quarta-feira, 23 de julho de 2014

Gaza: o genocídio e suas (des)razões

                                                             

Atilio A. Boron [*]

Gaza em chamas. Em meio do espanto e do banho de sangue que inunda Gaza ouve-se uma voz, metálica, glacial. Pronuncia um solilóquio semelhante ao que William Shakespeare, na sua obra Henrique VI, pôs na boca de Ricardo, um ser disforme, monstruoso, mas aguilhoado por uma ambição ilimitada e orgulhoso da sua vilania: 

"Sou o espírito do estado de Israel. Sim, agrido, destruo e assassino impunemente: crianças, anciãos, mulheres, homens. Porque em Gaza são todos terroristas, para além das suas aparências. Um dos hierarcas da ditadura genocida na Argentina, o general Ibérico Saint Jean , disse que "Primeiro vamos matar todos os subversivos, depois seus colaboradores, depois os indiferente e por último os tímidos". 

Nós invertemos essa sequência e começámos pela população civil, gente cujo crime é viver em Gaza. No processo cairão centenas de inocentes, gente que simplesmente tentava sobreviver nesse confinamento nauseabundo; a seguir iremos aos tímidos, os indiferentes e depois deste brutal e instrutivo escarmento chegaremos aos colaboradores e aos terroristas. 

Sei muito bem que o rudimentar e escasso armamento do Hamas só nos pode provocar um arranhão, como demonstram as estatísticas fúnebres dos nossos ataques periódicos às populações palestinas. Suas ameaças de destruir o estado de Israel são fanfarronadas sem sentido porque não têm a menor capacidade de levá-las à prática.

Mas são-nos de enorme utilidade na guerra psicológica e na propaganda: servem-nos para aterrorizar nossa própria população e obter assim seu consentimento para o genocídio e a nossa política de ocupação militar dos territórios palestinos. E também servem para que os Estados Unidos e os países europeus, embarcados na "luta contra o terrorismo", nos facilitem todo tipo de armamentos e nos amparem politicamente. 

Em Gaza não enfrento nenhum exército, porque não lhes permitimos que o tenham. Eu, em contrapartida, tenho um dos melhores do mundo, apetrechado com a mais refinada tecnologia bélica proporcionada pelos meus protectores: Washington e as velhas potências coloniais europeias e aquela que pude desenvolver, graças a eles, dentro de Israel.

 Os palestinos tão pouco têm uma aviação para vigiar seu espaço aéreo, nem uma frota que proteja seu mar e suas praias. Meus drones e helicópteros sobrevoam Gaza sem temor e disparam seus mísseis sem se preocuparem com o fogo inimigo, porque não há fogo inimigo. Aperfeiçoámos, com as novas tecnologias bélicas, o que Hitler fez em Guernica. Sou amo e senhor de vidas e fazendas. Faço o que quero: posso bombardear casas, escolas, hospitais, o que me der na gana.

Meus poderosos amigos (e, sejamos honestos, cúmplices de todos os meus crimes) aceitarão qualquer atrocidade que decida perpetrar. Já o fizeram antes, em inúmeráveis ocasiões e não só connosco: fá-lo-ão quantas vezes for preciso. Sua má consciência ajuda-me: calaram envergonhadamente durante a Shoá, o sistemático genocídio perpetrado por Hitler contra os judeus perante a vista e a paciência de todo o mundo, desde o Papa Pio XII até Franklin D. Roosevelt e Winston Churchill.

Calarão também diante do genocídio que metodicamente por etapas estou a realizar em Gaza, porque matar palestinos impunemente é isso, genocídio. Como fazia Hitler quando alguém da sua tropa de ocupação era feito prisioneiro ou morto pelos maquis da resistência francesa ou pelos partisans espanhóis: juntavam dez ou quinze pessoas ao acaso, que tivessem a desgraça de passar pelo lugar, e metralhavam-nos no acto, como escarmento e como advertência didáctica para que seus vizinhos não cooperassem com os patriotas.

Nós nem sequer esperamos que matem um dos nossos para fazer o mesmo e fazemo-lo do modo mais covarde. Ao menos os nazis viam os rostos das vítimas cujas vidas cortariam em um segundo; nós não, porque disparamos mísseis a partir de aviões ou navios, ou projécteis a partir dos nossos tanques.

Inquieta-nos recordar que tanta crueldade, tanto horror, foi em vão. Seis milhões de judeus sacrificados nos fornos crematórios e milhões mais que caíram por toda a Europa não foram suficientes para evitar a derrota de Hitler. Será diferente desta vez, será que agora nosso horror nos abrirá o caminho para a vitória? 

Eufórica por ver tanto sangue árabe derramado uma das minhas deputadas extravasou e disse o que penso: que há que matar as mães palestinas porque engendram serpentes terroristas. Desgraçadamente nem todos em Israel pensam assim; há alguns judeus, românticos incuráveis, que acreditam que podemos conviver com os árabes e que a paz não só é possível como necessária. Dizem-nos que isso foi o que fizemos durante séculos. 

Não entendem o mundo de hoje, mortalmente ameaçado pelo terrorismo islâmico, e deixam-se levar pela nostalgia de uma época superada definitivamente. Não são poucos em Israel os que caem neste equívoco e preocupa-nos que seus números estejam em crescendo. Mas a partir do governo trabalhamos activamente para contrariar esse sentimentalismo pacifista e, para cúmulo, laico. Laico, num estado no qual para ser cidadão é preciso ser judeu (e temos cerca de 20% de árabes, que viveram na região durante séculos e não são cidadãos) e onde não existe o matrimónio civil, só o religioso! 
                                        

Pedagogia nazi-sionista. Para combater estas atitudes contamos com os grandes meios de comunicação (os de Israel e os de fora) e nossas escolas ensinam nossas crianças a odiar nossos indesejáveis vizinhos, uma raça desprezível. Para envolve-los no nosso esforços militar os convidamos a escreverem mensagens de morte nos mísseis que, pouco depois, lançaremos contra essa gentalha amontoada em Gaza. 

Outras crianças serão as que cairão mortas por esses mísseis amorosamente dedicados pelos nossos. 

Não ignoro que com minhas acções lanço uma asquerosa escarrada à grande tradição humanista do povo judeu, que arranca com os profetas bíblicos, continua com Moisés, Abraão, Jesus Cristo e passa por Avicena, Maimónides, Baruch, Spinoza, Sigmund Freud, Albert Einstein, Martin Buber até chegar a Erich Fromm, Claude Levy-Strauss, Hannah Arendt e Noam Chomsky.

Ou com judeus extraordinários que enriqueceram o acervo cultural da Argentina como León Rozitchner, Juan Gelman, Alberto Szpunberg e Daniel Barenboim, entre tantos outros que seria muito longo enumerar aqui. Mas esse romantismo já não conta. Deixámos de ser um povo perseguido e oprimido; agora somos opressores e perseguidores. 

Utilizam-se duras palavras e frases para qualificar o que estamos a fazer. Covardia criminosa, delito de lesa humanidade, por agredir com armas mortíferas uma população indefesa, dia e noite, hora após hora. Mas por acaso não merece a mesma qualificação o que fizeram os Estados Unidos ao lançar bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki? E quem os reprova? Terrorismo de Estado? 

Digamos antes realpolitik, porque desde quando meus e amigos e protectores do Ocidente se preocuparam com o Terrorismo de Estado ou as violações dos Direitos Humanos que eles mesmo cometem, ou um aliado ou peão? Apoiaram durante décadas quantos déspotas e tiranos povoaram esta terra, sempre que fossem funcionais aos seus interesses: Saddam Hussein, Xá da Pérsi, Mubarak, Ali, Mobutu, Osama Bin Laden.

E, na América Latina, Videla, Pinochet, Geisel, Garrastazú, Stroessner, "Papa Doc" Duvallier, Somoza, Trujillo, Batista e muitíssimos mais. Assassinaram centenas de líderes políticos anti-imperialistas e Obama continua a fazê-lo ainda hoje, onde todas as terças-feiras decide quem da lista de inimigos dos Estados Unidos, que lhe é apresentada pela NSA, deve ser eliminado com um míssil disparado de um drone ou mediante uma operação de comandos. 

Por que haveriam de se escandalizar com o que está a acontecer em Gaza? Além disso precisam de mim como gendarme regional e base de operações militares e de espionagem numa região do mundo com tanto petróleo como o Médio Oriente – e sabem que para cumprir com essa missão não só não devem manietar-me como é preciso contar com seu inquebrantável apoio, o que até agora jamais me foi negado. 
                                                                 
Sei também que estou a violar a legalidade internacional, que estou a desobedecer a resolução nº 242, Novembro de 1967, do Conselho de Segurança da ONU, que por unanimidade exige que me retire dos territórios ocupados durante a Guerra dos Seis Dias de 1967. Não cumpri essa resolução durante quase meio século, sem ter de enfrentar sanções de nenhum tipo como as que arbitrariamente se impõem a outros, ou as que aplicam a Cuba, Venezuela, Irão e, antes, ao Iraque depois da primeira guerra do Golfo. Razões desta tolerância? 

Meus lobistas nos Estados Unidos são poderosíssimos e têm um punho na Casa Branca, no Congresso e na Justiça. Segundo Norman Finkelstein (um mau judeu, inimigo do estado de Israel) a indústria do holocausto goza de tal eficácia extorsiva que impede perceber que quem agora está a produzir um novo holocausto somos nós, os filhos e netos daqueles que padeceram sob os nazis. 

