a diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais no triênio 2014-2017. Ela recebeu  58,75% dos votos válidos, contra 41,25%  dados à chapa 1, liderada por Adriano Boaventura. Houve sete votos nulos e um em branco.  O candidato derrotado avaliou que a Oposição saiu fortalecida e se enriqueceu tanto pessoalmente quanto politicamente.

O presidente eleito do SJPMG disse que a principal missão da nova diretoria será levantar a auto-estima dos jornalistas, que vivem seu momento mais difícil desde o fim da ditadura. "Estamos enfraquecidos pelo fim do diploma, pela precarização das condições de trabalho e pelos salários rebaixados. Precisamos nos unir e mostrar que os jornalistas são importantes para a sociedade, e o instrumento para isso é o Sindicato", disse Kerison Lopes. Ele avaliou que a vitória da sua chapa demonstrou que os jornalistas entenderam este recado e o aprovaram. 

Ele citou como tarefas para os próximos três anos aumentar a filiação, atrair as novas gerações de jornalistas, realizar pré-sindicalização de estudantes e diversificar a atuação do SJPMG, promovendo atividades culturais e assistenciais. "O Sindicato dos Jornalistas precisa abrigar toda a categoria", disse.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Charlie Chaplin completaria hoje 125 anos. O ato e diretor destacou-se sobre tudo pelo filme O Grande Ditador, de 1940

Brasil é 11º país mais mortal para jornalistas; maioria cobria corrupção

                                                                        
                                      Jornalistas em homenagem a Santiago Andrade (AP)

O cinegrafista Santiago Andrade, de 49 anos, registrava um confronto entre policiais e manifestantes em um protesto no Rio de Janeiro em fevereiro deste ano quando foi atingido na cabeça por um explosivo.

Ele foi levado para o hospital, mas não resistiu aos ferimentos.

A morte de Andrade durante o exercício de sua profissão contribuiu para um triste índice brasileiro: O país é atualmente o 11º país mais perigoso do mundo para se exercer o jornalismo, segundo o "Índice de Impunidade",  publicado anualmente pelo Comitê de Proteção a Jornalistas.

A maioria dos jornalistas mortos trabalhava para veículos impressos (48%) e cobria casos de corrupção (59%). Todos eram homens.

A organização sem fins lucrativos monitora a violência contra esses profissionais por meio de seu ranking anual publicado desde 2008.~

Represália

Entre 1994 e 2014, foram contabilizadas 29 mortes de jornalistas brasileiros. Eles morreram por ações de represália a seu trabalho ou em situações de combate ou conflito.

Em outros nove casos, o motivo da morte não pôde ser determinado e, por isso, eles não foram contabilizados no índice.

Em 93% das mortes registradas, os jornalistas foram assassinados.

Autoridades do governo foram consideradas responsáveis pelos disparos de armas de fogo em 56% das mortes. Os tiros partiram de criminosos em 33% dos casos.

Os dez países mais perigosos para jornalistas

Iraque: 164 mortes
Filipinas: 76 mortes
Síria: 63 mortes
Algéria: 60 mortes
Rússia: 56 mortes
Paquistão: 54 mortes
Somália: 52 mortes
Colômbia: 45 mortes
Índia: 32 mortes
México: 30 mortes
* Entre 1992 e 2014
Fonte: CPJ

A taxa brasileira foi a terceira mais alta da América Latina, onde a Colômbia é líder, com 45 mortes, seguida pelo México, com 30.

Líderes

O Iraque é de longe o país com mais mortes no ranking do comitê, num total de 164. Num distante segundo lugar estão as Filipinas, com 76 mortes. A Síria vem logo atrás, com 63.

"Esse índice mede como os países lidam com a violência contra a imprensa", afirmou o comitê no anúncio dos resultados atualizados de 2014. "No Iraque, uma centena de jornalistas foi morta na última década e ninguém foi punido."

No caso do Brasil, 70% das mortes seguem impunes, enquanto em 19% dos casos os culpados foram punidos parcialmente. O comitê avaliou que somente em 15% das mortes a justiça se fez por completo.