Por isso, apesar de as vítimas mortais em Gaza já superarem os 500 palestinos (contra 25 soldados do nosso exército, um dos quais foi morto por erro pelas nossas próprias forças, segundo informou esta segunda-feira 22 de Julho o New York Times ) o presidente Obama fez um apelo estúpido para evitar que israelenses e palestinos ficassem presos nos "fogo cruzado" desta confrontação. 

Pobre dele se houvesse dito que aqui não há "fogo cruzado" nem confrontação alguma e sim um massacre indiscriminado de palestinos, uma horrível "limpeza étnica" praticada contra uma população indefesa! Nosso lobby o crucificaria numa questão de horas! Agora que nossas tropas entraram em Gaza teremos que sofrer algumas baixas, mas a desproporção continuará a ser enorme. 

O esbulho da terra palestina. Claro, não posso evitar que me qualifiquem tecnicamente como um "estado canalha", porque assim se denominam os que não acatam as resoluções da ONU e persistem em cometer crimes de lesa humanidade. Mas como os Estados Unidos e o Reino Unido são violadores em série das resoluções da ONU, e portanto também eles "estados canalhas", seus governos foram invariavelmente solidários com Israel.

Para além da perturbação que por momentos possam ocasionar estas reflexões, precisamos completar a tarefa iniciada em 1948 e apoderar-nos da totalidade dos territórios palestinos: iremos deslocá-los periodicamente, aterrorizando-os, empurrando-os para fora das suas terras ancestrais, convertendo-os em eternos ocupantes de infectos campos de refugiados na Jordânia, na Síria, no Iraque, no Egipto, onde seja. E se resistirem os aniquilaremos.

Podemos fazer isso pela nossa esmagadora força militar, pelo apoio político do Ocidente e pela degradação e putrefacção dos corrupto e reaccionários governos do mundo árabe que, como era previsível (e assim nos haviam assegurado nossos amigos em Washington e Londres) não se importam minimamente com a sorte dos palestinos. 

A tal extremo chega nossa barbárie que até um amigo nosso, Mario Vargas Llosa, se escandalizou quando em 2005 visitou e Gaza e surpreendeu-nos com críticas de insólita ferocidade. Chegou a dizer, por exemplo: "Pergunto-me se algum país no mundo teria podido progredir e modernizar-se nas condições atrozes de existência da gente de Gaza. Ninguém me contou, não sou vítima de nenhum preconceito contra Israel, um país que sempre defendi ...

Eu vi com meus próprios olhos. E sinto-me enojado e sublevado pela miséria atroz, indescritível, em que mofam, sem trabalho, sem futuro, sem espaço vital, nas covas estreitas e imundas dos campos de refugiados ou nessas cidades apinhadas e cobertas pelo lixo, onde passeiam ratos à vista, essas famílias palestinas condenadas só a vegetar, a esperar que a morte venha por fim a essa existência sem esperança, de absoluta desumanidade, que é a sua. 

São esses pobres infelizes, crianças e velho e jovens, privados já de tudo o faz humana a vida, condenados a uma agonia tão injusta e tão larvar como a dos judeus nos guetos da Europa nazi, os que estão agora a ser massacrados pelos caças e os tanques de Israel, sem que isso sirva para aproximar um milímetro a ansiada paz. Pelo contrário, os cadáveres e rios de sangue destes dias só servirão para afastá-la e levantar novos obstáculos e semear mais ressentimento e raiva no caminho da negociação" [1] 

Mas nada do que diga Vargas Llosa, e tantos outros, nos fará mossa: somos o povo eleito por Deus (ainda que os iludidos estado-unidenses também acreditem nisso), uma raça superior e os árabes são uma pestilência que deve ser removida da face da terra. Por isso construímos esse gigantesco muro na Cisjordânia, ainda pior do que erigiram em Berlim e que foi apropriadamente caracterizado como o "muro da infâmia". 

Nossos lobbies foram muito eficazes ao tornar invisível esta monstruosidade e ninguém fala do nosso "muro da infâmia". Reconheço que nossa traição aos ideais do judaísmo nos inquieta. Não era isto o que queriam os pais fundadores. Convertemo-nos numa máquina de usurpação e despojamento colonial que já não mantém nenhuma relação com nossa venerável tradição cultural. Alguns dizem que Israel é o judaísmo como Hitler era o cristianismo. 

Por isso é que por vezes nosso sonho é perturbado e as mortes e sofrimentos que causámos durante tanto anos – e que para sermos sinceros começaram muito antes de nascer o Hamas – acossam-nos como o fantasma de Hamlet. 

Mas retrocedemos horrorizados diante da possibilidade de uma paz que não queremos porque perderíamos os territórios arrebatados durante tantos anos, encorajaríamos a turbamulta árabe que nos rodeia e faríamos perder milhares de milhões de dólares aos nossos amigos do complexo militar-industrial estado-unidense, que é o verdadeiro poder nesse país, assim como aos seus sócios israelenses que também lucram com este estado de hostilidades permanentes. Por isso continuaremos nesta guerra até o fim, ainda que com os riscos que esta atitude possa desencadear.
                                                           
                                                 Mortes em 2014.

Ver também: 
Carta aberta ao Governo Português sobre a ofensiva israelita contra o povo palestino 
International Scientists and Doctors Denounce Israeli "Crimes Against Humanity" in Gaza 

[*] Sociólogo, argentino. 

O original encontra-se em www.resumenlatinoamericano.org 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Um crime de guerra

                                                  
Hikmat Ajjur (*)

Publicamos como Documento este texto do Embaixador da Palestina no nosso país. Publicado há apenas 5 dias num jornal diário, os números que refere das vítimas da presente ofensiva israelita estão já distantes da realidade actual.

Há dois dias o número de mortos ultrapassava o meio milhar, 75% dos quais civis. Em cada 5 mortos, um é uma criança. A barbaridade do massacre perpetrado pela nova ofensiva do exército sionista não conhece limites. 

O país que tanto evoca a “solução final” hitleriana de que o seu povo foi alvo age como se a “solução final” para a situação na Palestina residisse no genocídio do povo palestiniano, que leva a cabo com a cumplicidade e o apoio do imperialismo.

É necessária a mais combativa solidariedade com o povo palestiniano, é urgente deter a acção criminosa de um Estado racista, fascitizante e terrorista cuja impunidade constitui uma afronta aos povos de todo o mundo.


Imagens terríveis chegam de Gaza todos os dias desde que Israel começou o genocídio de palestinianos na Faixa de Gaza. Partes de corpos humanos, cabeças divididas a meio, mãe morta com filho bebé abraçados e famílias inteiras enterradas sob os telhados depois de terem sido bombardeadas pelos aviões militares israelitas, navios de guerra e tanques.

Esta desproporcionalidade da força israelita é, só por si, um crime de guerra, de acordo com a lei da guerra. Se estes crimes tivessem sido perpetrados por qualquer outra força que não a da ocupação israelita, não há dúvida de que a reacção da comunidade internacional teria sido obviamente diferente.

Neste contexto, emergem duas questões legítimas. A primeira é: poderá alguém, com senso de humanidade, justificar este genocídio em Gaza às mãos do ocupante contra o ocupado? A segunda é: não será este assassinato constante dos palestinianos inocentes – enfrentado por um silêncio vergonhoso da comunidade internacional em favor de Israel – o que terá alimentado a criação do radicalismo islâmico?

Ironicamente, os Estados Unidos, e os seus aliados que aceitam a mentira israelita da autodefesa, já no passado tinham pago um preço muito caro, não apenas com o dinheiro dos seus contribuintes, mas também com as vidas dos seus jovens soldados, a fim de proteger o Direito Internacional e combater o terror. Desde o acordo de Oslo, Israel realizou muitas ofensivas desproporcionadas e destrutivas com impunidade, contra os palestinianos sob a ocupação, propositadamente para proteger a sua natureza racial e a sua ocupação, e não para se autodefender.

Um analista político israelita de renome argumentou num artigo publicado no Ha’aretz em Julho de 2006: “Se os habitantes de Gaza estivessem sentados em silêncio, como Israel esperava que o fizessem, o seu caso iria desaparecer da agenda - [aqui] e em todo o mundo. Israel vai continuar com a convergência, que é utilizada apenas para servir os seus objectivos, ignorando as necessidades deles. 

Ninguém teria dado qualquer atenção ao destino do povo de Gaza, se eles não tivessem reagido violentamente. Está é uma verdade muito amarga, mas os primeiros 20 anos de ocupação passaram tranquilamente e nós não levantámos um dedo para acabar com a mesma. Em vez disso, sob a cobertura da calma, construímos um enorme empreendimento de colonização criminal. Com as nossas próprias mãos estamos agora, mais uma vez, a empurrar os palestinianos para utilizarem as suas armas banais e, em resposta, empregamos quase todo o enorme arsenal que está à nossa disposição, e continuamos a queixar-nos: “Foram eles que começaram.”

Felicito a iniciativa egípcia para o cessar-fogo – como fiz há dois anos – como meio para acabar com este crime de Israel e para salvar vidas de civis. O bombardeamento israelita das casas de Gaza e da sua infraestrutura resultou na morte de 205 civis, 1500 feridos, cuja esmagadora maioria eram civis inocentes, e 600 casas bombardeadas e destruídas completamente.

Isto dá-me coragem de dizer que um cessar-fogo, sem qualquer solução política, será apenas um time-out para mais uma ofensiva israelita a fim de restaurar a invencibilidade do seu Exército, porque Israel tem vindo a escolher sobreviver através do ataque e da intimidação dos seus vizinhos, uma vez que considera isto necessário para satisfazer as suas necessidades políticas e sociais nacionais. Isto explica por que Israel continuou a ignorar as dezenas de resoluções da ONU, que pedem para retirar as forças israelitas dos territórios ocupados e para congelar a mudança de factos no terreno, como a construção de colonatos e a transferência dos seus colonos para viverem, ilegalmente, lá.

Israel levou as suas acções ilegais, com impunidade, muito longe, resultando no apoio norte-americano incondicional. Até agora, os Estados Unidos têm exercido o seu direito de veto 42 vezes, a fim de proteger Israel e as suas acções ilegais. A paz é preciosa demais para ser deixada nas mãos da liderança política israelita, que simplesmente se preocupa muito mais com eleições do que com as gerações futuras. Todas as ofensivas anteriores realizadas contra o povo da Plaestina e do Líbano foram numa altura próxima de eleições gerais israelitas.

Está na hora de a comunidade internacional perceber que a justiça é a melhor “retaliação” para os palestinianos que apelaram constantemente para a liberdade política do cativeiro e escravidão da única ocupação militar remanescente na face do globo nos dias de hoje: a ocupação israelita do Estado da Palestina. As negociações com base nas condições actuais de “pegar ou largar” nunca vão resultar numa solução pacífica na Terra Santa.

Todos nós, palestinianos, incluindo o Hamas, aspiramos viver com dignidade no nosso próprio país soberano, lado a lado com o Estado de Israel. É dever da comunidade internacional impor a solução de dois Estados que defende. Caso contrário, o radicalismo, com as suas ferramentas destrutivas, será a única língua falada no Médio Oriente e, com certeza, além.

(*)Embaixador da Palestina em Portugal

Artigo publicado no “Público” 18.07.2014

Delegado afirma ter executado seis ou sete pessoas a mando da repressão e que incinerou outros 13. No depoimento de hoje Claudio Guerra poderá abordar a morte do líder sindical Nestor Veras


                                                             


Ex-delegado do DOPS do Espírito Santo, que afirma ter executado 6 ou 7 pessoas a mando da repressão, e incinerado os corpos de outras 13, prestou depoimento à CNV

Em depoimento prestado à Comissão Nacional da Verdade nesta quarta-feira (23/07), o ex-delegado do DOPS do Espírito Santo, Cláudio Guerra, afirmou que o coronel Freddie Perdigão Pereira, morto em 1998, que atuou no Doi-Codi de São Paulo e na Casa da Morte de Petrópolis, e coordenou o atentado do Riocentro, provocou o acidente que resultou na morte da estilista Zuzu Angel, em abril de 1976.

Zuzu era mãe do desaparecido Stuart Angel e mobilizou a opinião pública nacional e estrangeira em busca de seu filho. A repercussão do caso prejudicou a imagem do regime militar no exterior.

"Éramos confidentes, frequentávamos a casa um do outro. Um dia ele me disse que havia planejado simular o acidente dela e estava preocupado pois achava que havia sido fotografado na cena do crime pela perícia", afirmou o delegado ao coordenador da Comissão, Pedro Dallari, e aos membros da CNV José Carlos Dias e Paulo Sérgio Pinheiro, que colheram seu depoimento, que foi aberto e realizado perante jornalistas.

Guerra foi condenado e cumpriu pena por três tentativas de homicídio, resultantes de um atentado à bomba do qual participou nos anos 80 no Espírito Santo. Na cadeia converteu-se ao cristianismo, tornou-se pastor da Assembleia de Deus e afirma querer fazer sua parte "para que uma página triste de nossa história seja passada a limpo".

Em seu depoimento, Guerra afirmou que incinerou os corpos de 12 militantes políticos e que assassinou e incinerou em seguida um tenente de nome Odilon, numa "queima de arquivo determinada pelo SNI". 

O ex-delegado contou também que executou, a pedido do Serviço Nacional de Informações, três militantes em São Paulo, um em Recife e "dois ou três" no Rio. "Se cumprisse pena por tudo o que fiz nunca iria sair da cadeia", afirmou.

Ele já havia prestado três depoimentos reservados à CNV, mas ontem foi questionado sobre questões específicas relativas aos casos em que esteve envolvido diretamente ou dos quais teve conhecimento. Ele indicou nomes de outras pessoas e testemunhas que poderão ser ouvidos pela CNV em diferentes Estados e que poderão ajudar a elucidar ou trazer mais informações sobre os casos investigados.

Perguntado sobre qual o motivo de um delegado de outro Estado ser chamado para executar militantes políticos perseguidos em outros locais, Guerra, que afirma ter aprendido técnicas de tiro com um ex-agente do Mossad (serviço secreto israelense), afirmou que a técnica era uma medida previamente estabelecida pela repressão para não vincular autoridades locais aos assassinatos praticados pela ditadura. Ele admitiu, por exemplo, que no caso de pelo menos uma das pessoas que ele matou, as autoridades simularam depois que houve um tiroteio.

POLÍTICA DE ESTADO

Na avaliação do coordenador da CNV, Pedro Dallari, os principais pontos do depoimento de Guerra foram a indicação da participação de Freddie Perdigão Pereira na morte de Zuzu Angel, já reconhecida pelo Estado como uma morte relacionada à sua militância, mas cujo assassinato jamais foi admitido por agentes da repressão, e o fato de o depoimento trazer elementos que mostram as graves violações de direitos humanos de oposicionistas do regime como uma política de Estado da ditadura.

"O relato do ex-delegado mostra que haviam ações e estratégias para a prática de graves violações de direitos humanos, como uma política pública, não como excessos de alguns agentes como sempre a ditadura quis fazer crer. Executores remanejados de um lugar para outro para eliminar as vítimas e a logística para eliminação de corpos são elementos que ajudam nessa conclusão", afirmou Dallari.

Hoje (24/07), a CNV reúne-se com Cláudio Guerra para colher mais dados e nomes das pessoas por ele indicadas e para aprofundar algumas informações sobre detalhes dos crimes que ele cometeu. "A partir das informações que ele vai prestar seguiremos as pistas e vamos deslocar assessores para ouvir pessoas no Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo", afirmou o membro da CNV José Carlos Dias.

O arquivo da transmissão ao vivo do depoimento de Cláudio Guerra estará disponível nas próximas horas no histórico de transmissões ao vivo via-celular realizadas pela CNV: http://us.twitcasting.tv/cnv_brasil/show/

terça-feira, 22 de julho de 2014

Presos políticos no Brasil: quem não deve, teme

                                                       

 A advogada e ativista pelos direitos humanos Eloísa Samy, uma das perseguidas pela farsa jurídica que foi montada, refugiou-se no consulado uruguaio, localizado no Rio de Janeiro, para pedir asilo ao país governado por Pepe Mujica.



Carolina Peters (*) 

Aos que passaram as últimas horas sem contato com o mundo virtual, três ativistas cariocas, "foragidos da justiça", encontram-se no consulado uruguaio no Rio de Janeiro, pedindo asilo ao país vizinho

São três entre uns tantos ativistas que tiveram prisão decretada às vésperas da final da copa sob as acusações as mais esdrúxulas, as que incluem associação criminosa e formação de quadrilha entre desconhecidos e a possibilidade de cometer um crime (que agora diz-se tratar do incêndio da Câmara de vereadores do Rio, segundo supostos depoimentos concedidos por supostas testemunhas em supostas gravações de áudio), previsto antes que sequer talvez acontecesse pela habilidosa e clarividente polícia, possivelmente contando com a ajuda dos astrólogos – ou donos? - de jornais de grande circulação, se quiserem meu palpite.

São estudantes, acadêmicos, advogados ativistas que cometeram o gravíssimo delito de exercer seu direito democrático à manifestação. Presos políticos. E os que já levamos enquadro nos atos da vida sabemos bem que ainda que estejamos com material de primeiros socorros na mochila, ou sapato de oncinha nos pés, sair de nossas casas e ocupar democraticamente uma via pública pode nos levar para a DP.

Estamos em uma encalacrada: como abraçar com convicção a campanha #AceitaMujica? Quão desesperador não é admitir para o mundo inteiro através de uma hashtag que, passados 50 anos do golpe civil-militar que privou o povo brasileiro da democracia, tenhamos aprendido tão pouco.

Que tenhamos retrocedido tanto na luta pela ampliação dos direitos sociais e políticos e da participação popular na vida pública do país a ponto de indivíduos creditarem sua segurança a outro país, se privando de continuar suas lutas aqui, pois não há perspectiva de um julgamento justo (visto que já não houve acusação justa), apenas a perspectiva de ser esquecido pelo sistema judiciário como Fábio Hideki, o pacifista, no presídio de Tremembé.

Em qualquer circunstância, não tem nada mais difícil do que se provar inocente. Quem teve um irmão ou irmã arteiro e bom de conversa sabe. Quem já enfrentou um processo qualquer na justiça tendo razão, bom advogado e a lei amparando e perdeu, em várias instâncias, também. Meu pai sempre me disse: quem não deve é que precisa temer. Porque o malfeito produz provas, a inocência não. Por isso é necessário pressupor a inocência do réu, mas parece que esta premissa para alguns bastante lógica não é corrente.

Às vezes, a história parece um oroboro incapaz de digerir qualquer lição na cauda de passado que engole. Em linguagem mais popular, é nosso constante 7 x 1, goleada do autoritarismo sobre o exercício da democracia. Mas diferente da seleção, travamos uma batalha mais altiva, embora a ginga e raça de nosso time leve franca desvantagem diante do robusto aparato repressor. Boa sorte a esses e tantos lutadores, e que sejam acolhidos pelos uruguaios. Sorte, porque com a justiça brasileira está difícil de contar.