Por enquanto, o caso de Andrade continua em andamento. Fábio Raposo Barbosa e Caio Silva de Souza, acusados pelo Ministério Público de provocar a morte do cinegrafista, estão presos no Complexo Penitenciário de Jericinó, em Bangu, na Zona Oeste do Rio, enquanto aguardam julgamento. (Com a BBCBrasil)

Escola da Juventude sem Terra

MCs ficam livre de taxas para alvará

                                                                          

A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) recuou nesta quarta-feira (16) da decisão de cobrar até R$ 33 mil por ano por manifestações de cunho cultural sem qualquer previsão de lucro. A medida é relacionada ao Coletivo Família de Rua, que, há sete anos, vinha promovendo duelos de MCs no viaduto de Santa Tereza, na região Centro-Sul da capital.

As apresentações, que chegavam a reunir 1.500 espectadores, foram interrompidas no dia 15 de dezembro do ano passado devido a pressão da PBH, que não abria mão da cobrança de taxas para emissão de alvarás.

A isenção de taxas foi definida pela Procuradoria Geral do Município. Por meio de nota, a PBH informou que agendará reunião com os promotores do evento para definir um novo local para a realização dos duelos, alegando que o viaduto Santa Tereza está em obras e que a praça João Pessoa, na avenida Bernardo Monteiro, no bairro Santa Efigênia – outro ponto pretendido pelo coletivo –, “não oferece as condições necessárias”. (Com O Tempo)

O porta-voz do Coletivo Família de Rua, Pedro Valentim, recebeu a notícia com um misto de surpresa e alívio. “Desde o início nossa luta sempre foi direcionada a ocupar os espaços da cidade com cultura. A ameaça da prefeitura de nos calar era absurda, mas finalmente prevaleceu o bom senso”, disse.

Valentim revelou que será uma tarefa árdua definir um novo local para as apresentações. “A praça João Pessoa seria uma boa opção, mas a prefeitura alega que os fícus estão podres e podem cair sobre as pessoas”, lamenta, confessando que outras alternativas não foram ainda cogitadas.

Enquanto não havia desfecho favorável para o processo, o coletivo vinha promovendo duelos de MCs na porta da PBH para protestar contra a arbitrariedade do Executivo municipal. A apresentação acontece no início da noite desta quarta, mas ao invés de palavras de ordem e de protesto há comemoração.

RISQUE -NORA NEY

Tendler: agroecologia é fundamental na produção econômica e social

                                                                        

O novo filme de Silvio Tendler, "O Veneno Está na Mesa 2", denuncia a barbárie do agronegócio e mostra que há saídas para produção de alimentos saudáveis


Renato Cosentino e Alan Tygel


Do Rio de Janeiro

O veneno está na mesa dos brasileiros, no país que mais consome agrotóxicos no mundo. Mas há alternativas viáveis de produção de alimentos saudáveis que respeitam a natureza, os trabalhadores rurais e os consumidores. É essa mensagem que o novo documentário do diretor Silvio Tendler, O Veneno Está na Mesa 2, quer passar.

O primeiro filme, que não foi lançado nos cinemas e seguiu um caminho alternativo de exibição através da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, teve uma recepção surpreendente e foi visto por mais de um milhão de pessoas.

Nesta entrevista, Tendler fala do novo filme, da sua relação com os movimentos sociais e da importância da alternativa agroecológica para a sociedade brasileira.

O filme será lançado nesta quarta­-feira (16), às 20h, no Teatro Casa Grande, no Leblon. A entrada é gratuita.


Por que lançar a continuação de "O Veneno Está na Mesa", o que ele traz de novo?

'O Veneno Está na Mesa' surgiu quando estive no Uruguai e o Galeno me disse que o Brasil era o principal consumidor de agrotóxico do mundo. 

Voltei ao país com a missão de fazer um filme sobre isso, mas nunca imaginei que seria dessa envergadura. Conversei com o (João Pedro) Stédile (dirigente nacional do MST), e ele gostou da ideia, e nesse momento já estava sendo pensada a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. Conseguimos com R$ 50 mil reais fazer o Veneno 1.