(*) Carolina Peters é estudante de Letras e militante do PSOL. (Com o Diário Liberdade)

"Brasil de Fato" aborda Os EUA e a Operação Condor: "o maldito jogo de xadrez da morte"


                                                                  

                                                                    Latuff

                                                      
Livro Os anos do lobo, da premiada escritora e jornalista argentina Stella Calloni, revela “a conspiração assassina” contra a democracia na região


Leonardo Wexell Severo


“A Operação Condor foi uma conspiração assassina entre serviços de segurança da Argentina, Chile, Brasil, Paraguai, Uruguai e Bolívia, destinada a rastrear e eliminar adversários políticos sem preocupar-se com as fronteiras ou os limites. Operação Condor era o código para aquela multinacional do crime, cuja origem estava nas imensas oficinas da Agência Central de Inteligência (CIA) e do Burô Federal de Investigação (FBI), nos Estados Unidos”. 

O “maldito jogo de xadrez da morte” foi descrito pela premiada escritora e jornalista argentina Stella Calloni em seu livro Os anos do lobo – Operação Condor (Peña Lillo – Ediciones Continente, Buenos Aires, 1999), no qual expõe “a política exterior de Washington em carne viva”. 

Prefaciada por Adolfo Pérez Esquivel, prêmio Nobel da Paz de 1980, a obra descreve com riqueza de detalhes o envolvimento dos Estados Unidos na sequência de golpes, particularmente no Cone Sul. 

No ano em que se completam 50 anos da derrubada do governo de João Goulart, a publicação é mais do que um estímulo à reflexão sobre os interesses geopolíticos do imperialismo e das suas transnacionais. 

De acordo com Stella, “os EUA proporcionaram inspiração, financiamento e assistência técnica à repressão e podem haver plantado as sementes da Operação Condor. A CIA promoveu uma maior coordenação entre os serviços de Inteligência da região. 

Um historiador estadunidense atribui a uma operação da CIA a organização das primeiras reuniões entre funcionários de segurança uruguaios e argentinos para vigiar os exilados políticos. A CIA também atuou como intermediária nas reuniões entre os dirigentes dos esquadrões da morte brasileiros, argentinos e uruguaios”. 

Porém, assegura a autora, “os Estados Unidos fizeram mais do que organizar os encontros: a equipe de serviços técnicos da CIA subministrou equipamentos de tortura elétrica a brasileiros e argentinos e ofereceu assessoramento sobre o grau de choques que o corpo humano poderia resistir”. Afinal, conforme advertiam os professores dos torturadores: “o ser vivo pode dar informação e um cadáver não”. 

“Os agentes de segurança latino-americanos também receberam treinamento da CIA quanto à fabricação de bombas, na sede da Oficina de Segurança Pública do Departamento de Estado do Texas”, informa ainda Stella. 

O alerta de Perón

“As mãos dos Estados Unidos estão manchadas com o sangue de milhares de latino-americanos caídos na luta pela liberdade e independência”, já alertava o líder argentino Juan Domingo Perón, ressaltando que “se equivocam os que afirmam a respeito dos EUA que estamos vivendo um período de calma”. 

“Que calma é esta quando estão realizando todo tipo de atividades secretas, suborno de políticos e funcionários governamentais, assassinatos políticos, atos de sabotagem, fomento do mercado negro e penetração em todas as esferas da vida política econômica e social? Sobre nossos países voam aviões militares dos Estados Unidos enquanto nosso solo permanece em poder de seus monopólios, com bases militares”, denunciava Perón. 

Naquele início dos anos de 1970, enquanto organizava a implementação da política de terrorismo de Estado dos EUA – chamadas candidamente de “ações encobertas” – contra o governo de Salvador Allende, no Chile, o diretor da CIA, Richard Helms, abriu o jogo: “É imperativo que estas ações se implementem clandestinamente e com segurança, de maneira que a mão estadunidense e seu governo permaneçam bem ocultos”. 

Arquivos do horror

A maior parte das informações sobre a Operação Condor veio dos “Arquivos do Horror”, descobertos pelo professor e escritor paraguaio Martin Almada, no dia 7 de dezembro de 1992, em uma delegacia de polícia de Assunção. Preso e torturado durante três anos, exilado por 15 anos, Almada teve sua mulher morta pela ditadura de Stroessner. 

Stella repercute as palavras de Almada: “Ali estavam as gravações de meus próprios gritos, quando me torturavam, que fizeram escutar a minha esposa Celestina, que morreu do coração ao não poder resistir àquela tortura psicológica”. 

Os documentos encontrados por Almada eram arquivos, correspondências, livros de entradas e saídas de prisioneiros, controle de fronteiras, cartas e informes entre os ditadores, os chefes militares e de segurança dos países da região, fotografias, fitas cassete, vídeos, fichas de ‘colaboradores especiais’, dados de ‘agentes especiais’ e até mesmo correspondências trocadas por Stroessner com o alto mando militar. Na luta para passar uma borracha em passado tão comprometedor, assegura Stella, “os mesmos interesses que possibilitaram o crime se encarregaram de minimizar o valor documental do achado”. 

Entre outras provas desta “corporação internacional da morte”, como foi reconhecida pelo The  Washington Post, encontram- se “cartas do coronel Robert Scherrer, do Burô de Investigações dos Estados Unidos, dirigidas a funcionários de Stroessner desde a sede diplomática em Buenos Aires”. Elas confirmavam que este era um “homem-chave”, e que sabia muito bem o que significava a Operação Condor. “Mais ainda, alimentava com informes e solicitações de informes os criminosos, assim como outros funcionários estadunidenses e de distintos países.” 

                                         
Os anos do lobo: os interesses geopolíticos do imperialismo e das suas transnacionais. Foto: Reprodução. 

   
Roda da morte

Não restam dúvidas, esclarece a escritora, que foi no ano de 1974 que a roda da morte começou o seu giro mais “espetacular”, “pela transcendência política das vítimas”. 

Em 30 de setembro de 1974, o general chileno Carlos Prats, que, entre outros cargos, havia sido ministro de Defesa de Allende, e que estava exilado na Argentina, foi assassinado junto a sua esposa, Sofia Cuthbert, em Buenos Aires. Uma bomba estourou embaixo de seu automóvel quando regressava de uma reunião com amigos. 

Em 19 de dezembro de 1974 foi assassinado em Paris, França, o coronel uruguaio Ramón Trabal, que não se mostrou disposto a participar no mais obscuro da repressão no seu país. Trabal havia confessado suas simpatias pelo movimento dos militares de esquerda em Portugal e pelos setores progressistas em seu país. 

“Porém, na realidade, foi o assassinato de Orlando Letelier, ex-ministro da Defesa e embaixador do Chile, em setembro de 1976, em Washington, no chamado ‘Bairro das Embaixadas’, que pôs em evidência a Operação Condor. Uma bomba colocada – como se demonstraria logo – por um grupo operativo do qual participavam Michael Towley (ex-agente da CIA), enviados especiais da ditadura chilena e terroristas cubanos anticastristas matou Letelier e sua ajudante Ronni Moffit.” 

Um dos casos que tiveram mais “difusão pública”, recorda a escritora, foi o do sequestro dos uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Diaz e seus dois filhos, Camilo, de oito anos, e Francesca, de três, em 12 de novembro de 1978, em Porto Alegre. 

“Nesta operação, participaram um grupo de contrainformação da ditadura uruguaia e do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) do Brasil, que tiveram sob sua responsabilidade o sequestro e a entrega a seus colegas do Uruguai”, relata Stella. 

Após ser torturado na sede do DOPS da capital gaúcha e nos quartéis de Montevidéu, o casal ficou preso cinco anos sob a mentirosa acusação de que tentou entrar no Uruguai “portando armamentos, documentos falsos e propaganda subversiva”. Os filhos só não tiveram o mesmo final trágico de outras centenas de crianças, arrancadas das famílias para serem criadas pelos algozes de seus pais e de seu país, porque um telefonema anônimo levou jornalistas a denunciarem o caso, que logo ganhou repercussão internacional. 

Após serem libertados em 1983, antes mesmo da queda da ditadura uruguaia, Lilian e Universindo se adiantaram a denunciar a barbárie. Entre as ações assassinas, Lilian citou os “voos da morte” nos quais os fascistas descartavam os patriotas. 

Da mesma forma, lembra Stella Calloni, pairam fortes suspeitas sobre a participação da “Condor” nas “catástrofes aéreas” que custaram a vida, em 1981, do presidente do Equador Jaime Roldós – que se opunha às petroleiras estadunidenses – e do líder da revolução panamenha Omar Torrijos, que garantiu a retomada do Canal. 

Manipulação midiática

O papel dos grandes conglomerados midiáticos na derrocada das democracias da região, via fabricação da “opinião pública” para justificar “intervenções”, é bem lembrado ao longo da obra. 

“A operação contra o Chile tem sido básica para analisar a importância da manipulação dos meios de comunicação para fins de desestabilização e guerra”, descreve Stela. 

Nesse sentido, a escritora cita o sociólogo estadunidense Fred Landis, que analisou o papel da CIA sobre a mídia contra Allende, apontando a escolha pelo Comitê de Inteligência do Senado dos EUA, já em 1974 – isto é, um ano após o golpe no Chile –, para um estudo em que, “pela primeira vez, um governo estadunidense dava caráter oficial a um informe sobre atividades secretas da Agência Central de Inteligência dos EUA”.