A campanha foi muito bem sucedida, e o lançamento superou as expectativas de muito filme dito de mercado. É incalculável o número de pessoas que assistiram esse filme,  só no Youtube foram mais de 300 mil, fora as cópias que foram doadas, vendidas, emprestadas, copiadas, pirateadas; ele teve muito público.

Isso gerou uma discussão de que o filme deveria ser aprofundado, e de que deveríamos sobretudo buscar soluções, mostrar que existe alternativas ao veneno, que nós não somos um bando de irresponsáveis que queremos matar a humanidade de fome em nome de uma causa.

Na verdade, nós somos pessoas com sensibilidade, com uma visão de futuro. Pensamos no Veneno 2 em duas partes. Um terço do filme, que mostra os problemas, que só se agudizaram do primeiro Veneno para cá. Hoje você tem entidades científicas da maior responsabilidade que não hesitam em afirmar que existem elementos cancerígenos fortes nos agrotóxicos.

Antes nós tivemos essa dificuldade, poucas pessoas tiveram a coragem de dizer. Ao mesmo tempo dois terços do filme mostra pessoas, comunidades, sob as mais diversas formas, que lutam para preservar a natureza, garantir o alimento, o sustento de todo mundo, com qualidade de vida.

A distribuição alternativa do filme foi então um dos fatores desse alcance surpreendente?

O cinema de shopping está em absoluta crise. O cinema nacional hoje, pelas estatísticas oficiais, atinge 15 milhões de espectadores. Nós já tivemos 5 mil e tantas salas de cinema, hoje temos duas mil e novecentas, 90% delas ficam em shopping, em 9% do território nacional.

O número de espectadores que a Ancine se gaba são 15 milhões de espectadores ao ano. Se você considerar que quem vai ao cinema vai duas vezes ao ano, na verdade você reduz a metade, são 7,5 milhõs de espectadores. Num universo de 200 milhões de cidadãos, esses números não representam nada.

Ou seja, eles desconsideram o povo brasileiro como espectador, eles não contabilizam escolas, universidades, lages, comunidades, centros comunitários, assentamentos, não consideram nada disso. Eu considero espectador até mesmo aquele que assiste numa cópia pirateada.

Quem assiste o filme é espectador, não me interessa como ele assistiu, interessa que ele assistiu. E essa grande massa assiste, ela compra na Rua Uruguaiana a cinco reais, ela se vira e assiste.

Então, o Brasil tem muito mais que 15 milhões de espectadores, mas pra Ancine só conta código de barras. Eles não contabilizam cinema, espectador, contabilizam ingresso vendido, que é outra coisa. E nós partimos da premissa que nós não vendemos ingresso, a gente faz filme pra ser visto.

Vocês viajaram bastante pelo Brasil para fazer esse filme, o que você poderia destacar de aprendizado dessas viagens?

Fomos ao Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Rio Grande do Norte, Brasília, viajamos bastante. A ideia de ambos "Os Venenos" é não localizar numa região, mas mostrar que o problema da agricultura brasileira é nacional. A abertura do filme é propositadamente com o Boaventura de Sousa Santos, que é um dos maiores intelectuais do mundo, muito respeitado na comunidade acadêmica e na militância social. Ele defende algo que vem se tornando uma evidência: o respeito aos saberes ancestrais.

A gente durante muito tempo viveu emparedado pelo cientificismo, que só as ciências poderiam trazer mudanças. E ai vem intelectuais, não só ele, mas da gama dele, e dizem que não.

Você tem gente, tem culturas milenares, que praticam uma agricultura sábia, ecológica, com equilíbrio, com defesa do ambiente e do homem, e que é capaz de nutrir a humanidade. Eu acho que essa é a grande lição de moral. Se o filme tem uma alguma moral, é essa.

O filme foi feito em parceria com o movimento social. Como se deu essa colaboração?

Eu sou um parceiro dos movimentos dispostos a mudar a vida. O meu cinema é um cinema político. Eu fui acusado disso durante muito tempo, até passar essa onda das pessoas gritando que o cinema não podia ser político, que cinema político não atingia ninguém, que ninguém via, ninguém gostava.

Então essa parceria minha com o movimento social ela antecede os próprios "Venenos". Eu já fiz filme de propaganda para partido político de graça. Porque eu não tava vendendo sabonete, eu tava fazendo política, eu tava apoiando as mudanças que o Brasil pedia. Eu já fiz filmes que sei que circulam no movimento social de forma pirata, mas eu prefiro que seja pirateado do que não ser visto, do que ficar na gaveta. 

Meu filme sobre o Milton Santos é um ícone, Utopia e Barbárie, Marighella, ou seja, meu cinema é ligado aos movimentos sociais. Com trabalho conjunto com o movimento social oficialmente eu tenho o Veneno Está na Mesa 1 e agora o Veneno 2. Mas já fiz muitas coisas pro MST, e tenho muito orgulho.

Eu acho que se tem um movimento importante no Brasil é o movimento pela reforma agrária, é o movimento pela reforma urbana. As coisas mais bonitas que já aconteceram na minha vida, eu já tive alguns momentos de muita emoção. Um quando eu apresentei o Milton Santos na Escola Florestan Fernandes do MST e a outra foi no Rio de Janeiro.

Tinha um cinema na Cinelândia, que era um clássico do Rio de Janeiro dos anos 50, todo de mármore, bonito, que estava abandonado. Naquela semana as pessoas tomaram aquele prédio, os sem ­teto tomaram o prédio.

Na noite, acho que era véspera de 7 de setembro, algo assim, eles ocuparam o cinema, um sem­ teto se paramentou de lanterninha, puseram uma carrocinha de pipoca dentro do cinema, e as pessoas assistiram sentadas no chão de mármore durante quase duas horas o Milton Santos.

Foi uma das coisas mais lindas que aconteceu na minha vida. Ai eu falei: esse cinema que eu faço tem sentido, é junto com o movimento social, e é isso que me interessa na vida.

Estamos descomemorando os 50 anos do golpe, e temos falado muito da história da reforma agrária, o discurso do Jango. 

Agora lancei duas séries, "Os advogados contra a ditadura", e "os militares que disseram não". Falei daqueles que se opuseram ao golpe, que são setores fundamentais mas não muito conhecidos.

Você conhece o nome dos generais golpistas, dos torturadores, mas você não conhece numa escala popular, não tem o reconhecimento, os militares que foram legalistas, foram constitucionalistas, que ficaram até o final ao lado do Jango, que mesmo depois do golfe ficaram militando e resistindo.

Você não conhece os advogados que eram advogados de perseguidos políticos, num país que não tinha nem habeas corpus. E eu fiz 5 programas de tv de 50 min cada um, cada série, e dois longas metragens. Tenho muito orgulho das coisas que faço, posso falar de peito erguido das coisas que faço.

Tem algum outro filme que você está fazendo agora?

Tem, eu não paro. Se você parar você morre, atrofia. Vai ficando velho vai enferrujando. Terminei junto esses três filmes. E agora to fazendo A Alma Imoral, do Nilton Bonder, e o assunto é sobre o exílio do poeta. Você não houve falar sobre o exílio de um poeta, e eu quero falar sobre isso.


Estamos lançando o filme num momento que a bancada ruralista tem feito ataques mais fortes a legislação dos agrotóxicos e ao mesmo tempo vivendo um clima pré­-eleitoral. 

Esse filme consegue ter um impacto da opinião pública e trabalhar num sentido mais amplo da luta contra os agrotóxicos?

Eu acho que sim. A política não se faz a luz do dia, a política é uma coisa que você negocia, não é muito clara. Você tem hoje vertentes da sociedade que estão negociando para que se monte uma grande frente popular que faça frente a esse grupo do agronegócio.

Hoje você tem uma bancada ligada as negociatas, a esse Brasil feio, de mais de duzentos parlamentares. A gente tem que construir os outros duzentos. A gente tem que ter um preparo pro enfrentamento político também.

É onde eu tenho divergência com alguns companheiros militantes que eles querem abandonar as frentes de ação política. Eu acho que a frente de ação política é tão importante quanto a gente na rua, fazendo filme, debatendo.

Mas eu acho que a gente tem que construir, aumentar muito a bancada das pessoas que antagonizam com a bancada ruralista. A gente tem que quebrar esse monólito. A gente tem que fazer alianças, porque política é isso.