Diante da sequência de crimes, Perón lembrava que “cada vacilação, cada dia perdido, cada passo atrás na luta contra a penetração imperialista” representava “um êxito para aqueles que descaradamente seguem explorando nossa riqueza, enriquecendo-se até com o nosso sangue e nossa grandeza espiritual”.

Quanto a cifras exatas do genocídio, Stela responde que, “ainda que resulte doloroso fazer uma soma nessas circunstâncias, podemos chegar à conclusão que mais de 400 mil latino-americanos foram vítimas de uma política de Estado terrorista, cuja base foi desenhada em Washington”. (Com o Brasil de Fato)

SETE PRÊMIOS NOBEL DA PAZ PEDEM EMBARGO DE ARMAS A ISRAEL




 Apelo de personalidades inclui também cineastas, jornalistas, realizadores de cinema, filósofos, académicos e denuncia a ajuda militar dos EUA e a cumplicidade da União Europeia, que promove o comércio e a cooperação militares.

Eis a versão resumida do apelo, publicada no The Guardian de 19 de julho

Israel desencadeou mais uma vez toda a força do seu poderio militar contra a população palestiniana cativa, particularmente na sitiada Faixa de Gaza, num ato de agressão militar ilegal e desumano. 

A capacidade de Israel de realizar esses devastadores ataques com impunidade deriva em grande parte da vasta cooperação militar internacional e do comércio que mantém com governos cúmplices em todo o mundo. 

No período de 2008-19, os EUA têm previsto fornecer ajuda militar a Israel no valor de 30 mil milhões de dólares, enquanto as exportações militares anuais de Israel para o mundo atingiram milhares de milhões.

Em anos recentes, países europeus exportaram para Israel armas no valor de milhares de milhões de euros e a União Europeia financiou bolsas de investigação no valor de centenas de milhares de euros às empresas militares israelitas. 

Países emergentes como Índia, Brasil e Chile estão a aumentar rapidamente o seu comércio militar e cooperação com Israel, apesar das suas declarações de apoio aos direitos palestinianos. Ao importar e exportar armas para Israel e facilitar o desenvolvimento da tecnologia militar israelita, os governos estão de facto a enviar uma mensagem clara de que aprovam a agressão militar israelita, incluindo os seus crimes de guerra e possíveis crimes contra a humanidade.

A tecnologia militar israelita é propagandeada como “testada no terreno” e exportada por todo o mundo. O comércio militar e as relações de investigação na área militar com Israel ampliam a sua impunidade ao cometer graves violações da lei internacional e facilitam o reforço do sistema israelita de ocupação, colonização e rejeição sistemática dos direitos dos palestinianos.

Apelamos à ONU e aos governos de todo o mundo para que tomem passos imediatos no sentido de implementar um amplo embargo militar a Israel, legalmente obrigatório, semelhante ao imposto à África do Sul durante o apartheid.

Subscrevem: 

Adolfo Peres Esquivel Nobel da Paz, Argentina, Ahdaf Soueif autor, Egito/Reino Unido, Aki Olavi Kaurismäki realizador de cinema, Finlândia, Alice Walker escritora, EUA, Arcebispo Desmond Tutu Nobel da Paz, África do Sul, Betty Williams Nobel da Paz, Irlanda, Boots Riley rapper, poeta, produtor de arte, EUA, Brian Eno, músico, Reino Unido, Caryl Churchill dramaturga, Reino Unido, Chris Hedges jornalista, Prémio Pullitzer 2002, EUA, Cynthia McKinney política, ativista, EUA, David Palumbo-Liu académico, EUA, Etienne Balibar filósofo, França, Federico Mayor Zaragoza ex-diretor-geral da Unesco, Espanha, Felim Egan pintor, Irlanda, Frei Betto teólogo da libertação, Brasil, Gillian Slovo escritor, Reino Unido/África do Sul, Githa Hariharan escritora, Índia, Giulio Marcon deputado (SEL), Itália, Hilary Rose académica, Reino Unido, Ilan Pappe historiador, Israel, Ismail Coovadia ex-embaixador da África do Sul em Israel, James Kelman escritor, Escócia, Janne Teller escritora, Dinamarca, Jeremy Corbyn deputado (Labour), Reino Unido, Joanna Rajkowska artista, Polónia, Jody Williams Nobel da Paz, EUA, John Berger artista, Reino Unido, John Dugard ex-juiz do TPI, África do Sul, John McDonnell deputado (Labour), Reino Unido, John Pilger jornalista e realizador, Austrália, Judith Butler filósofa, EUA, Juliane House académica, Alemanha, Karma Nabulsi Universidade de Oxford, Reino Unido/Palestina, Ken Loach realizador de cinema, Reino Unido, Kool AD (Victor Vazquez) músico, EUA, Liz Lochhead poeta, Escócia, Reino Unido, Luisa Morgantini ex-vice-presidente do Parlamento Europeu, Itália, Mairead Maguire Nobel da Paz, Irlanda, Michael Mansfield advogado, Reino Unido, Michael Ondaatje autor, Canadá/Sri Lanka, Mike Leigh escritor e realizador, Reino Unido, Naomi Wallace dramaturga, guionista, poeta, EUA, Noam Chomsky académico, autor, EUA, Nurit Peled académica, Israel, Prabhat Patnaik economista, Índia, Przemyslaw Wielgosz editor-chefe do Le Monde Diplomatique, edição polaca, Polónia, Raja Shehadeh autor e advogado, Palestina, Rashid Khalidi académico, autor, Palestina/EUA, Richard Falk ex-relator especial da ONU para os territórios palestinianos ocupados, US, Rigoberta Menchú Nobel da Paz, Guatemala, Roger Waters músico, Reino Unido, Ronnie Kasrils ex-ministro, África do Sul, Rose Fenton diretor, Free Word Centre, Reino Unido, Sabrina Mahfouz autora, Reino Unido, Saleh Bakri ator, Palestina, Sir Geoffrey Bindman advogado, Reino Unido, Slavoj Zizek autor, Eslovénia, Steven Rose académico, Reino Unido, Tom Leonard escritor, Escócia, Tunde Adebimpe músico, EUA, Victoria Brittain jornalista, Reino Unido, Willie van Peer académico, Alemanha, Zwelinzima Vavi secretário-geral da Cosatu, África do Sul.

(Com o Diário Liberdade)

CNV ouve quatro agentes da repressão em Brasília




Até 1º de agosto, Comissão Nacional da Verdade pretende colher até 41 depoimentos no DF e no RJ; condução coercitiva poderá ser acionada em caso de falta injustificada; colegiado visitará embaixadora dos EUA

Começou ontem, em Brasília, o mutirão da Comissão Nacional da Verdade para a tomada de depoimentos de 41 agentes da repressão. Até sexta-feira (25/07) estão convocados 16 agentes para depor na sede da CNV, na capital federal. De 28 de julho a 1º de agosto, estão previstos mais 25 depoimentos no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro.

Dos cinco agentes convocados para ontem, quatro compareceram: Eudantes Rodrigues de Faria, Gerci Firmino da Silva, Jamiro Francisco de Paula e Deoclécio Paulo. Apenas Bolívar Mazon se ausentou. Ele encaminhou à CNV um atestado médico.

Faria, Silva e De Paula, ex-integrantes do Exército, atuaram na Operação Sucuri, uma ação de inteligência e infiltração realizada pela força em 1973 na região do Araguaia, antes das operações militares que dizimaram os participantes da guerrilha.

Em seus depoimentos, todos negaram a participação em combates com integrantes da guerrilha, e em prisões, tortura e mortes, afirmando que atuaram somente em ações de levantamento de informações, infiltrados como posseiros ou agentes de combate à malária.

Um dos depoentes, entretanto, admitiu que a Casa Azul, em Marabá, era local de prisão e interrogatórios. Os três, após servirem no Araguaia, atuaram no Serviço Nacional de Informações (SNI).

Deoclécio Paulo, militar do Exército, foi adido militar na Embaixada do Brasil, em Santiago. Depoimentos e documentos indicam que ele esteve no Estádio Nacional do Chile, onde foram presos, torturados e mortas pessoas presas logo após o golpe militar que derrubou o presidente Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973. No estádio também foram presos brasileiros, inclusive Vânio José de Matos, que morreu em consequências das torturas que sofreu. Paulo negou ter estado no Estádio.

Hoje à tarde (22/07), os depoimentos continuarão na CNV. Um dos depoentes convocados, o general reformado José Antonio Nogueira Belham, que comandou o Doi-Codi do Rio de Janeiro, informou à CNV que está na capital fluminense e sua convocação foi, então, redesignada para a semana que vem, no Rio.

CONDUÇÃO COERCITIVA - Após o término dos depoimentos, os membros da CNV que colheram os depoimentos, o coordenador, Pedro Dallari, José Carlos Dias, Paulo Sérgio Pinheiro e Rosa Cardoso, tiveram uma reunião de trabalho com o ministro da Justiça José Eduardo Cardozo para tratar da questão da condução coercitiva dos agentes públicos que faltaram reiteradamente ou sem justificativa às convocações da CNV.

Segundo Dallari, o ministro da Justiça afirmou que entende que a condução coercitiva de agentes convocados que faltam a depoimentos está em sintonia com a lei que criou a Comissão Nacional da Verdade e que aguardará os pedidos da CNV para acionar a Polícia Federal quando necessário.

Segundo Dallari, a CNV terminará essas suas semanas de coleta intensiva de depoimentos e fará um balanço dos casos, relatando ao Ministério da Justiça os casos em que será necessária a condução coercitiva.