Se a gente conseguir roubar 12 deputados... não significa com isso que você vai abandonar as outras lutas, você vai continuar na rua lutando, falando o que você pensa, o que você quer.

Mas é preferível ter parlamentares que não são puro sangue mas estão aliados a gente, do que buscar a perfeição e não ter nada. É uma maneira reformista de pensar, mas que eu acho que tem sua razão de ser


Por que você acha que existe este desânimo com a política institucional?

Eu acho que as pessoas que estão desanimadas tem sua razão de ser. A gente engoliu muito sapo estes tempos. A gente vem engolindo muitos sapos, e vai cansando. Se a gente tem que dar nome aos bois, as últimas coisas que vem acontecendo há um tempo já com o PT, elas provocam um certo desencantamento.

Eu que nunca fui petista estou desencantado, eu não era petista mas eles tinham um discurso da pureza, e eles também sujaram as mãos. Se bem que o Sartre sempre disse que em algum momento é importante sujar as mãos. Mas eles eram puristas, eles não votaram no Tancredo Neves, não assinaram a Constituição.

Eles sempre fizeram uma política purista e hoje você tá vendo o que tá virando essa pureza toda. Pureza virou pó. Isso provoca um desencantamento mesmo naqueles não tendo sido do PT, petistas, eles acreditavam que o PT apresentava um projeto diferente, e que se desse certo poderia ser um projeto de futuro pro país.

Agora o PT negocia também, é mais um partido a negociar, uma bancada infindável de partidos.

Mas eu acho que não é porque o PT virou isso que a gente vai abandonar a política. Vamos buscar outros vieses, outras alternativas, vamos buscar outras formas de fazer política e outras formas de agir dentro da política.

Você acha que podemos nos espelhar nos exemplos latino­americanos?

Ninguém tem respostas. Hoje ninguém tem respostas. A gente não deve se espelhar em modelo nenhum, acho que devemos construir o próprio modelo. Você hoje não tem mais modelo, tem ações. Não dá pra dizer que o Maduro é igual ao Chavéz. O Raul não é igual ao Fidel, o país hoje é outro.

O carisma de um e o de outro não é o mesmo. O Evo Morales não é igual a eles. O mais interessante deles todos é o Pepe Mujica. Agora também não é o modelo, Uruguai é um país pequenininho, é um país onde você resolve os problemas de outra forma.

A maior massa da população uruguaia sempre foi urbana, o campo sempre foi vazio. Quando se chegou lá nos anos 60 querendo fazer um foco guerrilheiro, perguntaram: com bois e vacas? Você não tem camponeses na quantidade que tinha em Cuba.

Você não imita o modelo, acho que a gente tem que procurar construir o nosso próprio modelo. Um modelo que tem que ser não só avançado como original. Você volta no velho Jango e vai ver que propõe reforma agrária, reforma urbana, controle da remessa de lucros. Foi um governo nacionalista. A reforma agrária do Jango não era estatizante, ela criava o pequeno proprietário rural, e é um bom modelo a seguir. É só o país retomar a rota.


Esse novo modelo necessariamente passa pela agroecologia?

Não tem sentido você construir uma economia baseada na destruição da natureza. Isso não é economia, isso é catástrofe. Você criar um modelo econômico perverso, isso não é o país que a gente está construindo, isso é a barbárie.

Então eu acho que a agroecologia é fundamental como forma de produção econômica, social e de desenvolvimento. Eu tenho plena convicção que estamos fazendo o filme certo no caminho certo. Estamos no momento que a gente vai de alguma maneira poder colaborar com este debate, e estou muito feliz por isso.

Na abertura que no filme passado eram 20 entidades que assinavam e hoje você tem 80, é mostrar que há gente no Brasil preocupada com esse projeto, que nós não estamos sós, e um filme como esse é um filme agregador.

Nós estamos em um momento de descomemoração dos 50 anos do golpe, mas também estamos num momento de projeção dos próximos 50, 100 anos. E é isso que motiva esse movimento. O que nos interessa é discutir o passado pra não repeti­-lo. A gente fala do passado, mas está ancorado no futuro. (Com o Brasil de Fato)