AGENDA - Hoje (22/07), às 9h, Dallari e os demais membros da Comissão terão uma reunião para tratar do relatório final da Comissão. Em seguida, às 11h, os membros seguirão para uma reunião com a embaixadora dos EUA, Liliana Ayalde.

Na reunião com a embaixadora, a CNV agradecerá pelo conjunto de 43 documentos sobre a conjuntura brasileira, produzidos entre 1967 e 1977 pelo Departamento de Estado norte-americano, que foram entregues pelo vice-presidente Joe Biden em junho à presidenta Dilma Roussef .

Desse conjunto documental, 18 foram desclassificados em maio deste ano pela National Security Archives, instituição que administra o acervo de documentos americanos. Na reunião, a CNV pedirá a continuidade da cooperação entre os EUA e a CNV.

Copa, Olimpíadas, um jogo para poucos...

                                                                  

Adriano Belisário

Levantamento do Reportagem Pública mostra como as “quatro irmãs”, Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez, se revezam nos contratos para as grandes obras da Copa e Olimpíadas no Rio de Janeiro

Nas maiores intervenções urbanas no Rio de Janeiro em função da Copa e Olimpíadas mudam os objetivos das obras, os valores, os impactos e as suspeitas de ilegalidade na condução dos projetos. Só não mudam as empresas beneficiadas. Por meio de consórcios firmados entre si e com outras empresas, Odebrecht, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa e OAS se revezam nos dez maiores investimentos relacionados aos jogos.

De acordo com um levantamento feito pela reportagem, chega a quase R$ 30 bilhões o valor oficial das dez maiores obras. São elas: a Linha 4 do Metrô; a construção do Porto Maravilha; a reforma do Maracanã e entorno; os corredores expressos Transcarioca, Transolímpica e Transoeste; a Vila dos Atletas e o Parque Olímpico; o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT); e a Reabilitação Ambiental da Bacia de Jacarepaguá.Veja o infográfico interativo:

A Odebrecht é a grande campeã: está presente em oito dos dez projetos. Já a OAS e a Andrade Gutierrez dividem o segundo lugar, com participação em seis projetos cada uma. Em 7 dos 10 projetos a licitação foi ganha por consórcios com presença de duas ou mais das “quatro irmãs”, como são conhecidas. Em dois destes, a concorrência pública foi feita tendo apenas um consórcio na disputa.

Nem sempre a participação das “quatro irmãs” se dá diretamente através das construtoras. Participam também empresas controladas por elas como a CCR e a Invepar. Os acionistas da primeira são Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez, aliadas ao o Grupo Soares Penido (Serveng-Civilsan), com 17% de ações cada um. 

No Rio de Janeiro, a CCR detém o monopólio das travessias na Baía de Guanabara, administrando ao mesmo tempo os serviços das barcas e da Ponte Rio-Niterói. (As duas concessões responderam por quase 5% da receita operacional bruta da empresa, em 2013). 

A Odebrecht, que também era sócia na CCR, vendeu sua participação para criar sua própria empresa no ramo de mobilidade urbana, a Odebrecht Transport, que hoje administra o serviço de trens na região metropolitana do Rio de Janeiro através da Supervia. 

Já a gestão do metrô carioca fica por conta da Invepar, cujos controladores são a OAS e os fundos de pensão da Caixa Econômica (FUNCEF), Petrobras (PETROS) e o Fundo de Investimento em Ações do Banco do Brasil.

Dentre as obras para Copa e Olimpíadas levantadas pela reportagem, apenas a Reabilitação Ambiental da Bacia de Jacarepaguá é alvo de investigações oficiais sobre cartelização. Porém, para o economista Paulo Furquim, ex-conselheiro do Conselho Administrativo de Defesa Econômica(CADE), algumas características observadas nas licitações merecem a atenção das autoridades.

 “Estas situações com grandes projetos, formação de consórcios e vencedores que se alternam trazem evidências que mostram uma probabilidade não desprezível de existência de cartel. Evidências adicionais como superfaturamento são motivos suficientes para investigação. São certamente situações preocupantes, em que uma autoridade de concorrência deve colocar uma lupa e olhar com bastante cuidado”, afirma.

Na história recente dessas empresas acumulam-se obras que mereceram a atenção das autoridades – dentro e fora do pacote da Copa. Executivos da Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez já foram investigadas pelo Ministério Público de São Paulo no chamado “cartel do metrô”, que envolveria o acerto de preços para licitações de obras, fornecimento de carros e manutenção de trens e do metrô em São Paulo. O órgão exige uma indenização aos cofres públicos de R$ 2,5 bilhões. Empresa da Camargo Corrêa, a Intercement também aparece em investigações do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) sobre cartel no setor de cimentos.

No Rio de Janeiro, a Andrade Gutierrez e Odebrecht compartilharam documentação na concorrência de obras do PAC no Complexo do Alemão, segundo reportagem da Folha de São Paulo. Além de indicarem a mesma empresa (Pomagalski) para fornecer os materiais para a instalação dos teleféricos, Odebrecht e Andrade Gutierrez usaram a mesma tradução juramentada da apresentação desta companhia. De acordo com a reportagem, “documentos apreendidos em várias operações da Polícia Federal mostram que empreiteiras formam consórcios ‘paralelos’ antes da disputa de licitações com a finalidade de superfaturar obras públicas”.

Enquanto isso, nas obras para as Olímpiadas…

Na construção do Parque Olímpico, em Jacarepaguá, e do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), no centro da cidade, a licitação teve apenas um concorrente. As construtoras Norberto Odebrecht e Andrade Gutierrez se uniram para ganhar a primeira, cujo orçamento estimado ultrapassa R$ 2,1 bilhões. Já no VLT não ficou ninguém de fora: foram agraciadas a Odebrecht, OAS (por meio da Invepar), Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa (por meio da CCR). 

Para administrar a concessão de R$ 1,2 bilhão por 25 anos, formou-se o Consórcio VLT Carioca. Nele estão presentes, além de duas companhias estrangeiras, a Odebrecht, a CCR, a Invepar e a Riopar, que conta com a participação do empresário Jacob Barata Filho, que controla grande parte da frota rodoviária da cidade. Mesmo assim, quando questionado sobre sua relação com governantes em uma de suas raras entrevistas, Barata foi direto. “Ninguém está mais próximo do poder público do que empreiteira. […] A gente quer um dia chegar lá. Nós somos crianças perto dessa turma”, afirmou.

Odebrecht, CCR e Invepar também estão juntas no consórcio vencedor da licitação para execução das obras e manutenção da BRT Transolímpica, que prevê investimentos de R$ 1,6 bilhão. O corredor expresso ligará a Barra da Tijuca ao bairro de Deodoro, os dois principais polos dos Jogos de 2016. No caso da construção do corredor expresso Transcarioca, da empresa Andrade Gutierrez, o empreendimento foi considerados superfaturado pelo Tribunal de Contas do Município. Segundo auditoria do órgão, houve sobrepreço de R$ 66 milhões na construção dos mergulhões da via que ligará o Aeroporto Antonio Carlos Jobim à Barra da Tijuca. Antes mesmo da inauguração da obra, foram detectados problemas, como asfalto remendado e rachaduras.

O Maraca

Ao contrário do que aconteceu nas obras de outros estádios para a Copa, a reforma e a privatização da gestão do Maracanã foram feitas em duas etapas. Odebrecht e Andrade Gutierrez fizeram as obras do estádio, que recebeu seu primeiro evento-teste em abril de 2013; quase um ano depois, o Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro apontou superfaturamento de R$ 67,3 milhões nas obras. Além disso, graças à atuação do Tribunal de Contas da União – que também apontou superfaturamento – o orçamento das obras no estádio foi reduzido entre R$ 150 e 200 milhões, segundo o ministro Benjamin Zymler.

Sem considerar as obras no entorno, o custo da reforma do estádio até agora foi de R$ 1,2 bilhão, bancado com recursos do BNDES e Caixa Econômica Federal, além de empréstimo do CAF (Banco de Desarrollo da América Latina). Assim, inteiramente novo, o Maracanã foi entregue para a iniciativa privada. A própria Odebrecht se candidatou e ganhou a licitação da Parceria Público-Privada (PPP) como integrante do Consórcio Maracanã S/A, ao lado de Eike Batista e da AEG, em um processo que está na mira do Ministério Público do Rio.

A ação civil pública, movida pelo MPRJ, questiona o fato da empresa IMX ter elaborado o projeto utilizado para embasar o edital que ela mesmo venceu e também a decisão de demolir parte do entorno do estádio, como a Aldeia Maracanã (antigo Museu do Índio), Parque Júlio Delamare, Estádio de Atletismo Célio de Barros e a Escola Friedenreich.

“O Estado partiu da premissa que a viabilidade econômica da concessão do Maracanã dependia da exploração do entorno. Nós entendemos que esta é uma premissa falsa, em função justamente deste estudo de viabilidade. As receitas da exploração do estádio já eram suficientes para viabilizar economicamente o negócio”, diz o promotor Eduardo Santos, responsável pelo caso.

Estudos da IMX apontam as atividades comerciais no entorno como responsável por apenas 12% das receitas, enquanto consumiriam mais de 2/3 das despesas. Segundo Eduardo Santos, quando questionados, o Estado e a IMX afirmaram que é uma questão de sinergia. “Diziam que você só vai ter um público mais rentável se tiver um lugar para estacionar, um restaurante bacana. Isto não é algo que possa ser demonstrado matematicamente, mas é o argumento de defesa de ambos”, afirma.

Após as manifestações do ano passado, o governo recuou com a proposta da demolição. Mesmo assim, o Consórcio se manteve na gestão do Estádio. Beneficiando as empresas, a privatização do Maracanã se tornou um mau negócio para o governo do Estado. Os R$ 7 milhões da outorga anual a ser paga pelas empresas aos cofres públicos não cobre nem a terça parte dos juros do empréstimo solicitado pelo então governador Sérgio Cabral ao BNDES para bancar as reformas do estádio antes de privatizá-lo.

PPP da Zona Portuária

Igualmente benéfica para o clube das empreiteiras foi a PPP da Zona Portuária. Com investimentos na ordem de R$ 7,7 bilhões, a Operação Urbana Porto Maravilha é executada pela Odebrecht, OAS e Carioca Nielsen. Viabilizada por meio de uma “engenhosa operação financeira”, segundo o site oficial do projeto, a operação urbana foi criada para “promover a reestruturação local por meio da ampliação, articulação e requalificação dos espaços públicos da região, visando à melhoria da qualidade de vida de seus atuais e futuros moradores e à sustentabilidade ambiental e socioeconômica da área”.

Segundo Orlando dos Santos, professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR), a operação possui três mecanismos principais: venda de terras públicas, isenções fiscais e emissão de Certificados de Potencial Adicional de Construção (Cepacs) para potencializar a exploração econômica do local. Dados do Dossiê do Comitê Popular da Copa apontam que mais de 600 famílias pobres foram removidas por causa do projeto.

A Prefeitura anunciou ainda um empreendimento imobiliário com o grupo Porto 2016/Solace, que além das três empreiteiras do Porto Maravilha (Odebrecht, OAS e Carioca Nielsen) reúne também uma empresa de Eike Batista. Também ofereceu uma linha de crédito especial para os servidores municipais comprarem esses imóveis.

“Hoje [a Zona Portuária] é o lugar da cidade onde mais tem especulação imobiliária, mais do que a Barra, e graças a Deus é assim”, comemorou recentemente o prefeito Eduardo Paes.

“Há um acionamento simbólico das Olimpíadas para validar certas intervenções públicas. É muito mais uma lógica de legitimação das intervenções do que efetivamente estar ou não associado aos Jogos”, critica Orlando dos Santos.

Longe dali, na zona Oeste da Cidade, a PPP do Parque Olímpico (R$ 2,1 bilhões) envolve a remodelagem para as Olimpíadas de aproximadamente 1,18 milhão de metros quadrados, uma área equivalente ao bairro do Leme. Deste total, 75% das terras serão entregues para a iniciativa privada ao fim da operação.

Com forte atuação naquela região, a construtora Carvalho Hosken se uniu com a Odebrecht e a Andrade Gutierrez para formar o Consórcio Rio Mais, o único que concorreu – e ganhou – a licitação. Odebrecht e Carvalho Hosken também estão à frente da construção da Vila dos Atletas, em terreno próximo ao Parque Olímpico. O local receberá sete condomínios que acomodarão 18 mil atletas em 2016 e serão entregues à iniciativa privada após os jogos.

A arquiteta Giselle Tanaka, que participa do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas e pesquisa as intervenções no Parque Olímpico, acredita que o contrato do projeto não possui risco nenhum para as empresas. “A Prefeitura repassa as terras subvalorizadas para o Consórcio e ainda fazem uma remuneração mensal para as construtoras. 

Elas recebem dinheiro público por tudo que estão construindo”, afirma. De acordo com estudos realizados pela arquiteta, o valor do metro quadrado no repasse da área bruta de terras públicas para o consórcio Parque Olímpico 2016 (posteriormente batizado como “Consórcio Rio Mais”) foi de cerca de R$ 1,69 mil. No mercado, o metro quadrado das habitações construídas na região é de R$ 7,5 mil, em média, segundo a imobiliária Lopes Rio.

Atualmente, o Ministério Público Federal investiga a denúncia de supressão da vegetação nativa do Parque Olímpico sem nenhum critério ou estudo prévio (Procedimento Administrativo nº 1.30.001.007236/2012-14) e o Ministério Público do Estado recomendou a suspensão das obras do Campo de Golfe no final de maio de 2014.

Cabo de guerra

Considerado um dos grandes legados dos jogos de 2016, o Projeto de Recuperação Ambiental do Sistema Lagunar da Barra e Jacarepaguá teve seu contrato de R$ 673 milhões assinado somente em março deste ano, quase oito meses após o anúncio do vencedor da licitação pelo governo do Estado. A demora ocorreu justamente por causa de uma denúncia de acerto prévio entre as empreiteiras, publicada em julho de 2013 na Revista Época.

A revista teve acesso ao resultado da licitação e o divulgou de forma cifrada cerca de uma semana antes da abertura dos envelopes com os lances que levaram à vitória do Consórcio Complexo Lagunar (formado por Andrade Gutierrez, OAS e Queiroz Galvão). Segundo a reportagem de Isabel Clemente, a Odebrecht teria apresentado uma proposta de cobertura em troca de ter faturado poucos dias antes outra licitação de valor aproximado, em que a Andrade Gutierrez e a Queiroz Galvão apresentaram lances perdedores.

Após a denúncia, a Secretaria de Estado do Ambiente suspendeu o edital e solicitou investigações ao Ministério Público e ao CADE. Em agosto, anunciou uma nova concorrência, que foi questionada na justiça pelas integrantes do Consórcio Complexo Lagunar. O primeiro mandado de segurança foi negado; um segundo, concedido. Somente no dia 18 de dezembro, já com ambos mandados unidos em um único processo, o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ) verificou a “coexistência de decisões sobre os mesmos fatos em sentido diametralmente opostos” e permitiu a continuidade do edital.

No dia seguinte, 19, o promotor Rogério Pacheco solicitou o arquivamento do inquérito contra as empresas, concluindo que “diante dos fatos apurados na presente investigação, verifica-se que não restaram indícios mínimos de práticas de atos ilícitos capazes de configurar irregularidades na licitação apresentada”. De acordo com ele, a conduta da Secretaria de Estado no caso foi “calcada, principalmente, na moralidade administrativa” e o fato de nenhum pagamento ter sido feito às empresas “afasta a hipótese de dano ao erário”.

Logo depois as empreiteiras foram ao Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro e interpuseram agravo regimental, recurso especial, recurso extraordinário e medida cautelar para anular o segundo edital.

Novamente, a segunda licitação foi suspensa. Já em meados de janeiro de 2014, o governo do Estado desistiu. Alegando que “passados mais de seis meses das comunicações ao CADE e ao MP, nenhuma medida foi determinada por parte daqueles órgãos”, o secretário Carlos Minc solicitou a revogação da segunda licitação. E convocou o “consórcio vencedor do primeiro certame para assinatura do contrato e imediato início às obras”. Minc enfatizou ainda a “exiguidade de prazos para cumprir compromisso olímpico internacional do país”.

Em março deste ano as empresas investigadas pelo crime de cartelização enfim assinaram o contrato, que prevê 30 meses para a conclusão das obras. Ou seja, no cronograma atual, a recuperação ambiental das lagoas da Barra e Jacarepaguá não será concluída até as Olimpíadas. A Secretaria afirma estudar “alternativas para acelerar as obras”. Responsável pela apuração do crime de cartel, o CADE informou à reportagem que o inquérito é de natureza sigilosa e que “não há prazo para a investigação ser concluída”.

“Caso alguém tenha acesso a uma informação antecipada do resultado, isso não é apenas um ilícito concorrencial, uma coordenação de concorrência. É um ilícito de natureza penal também. Não é só uma questão econômica, é uma questão policial. Os elementos trazidos pela revista Época justificam uma investigação se há algum tipo de coordenação entre as empresas que participaram da licitação – mas não são ainda suficientes para determinar a existência desse ilícito”, afirma o economista Luiz Carlos Delorme, ex-conselheiro do CADE.

Prejuízo aos Trabalhadores

Apesar de serem possíveis indícios de cartelização, a formação dos consórcios e o rodízio entre vencedores não constituem por si só uma prática ilícita. “O crime de cartel é a cooperação ilegal entre empresas com objetivo de obter vantagens concorrenciais. Só é passível de ser provado através de documentos que indiquem este tipo de cooperação”, diz Luiz Carlos Delorme.

Celso Campilongo, conselheiro do CADE entre 2000 e 2002, pós-doutor em Direito e professor da PUC-SP, completa: “Dependendo da estrutura do mercado os rodízios podem significar acordo entre concorrentes. Pode ter uma cortina de fumaça para dar a isso uma aparência de legalidade e por trás dela pode haver uma ampla troca de informações entre concorrentes – o que o direito antitruste procura evitar. Mas também paradoxalmente pode ser o inverso. O fato de não haver sempre as mesmas parcerias, mas um rodízio, pode mostrar dinamismo competitivo”, afirma. Porém, Campilongo destaca a intensa comunicação entre empresas como um elemento potencialmente perigoso para a concorrência nas licitações. Ele cita uma passagem de Adam Smith no livro ‘A Riqueza das Nações’: “Pessoas com o mesmo tipo de negócio raramente se reúnem, ainda que seja meramente por entretenimento ou diversão, sem que a conversa termine em uma conspiração contra o povo ou em algum tipo de acordo para aumentar os preços”.

Para Nilson Duarte, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Pesada, além do possível prejuízo à livre concorrência, os diversos consórcios também prejudicam os trabalhadores. “Eles trabalham em cima de um CNPJ com início, meio e fim. Quando terminam a obra, eliminam o CNPJ e acaba a estabilidade para os trabalhadores, que às vezes estão ainda em tratamento de saúde. Aí eles vão recorrer a quem?”, questiona. “Com aumento concomitante de lucros, nós observamos um aumento da diferença salarial entre executivos (CEOs) e trabalhadores em geral.

A Copa do Mundo certamente ajudou a nos fazer uma sociedade mais desigual”, diz o jornalista e sindicalista sul-africano Eddie Cottle, autor do livro ‘Copa do Mundo da África do Sul: um legado para quem?’. Se aqui as empreiteiras são chamadas de irmãs, lá as cinco maiores construtoras do país (Aveng, Murray & Roberts, Group Five, Wilson Bayly Holmes–Ovcon – WBHO – e Basil Read) são conhecidas como “Big Five”. Enquanto aqui pairam suspeitas sobre as empreiteiras, lá elas foram condenadas pela conduta anticompetitiva.

“Dois caminhos levaram à descoberta do cartel. Primeiro, a investigação da Comissão de Concorrência da África do Sul sobre outras condutas anticompetitivas no setor de construção revelou que estas eram amplamente difundidas em todo setor. Segundo, houve aumentos contínuos no orçamento alocado pelo governo para a construção de estádios e outros projetos de infraestrutura para a Copa, o que levou a Comissão a iniciar um projeto de pesquisa para determinar se a conduta anticoncorrencial poderia ter contribuído para estes aumentos de custos”, afirmou em nota o órgão – algo como o CADE da África do Sul.

Das 9 cidades-sede na África do Sul, 6 construíram ou reformaram seus estádios para a Copa: em todas eles houve conluio entre as empresas. Depois das investigações, em 2011, a Comissão fechou um acordo oficial [Fast-Track Settlement] com 15 empreiteiras que assumiram suas condutas anticompetitivas em diversas obras, inclusive da Copa, para o pagamento de 1,4 bilhões de rands no total. A empresa mais penalizada pagou 311 milhões de rands – algo em torno de R$ 65 milhões hoje. Eddie considera a penalidade “bastante modesta, dado os lucros na época”. Agora, a Comissão está finalizando a investigação e a ação penal contra as empresas que não vieram a público revelar suas condutas.

Construção do estádio de Johannesburg. Investigação oficial condenou pelo crime de cartel empreiteiras responsáveis por obras para a Copa

“Aumentos consistentes nos preços de materiais e custos dos estádios e infraestrutura são os fatores mais evidentes na identificação do cartel. Claro, isso pode ser escondido pelo disfarce da inflação, mas então os cartéis por sua própria natureza produzem pressões inflacionárias”, pondera o jornalista sobre o cartel das empreiteiras em seu país. Cottle afirma que o “Big Five” obteve em média 100% de lucro entre 2004 e 2009. E provoca: “Será que no Brasil é diferente?”. Procurada pela reportagem, nenhuma das “quatro irmãs” forneceu explicações sobre a razão econômica para a formação dos consórcios. A Andrade Gutierrez se limitou a dizer que “são decisões estratégicas” e que não iria comentar o assunto.

Um crime vantajoso

O Ministério da Justiça define cartel como “um acordo explícito ou implícito entre concorrentes para, principalmente, fixação de preços ou quotas de produção, divisão de clientes e de mercados de atuação”. Em inquérito sobre o cartel do metrô em São Paulo, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) diz que os cartéis são “uma das condutas mais difíceis de serem investigadas.”

A prática é considerada a mais grave lesão à concorrência porque “prejudica seriamente os consumidores ao aumentar preços e restringir a oferta, tornando os bens e serviços mais caros ou indisponíveis”, segundo a cartilha do CADE sobre cartel em licitações. O Ministério aponta alguns indícios do crime, como a existência de um padrão claro de rodízio entre os vencedores ou quando licitantes com “condições de participar isoladamente do certame apresentam propostas em consórcio”.

Segundo o CADE, por conta das especificidades das contratações públicas, “as referidas estratégias podem inclusive ser implementadas por intermédio de instituições legais, tais como o consórcio e a subcontratação”. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) também enumera estratégias parecidas, utilizadas na cartelização em licitações, tais como: envio de propostas fictícias ou de cobertura; não apresentação de propostas de empresas que poderiam participar da concorrência; apresentação de propostas em rodízio ou divisão de mercado. No Brasil, se comprovada, a prática de cartel pode ter penas de dois a cinco anos de prisão ou multa.

No entanto, raramente executivos são presos pela prática, segundo o promotor de Justiça de São Paulo responsável pelo caso do cartel do metrô. “O criminoso do cartel, de colarinho branco, paga uma multa e fica impune, porque a multa, comparado com o que ele se locupletou daquela vantagem, é um risco calculado. Nos países anglo-saxões a formação de cartel é um crime grave, o empresário que pratica cartel vai, efetivamente, para a cadeia. Se você não fizer isso, passa a ser um crime vantajoso”, disse Marcelo Batlouni Mendroni, em entrevista para a Rede Brasil Atual

Uma longa história

Segundo o historiador Pedro Campos, professor da Universidade Federal Rural de Rio de Janeiro, a prática de cartelização no Brasil vem de longa data e é típica de períodos com grandes investimentos públicos. “Quando se trata de períodos de regressão econômica as empreiteiras entram em uma briga fratricida. Mas na ditadura, por exemplo, elas agiram claramente de forma cartelizada. Isso era aberto”.

Em sua tese de doutorado, ele aponta como a divisão de obras era explícita mesmo às vésperas da redemocratização do país, tendo nos sindicatos e associações empresariais os principais intermediários. “Eles combinavam inclusive possíveis brigas e recursos. Dividiam obras para garantir sempre um maior taxa de rentabilidade. Entre as empreiteiras isso é notório”, afirma. A prática ocorria às claras, principalmente por meio dos sindicatos patronais e associações de empreiteiras.

Um exemplo: em 1984 o Sindicato Nacional da Indústria da Construção Pesada (SINICON) estampou no primeiro número de seu informe impresso a seguinte manchete: “SINICON quer dividir obras rodoviárias”. A notícia relatava o lobby do sindicato no Ministério dos Transportes para conseguir uma “distribuição proporcional de obras do Programa de Recuperação de Estradas” entre seus membros.

“No Brasil os cartéis não eram entendidos como ilícitos. Nós temos desde 1938 um dispositivo legal proibindo os cartéis, porém ele não era aplicado. Em muitos períodos históricos o próprio governo incentivou a comunhão dos agentes econômicas e sua atuação coordenada. No governo militar isso era muito forte. A mudança de orientação do governo veio na primeira metade dos anos 2000. Antes disso, eram raríssimos os casos [de condenação por cartel]. As partes sequer tinham consciência da ilicitude do que estavam fazendo”, explica a advogada Paula Forgioni, professora da USP que atua com direito da concorrência.

Hoje, a atual diretoria do SINICON tem João Borba Filho (Odebrecht) na presidência. Roberto Zardi (OAS), Flávio Gomes Machado (Andrade Gutierrez) e Marcelo Bisordi (Camargo Corrêa) dividem a vice-presidência com outros executivos. Dentre as empresas, as três primeiras também possuem representantes na diretoria da Associação das Empresas de Engenharia do Rio de Janeiro (AEERJ).

Fundada em 1975 “com a missão de lutar, junto às autoridades estaduais e municipais por melhores condições de trabalho e por preços justos”, a Associação de Empreiteiros do Estado do Rio de Janeiro (AEERJ) percebeu em 1998 “que a sua credibilidade estava ameaçada pela palavra ‘empreiteiro’, estigmatizada pela opinião pública, que não via com bons olhos qualquer pleito ou informação desse setor”. “Após diversas consultas, pesquisas realizadas por empresas de comunicação e exaustivas discussões na Diretoria, foi aprovada, em Assembleia Geral, a mudança do nome da entidade [...], mantendo a sigla AEERJ”, relata sua publicação “30 Anos: 30 anos de obras públicas no Rio de Janeiro (1975-2005)”.

Durante a preparação para a Copa as associações de empreiteiras também buscaram influenciar decisões, como aponta a arquiteta Any Ivo em sua tese de doutorado. Ainda em 2007 a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib) organizou um seminário sobre a Copa em Brasília com a presença do Presidente Lula, 12 ministros e representantes da Câmara dos Deputados, Senado e Poder Judiciário. O objetivo era chegar a uma “visão bastante sincronizada do que é preciso fazer e como fazer”, segundo Ralph Terra, vice-presidente executivo da Associação

No ano seguinte, a ABDIB se tornou responsável pela elaboração dos projetos que orientaram “União, Estados, Distrito Federal e Municípios no que concerne à infraestrutura necessária para a realização da Copa”. 27 empresas filiadas à associação se uniram então para formar um “GT Copa”.

Entre elas, estão a Odebrecht, Andrade Gutierrez, OAS e Camargo Corrêa. De acordo com o sumário executivo dos estudos da ABDIB, o levantamento dos investimentos necessários para as cidades candidatas foi feito por aproximadamente 50 profissionais. Foram analisados 9 aspectos da infra-estrutura (Mobilidade urbana; Aeroportos; Portos; Rede Hoteleira; Rede Hospitalar; Energia; Saneamento; Segurança; Telecomunicações) nas 12 cidades posteriormente escolhidas como sede, além de Belém, Campo Grande, Florianópolis, Goiânia, Maceió e Rio Branco.

Segundo relatório da Câmara dos Deputados, cada integrante do Grupo Técnico (GT) “teria contribuído com R$ 300 mil – totalizando, portanto, R$ 8,1 milhões” para a viabilização dos estudos.